Entrevista José Sergio Gabrielli – Revista Época

20 de junho de 2009 / 00:06 Tecnologia e Inovação Enviar por e-mail Enviar por e-mail Imprimir

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Entrevistador: Um dos itens que está no requerimento da CPI, águas profundas, está sob investigação na Polícia Federal com colaboração da Petrobras. O segundo: potenciais problemas do chamado superfaturamento

Sergio Gabrielli: A Petrobras tem muito tempo nessa história. Já puniu pessoal interno e continua colaborando. A Petrobras demitiu dois e suspendeu três. A Companhia já tem atividades no âmbito interno. A Petrobras colaborou com a polícia e está disposta a continuar com o Ministério Público. A empresa está disposta, inclusive, para avançar ao máximo possível. Principalmente na questão do chamado superfaturamento. Chamado porque na verdade o conceito superfaturamento é complicado.

Entrevistador: Da Abreu Lima?

Sergio Gabrielli: Desta refinaria e de plataformas. Todos dois são processos de discussão técnica no âmbito do TCU. E, toda a discussão técnica, neste momento, conta com toda a colaboração da Petrobras. No caso da Abreu Lima, nossa resposta ao TCU tem 10.000 páginas.

Entrevistador: São 10.000 páginas substanciais ou 10.000 páginas cheias de documentos?

Sergio Gabrielli: São 10.000 páginas com documentos. Documento é documento. Na questão da Receita Federal há uma discussão, absolutamente normal, entre o contribuinte e a Receita Federal. Não há necessidade de CPI para discutir técnica contábil e tributária. No que se refere a patrocínios, nós temos 26.000 pedidos de patrocínio, patrocinamos 2.600 eventos. Então, vamos identificar qual é o problema.

Entrevistador: Vou falar uma coisa até pragmática. Se é assim tão tranquila por que não falar o que é? Vinde a mim a CPI, que a gente vai resolver…

Sergio Gabrielli – Nós estamos dizendo isso, mas não somos parlamentares, somos empresa. Toda essa discussão do Senado não é nossa. Está sendo feito o movimento do Senado, uma discussão parlamentar legítima. A posição da Petrobras é: eu fui ao Senado conversar com o promovente da CPI e afirmei que se eles querem ir a fundo em qualquer assunto, nós estamos dispostos a vir quantas vezes for necessário. Vamos fazer comissões mistas, investigar assuntos na profundidade que eles queiram. Eu estou disposto a vir aqui, eu mando o técnico vir aqui. Não tem problema. Agora, uma CPI que não tem determinação de assunto, em que vale tudo, é você criar um chamamento ao linchamento público de tudo o que pode acontecer. Uma empresa do tamanho da Petrobras, que tem 240.000 contratos, que representa hoje um volume de exportações mais de 6% das exportações brasileiras, que representa mais de 12% da arrecadação federal, que representa mais de 25% da maior parte da receita dos estados brasileiros, que tem milhares de gerentes… Ou seja, vai encontrar alguma coisa, e você tem que punir os desvios, e tem que melhorar os processos. Então vamos identificar esses problemas.

Entrevistador: Isso é bem inevitável. Estatisticamente vai achar…

Entrevistador: Tem que lembrar da questão do TCU, da lei 8666. Eles pegam as vírgulas…

Sergio Gabrielli: Essa questão da 8666 é uma coisa muito interessante. Quer dizer, a lei do petróleo 9478 é uma lei e nós somos obrigados a cumprir. Esta lei remete ao presidente da República, que definiu um decreto que define como serão as licitações da Petrobras. Esse decreto foi assinado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, e é conhecida pela lei 2745. Por tanto, esse decreto existe, está assinado pelo presidente da República e nos obriga a cumprir isso. A Advocacia Geral da União disse que nós somos obrigados a cumprir o decreto. O TCU acha que não devemos cumprir, porque julga inconstitucional.

Entrevistador: Porque a constituição prevê o Estatuto de Defesa Pública que nunca foi feito?

Sergio Gabrielli: Isso. Quem é o Tribunal Constitucional Brasileiro? O Supremo Tribunal Federal. Nós pedimos a posição do Supremo Tribunal Federal. O Supremo até agora não julgou o mérito, mas todas as liminares que nós pedimos, nós ganhamos, de dez a zero. Nós estamos absolutamente dentro da lei.

Entrevistador: E quando o Supremo julgar o mérito?

Sergio Gabrielli: Quando o Supremo julga o mérito, está definido.

Entrevistador: Mas e aí? O que o senhor acha que vai acontecer?

Sergio Gabrielli: Não vou especular sobre o julgamento.

Entrevistador: Presidente, eu queria voltar à questão da reputação. A história de prêmios da Petrobras não é de agora, e também não é de agora que a Petrobras está no centro de polêmicas. E isso não começou nessa gestão e nem vai terminar aqui. Isso é fato.

Sergio Gabrielli: Desde 1954, já tiveram várias tentativas de CPI sobre a Petrobras. Uma foi na época do governo do presidente Juscelino Kubitschek. Começou com um grande escândalo e a CPI concluiu que a única irregularidade foi ter gastado um pouco mais do que devia em publicidade.

Entrevistador: Mas isso é muito antigo. Essa foi a única CPI da história? Não teve outras?

Sergio Gabrielli: CPI não. Tiveram algumas tentativas.

Entrevistador: Mas ia chegar nesse ponto. Com CPI ou sem CPI, a tentativa de investigar e de mostrar irregularidades que nunca se provaram ou que se comprovaram não é uma rotina porque é um exagero. Mas é algo que acontece frequentemente na história de uma companhia desse tamanho. A reputação dela foi afetada? O senhor vê consequências? Porque existe também outra crítica. Essa CPI pode estar tão aberta e tão perdida que esse foco pode não chegar a lugar nenhum. É isso que os críticos falam também em relação à CPI.

Sergio Gabrielli: Criação da CPI, não criação da CPI, instala ou não instala. O que a Petrobras está dizendo é o seguinte: nós estamos dispostos a colaborar o máximo possível e queremos apenas quitar, do ponto de vista legal, que seja uma CPI de fatos determinados, como é a lei. Para os fatos que eles alegam  temos explicações e estão em processo de análise por outros órgãos.

Entrevistador: Um dos fatos alegados tem a questão do royalties do petróleo.

Sergio Gabrielli: Não temos nada a ver com isso. Nós pagamos ao Governo Federal. Não participamos de nada, nenhuma distribuição.

Entrevistador: Mas eu queria voltar àquela questão da reputação. A Petrobras tem uma reputação muito bem construída. Isso é inquestionável. O senhor acha que essas pequenas denúncias, ou grandes denúncias, que não sejam provadas têm poder para afetar a reputação da empresa?

Sergio Gabrielli: Eu tenho usado a metáfora da luta de boxe. O lutador de boxe recebe muito soco no fígado. Ele pode até não cair, mas ele vai se enfraquecer, certo? Então uma CPI são denúncias generalizadas. Se você acompanhar os últimos quatro meses de dois jornais brasileiros, vai ver que todos os domingos têm denúncias contra a Petrobras. Na segunda-feira temos uma repercussão e na terça-feira tem um parlamentar falando que é preciso ir pra CPI. E assim consecutivamente. Então, evidentemente que é soco no fígado. Enfraquece. Não vai derrubar.

Entrevistador: É soco no fígado quando pega num ponto vital. Não pegou num ponto vital?

Sergio Gabrielli: Mas é soco no fígado. O soco no fígado não derruba.

Entrevistador: Já que o senhor falou uma vez do blog, eu queria já entrar nesse assunto, que eu acho uma coisa importante. Logo no início o senhor disse que vocês tentaram mudar a relação da imprensa tradicional com esse instrumento. E o que eu li é o seguinte: o que teve mais destaque foi a criação do blog.

Sergio Gabrielli: É um debate. Por sinal, os leitores dos jornais poderiam fazer uma pesquisa sobre isso. Observem a Folha de São Paulo, Globo, Estadão e vejam o que os leitores do blog estão dizendo. O jornalista tem uma posição, mas os comentaristas que estão lendo a matéria deles têm outra. A Folha de São Paulo fez uma enquete que tem a seguinte pergunta “neutra”: você concorda que a Petrobras deve vazar as informações para a imprensa? Essa é a pergunta. 86% dos que responderam foram a favor. Eu não estou dizendo que nós estamos vazando.

Entrevistador: Presidente, ouvindo o senhor falar, me deu a impressão que no fundo a criação desse blog foi uma boa idéia.

Sergio Gabrielli: Eu acho excelente. Não tem vazamento. O que nós estamos fazendo hoje? Nós estamos colocando à meia-noite.

Entrevistador: Tudo bem, então hoje não tem vazamento.

Sergio Gabrielli: Não tinha vazamento antes também. Antes, se não publicava a meia-noite, publicava as 19h. O jornal está saindo que horas? Que horas é a edição do jornal? O problema é que há dois veículos com velocidades distintas. Essa é a realidade. Eu concordo com alguns jornalistas que estão escrevendo que “o turbilhão é inevitável”. Tem uma colunista que escreveu sobre newsweek, não escreveu sobre blog, e que termina falando sobre isso. Quem não gosta de novidade, jornalista não é, (disse) Miriam Leitão.

Entrevistador: Mas o senhor já mudou de idéia, voltou atrás na questão.

Sergio Gabrielli: Não voltamos atrás. Nós ajustamos o timing, à meia-noite. Olha o que aconteceu na última matéria da Folha de São Paulo, e na última matéria do Globo. A manchete da Folha de São Paulo sobre quatro e não sei quantos milhões para o PT. A matéria está cheia de erros factuais de informações. Nós mandamos uma carta no domingo, hoje é quarta-feira, e até hoje a Folha não publicou a carta. E nós colocamos no blog no domingo, mostrando erros factuais. Pegamos uma matéria, publicada no Valor, sobre a questão tributária. A matéria que está cheia de erros conceituais. Respondemos ao Valor. O Valor publicou nossa carta e botou a explicação do repórter: nós não tivemos posição, apenas divulgamos o documento do consultor da oposição.

Entrevistador: Então vocês optaram por deixar claro?

Sergio Gabrielli: Nós estamos deixando clara a manipulação que existe das informações ricas e dando ao leitor a opção de fazer o julgamento. O que aconteceu na modernidade é que você quebrou, de fato, o monopólio da relação entre o leitor e a fonte. Mas isso é muito bom.

Entrevistador: Quando a Petrobras usa uma informação, que naquele momento é privilegiada, como será a matéria do órgão X?

Sergio Gabrielli: A informação não é privilegiada. Você não pode ter privilégios. A informação de quem é? É da Petrobras. Por que tem que ter essa privatização da informação?

Entrevistador: Não é privatização. É pauta do veículo.

Sergio Gabrielli: A informação é gerada pela Petrobras. Então nesse ponto, a informação é da Petrobras. Vocês estão querendo fazer a propriedade intelectual da pergunta. Bom, nós estamos dizendo que a resposta é nossa.

Entrevistador: Eu quero saber se esse mesmo padrão de comportamento será adotado para quando a Petrobras não responder. O senhor deixou claro, nos momentos em que a imprensa errou, que os conhecimentos não foram suficientes.

Sergio Gabrielli: Quando a Petrobras não responder, nós vamos dizer que não respondemos. O que está sendo colocado, nós não responderemos. Um jornalista pediu todos os contratos da Petrobras de 2002 para cá. Eu não posso entregar todos os contratos da Petrobras. Ele deve perguntar o que ele deseja saber. Não tem como essa pergunta ser respondida. Ou seja, isso vai exigir também do jornalista um pouco mais de apuração, levantando perguntas pertinentes. O nosso blog não é contra a imprensa. Hoje, temos 404.000 visitantes. Nós não chegamos ainda à fase do Twitter. Eu pessoalmente faço o Twitter, mas a Petrobras não tem. Eu faço da minha casa. A Petrobras, por razões de segurança da nossa rede, não permite o acesso. Mas o Twitter é um avanço a mais, vai ser um passo a mais, vai criar mais problema ainda na relação com a imprensa.

Entrevistador: O senhor falou da questão da lei 8666, do decreto. A pergunta é a seguinte: por que o TCU hoje é o encarregado de todas as auditorias? O senhor mesmo cita que há algumas centenas de processos em andamento não concluídos. Mas é comum também, às vezes, a Petrobras não seguir nem a lei 8666 nem o decreto 2745. E isso eles apontam em alguns processos. Quer dizer, como o senhor mesmo disse, vai vasculhar uma empresa desse tamanho, vai encontrar alguma coisa errada. Porque há certos níveis de autonomia distribuídos, nem tudo passa pela auditoria. Enfim, coisas que acontecem no mundo da Petrobras, no mundo real. Então eu queria falar disso, há processos em andamento, há questões que estão sendo levantadas, uma delas são os aditivos? Os aditivos dos contratos que acabam elevando o valor dos orçamentos iniciais. Eu não vou dizer que isso não é uma frequência na Petrobras, mas isso não é uma coisa rara. A gente sabe que a indústria petrolífera é muito amarrada, ela tem os orçamentos muito altos.

Sergio Gabrielli: Bem, o problema todo é o seguinte: a maioria dos grandes contratos da Petrobras são em obras complexas. Quem já fez reforma em casa ou quem já construiu alguma coisa, sabe o que significa iniciar uma obra relativamente simples. Imagina o que é construir uma plataforma, um navio, em um sistema complexo como é o sistema da Petrobras. Faz parte do processo construtivo encontrar dificuldades não previstas anteriormente e faz parte deste processo uma permanente necessidade de ajustar os elementos contratuais às realidades encontradas no momento. Você tem chuva, raio, greve de empregados, terreno diferente do previsto, dificuldades de entregas de produtos, mudança no regime tributário, mudança substantiva no câmbio. Um conjunto de ações que levam à necessidade de alterações de elementos contratuais.

Entrevistador: Mas isso também não vale para uma empresa privada? São iguais?

Sergio Gabrielli: Vale. Talvez mais ainda. O problema é que não tem o TCU.

Entrevistador: Mas essa questão dos aditivos e dos contratos? Dessa lista que o senhor listou, vemos muito isso acontecer no setor público. Às vezes uma obra começa sem ter um projeto inicial, então a empresa estima um terreno que não existe, na hora aumenta o preço, problemas com licença ambiental… Quer dizer, eles têm margem para melhorar essa função? Por que, no caso da modernização da Reduc, o contrato vigorou por 2 anos e foram 24 aditivos?

Sergio Gabrielli: Foram cinco meses de greve.

Entrevistador: Mas foram 24 termos aditivos?

Sergio Gabrielli: Cinco meses de greve dos fornecedores no meio do processo.

Entrevistador: Mas aí justifica 24 termos aditivos?

Sergio Gabrielli: 12 desses são só por prazo.

Entrevistado: Pelo fato de ser uma empresa tradicional, fundada por movimento popular, não seria interessante que o público soubesse que o governo tem uma participação tão importante de controle?

Sergio Gabrielli: Esse tipo de processos são de decisão interna. Nós temos uma enorme transparência, maior do que a maioria das empresas privadas e públicas. Agora, nós temos que preservar os nossos processos internos.

Entrevistador: É a questão da reputação também?

Sergio Gabrielli: Não, não é questão de nada não. É elevar as competências onde nós temos que ter competência. Nós temos que ver o seguinte, nós temos um código de ética, procedimentos formais e sistemas de auditoria e controle. Se nós identificamos nesses processos falhas e desvios, nós vamos investigar. Foram cumpridos os procedimentos internos ou não foram cumpridos? Se foram cumpridos, não temos por que fazer nenhuma ação trabalhista. Se não foram cumpridos, vamos ter ações trabalhistas. Nós podemos advertir, suspender e demitir. Então nós fazemos isso.

Entrevistador: Tem um balanço disso?

Sergio Gabrielli: Tenho. Total de demissões nossas nos últimos seis anos, se eu não me engano, são 1.100 pessoas.

Entrevistador: Agora a CPI tem um caráter investigativo?

Sergio Gabrielli: Não. O Ministério Público e a CGU investigam casos concretos.

Entrevistador: Então essa é a diferença?

Sergio Gabrielli: A diferença é caso concreto. Quando há, nós ajudamos nas investigações. Sempre que necessário, o Ministério Público e a Polícia Federal contam com nossa ajuda nas investigações. No caso da Operação Águas Profundas fizemos uma investigação sigilosa sem tomar nenhuma medida para não atrapalhar a ação da Polícia Federal.

Entrevistador: Há movimentos sociais que fizeram campanha contra a CPI; no Senado há uma movimentação para atrasar a CPI; o senhor não acha que tudo isso ajuda a convergir para a formação de opinião de caixa preta, de manipulação para que as coisas não sejam investigadas?

Sergio Gabrielli: Cada um tem papel diferente. Se o movimento social apóia ou contesta a CPI, acusa ou absolve um determinado parlamentar ou defende a posição de A, B ou C, é um problema do movimento social. O senado tem seu próprio ritmo, não cabe a gente interferir. Nós não podemos e nem devemos nos meter nisso e a Petrobras está dizendo o seguinte: eu quero apenas medir com o que eu tenho que lidar. Me digam o que eu tenho que explicar que eu não vou medir esforços para explicar.

Entrevistador: Mas a impressão que temos é que o movimento sindical é mobilizado a favor da Petrobras?

Sergio Gabrielli: No ano passado tivemos cinco dias de greve, na minha gestão. E não foi a primeira, foram várias greves. Há movimentos de confronto tanto quanto de convergência. Também não é verdade que a Petrobrás está fazendo discurso de 64, da República dos Sindicalistas, e são mentirosas as matérias dos jornais. Um jornal publicou que oitenta e tantos por cento dos cargos são de sindicalistas. Colocam entre os sindicalistas funcionários de carreira, de longo tempo, que nunca foram sindicalistas, e não têm nenhuma vinculação partidária. Por exemplo, a diretoria da Petrobras hoje tem seis membros, mais o Presidente. Se você somar a idade e o tempo de serviço da diretoria deve dar 150, 180 anos. Porque todos têm mais de 30 anos de Companhia. Eu sou o único de fora. Houve poucos movimentos na história da Petrobras em que a diretoria foi toda constituída de quadro profissionais de carreira da empresa.

Entrevistador: Quadro de carreira da empresa?

Sergio Gabrielli: – Da empresa. A tradição era trazer gente de fora para a diretoria. A empresa tem regras claras sobre processos internos de indicação de cargos, tem um procedimento em cascata que é de definição de quem são os gerentes. A empresa tem demonstrado isso. Não é possível aumentar mais de cinco vezes o volume de investimentos em apenas cinco anos se não tiver competência. A competência é fundamental para Companhia. A empresa não é gerida por sindicalistas e políticos. Ela é gerida por profissionais que podem ter sido ou não sindicalistas e não são maioria. Nós temos mais de três mil gerentes, deve haver pouquíssimos gerentes que foram ex-sindicalistas. No entanto, a imprensa está querendo colar na Petrobras uma imagem de que é um bando de sindicalistas e políticos do PT que geram a greve. Entendeu? É um absurdo!

Entrevistador: A gente não acompanhou essa informação de que 80% dos cargos estão na mão de sindicalistas. Mas há uma predominância importante de cargos chaves na área de comunicação.

Sergio Gabrielli: – A maior parte do nosso trabalho de comunicação não é a imprensa. A maior parte do nosso trabalho de comunicação é relacionamento institucional com a vizinhança de nossas áreas de trabalho e com a sociedade que nos cerca. A Gerência de Imprensa tem 11 ou 12 funcionários. É a menor parte da nossa comunicação. Só de trabalho interno nós temos 26 mil pedidos por ano de patrocínio social, nós temos nove mil pedidos de patrocínio cultural, nós temos, hoje, 2.600 projetos em andamento na área cultural, na área social, nós temos 1.600 projetos na área cultural, tudo isso é cuidado pelo órgão chamado Gerência de Comunicação Institucional. Não é imprensa, é outra equipe. Gerência de imprensa tem uma dúzia de pessoas.

Entrevistador: Então isso indicaria, por exemplo, o fato de ter ex-operadores de refinarias?

Sergio Gabrielli: De refinarias, é claro. Eles cuidavam dessa atividade na ponta. Então em relação ao relacionamento com a sociedade, no estabelecimento de vínculos entre a comunidade e a empresa, isto faz parte da estratégica.

Entrevistador: Por que o gasto da Petrobras, na chamada comunicação institucional, pula de duzentos milhões, mais ou menos, para um bilhão, mais ou menos?

Sergio Gabrielli: Porque nossa receita pulou de 60 bilhões pra 240 bilhões.

Entrevistador: E aí transfere?

Sérgio Gabrielli: Não é automático. Porque se você for ver, percentualmente, a da receita é menor. Nós crescemos o tamanho da Petrobras. A Petrobras de hoje é incomparável em relação ao tamanho da Petrobras de 2003.

Entrevistador: Agora uma pergunta que interessa: há um número grande de profissionais que não são concursados na comunicação da Petrobras. A Petrobras informou que são 1.150 e parte disso ainda é terceirizado. Qual a dificuldade de substituir estes terceirizados pelos concursados?

Sergio Gabrielli: Nós estamos fazendo. Hoje, 40% da força de trabalho da Petrobras, que deve estar em torno de 72 mil empregados, 40% tem menos de oito anos na Petrobrás, 60% tem mais de 18 anos na Petrobras. Entre 18 e 8, temos uma década em que não houve contratação. Então, consequentemente, nós tivemos que acelerar os concursos com dois objetivos fundamentais: primeiro, substituir quem está se aposentando e segundo, priorizar quem está terceirizado em atividades que não devem ter terceirizado. Nós não vamos substituir todos os terceirizados, porque tem funções que serão terceirizadas sempre.

Entrevistador: Por exemplo?

Sergio Gabrielli: A manutenção de determinadas coisas, como na área de construção, por exemplo, não é atividade nossa. Objetivamente nós estamos acelerando o processo de contratação por concurso, mas nas áreas em que deve haver funcionários próprios. Sem dúvida, a gente tem uma curva mais do que positiva no crescimento do nível de empregados próprios da Petrobras.

Entrevistador: Do capital total desta empresa, 57% está na mão de acionistas privados. Embora a União seja controladora e o senhor tenha quatro anos como presidente desta empresa, a maior empresa do País e da América Latina, há sempre uma linha fina de equilíbrio. O próprio presidente Lula hora elogia, hora reclama. É uma relação complicada porque vocês devem satisfação aos acionistas privados e ao mesmo tempo ao governo. Não é?

Sergio Gabrielli: A Petrobras gosta de desafios, então ela coloca como sua estratégia objetiva a de equilibrar diferentes interesses que, às vezes, são contraditórios. Nós queremos ser os mais queridos dos acionistas, do governo, dos empregados, fornecedores, clientes, da sociedade, então é difícil. Do ponto de vista dos gestores, particularmente da diretoria, isso exige muito mais de nós, porque, de um lado, temos que seguir estritamente todas as regras de governança e todos os regulamentos de uma empresa privada, mais ainda, porque somos uma das 23 empresas do país que seguem estritamente a lei, pois temos ações na Bolsa. Então, temos que seguir todas as exigências e transparência, de respeito aos acionistas de gestão adequada, de documentação profunda, de certificação das nossas informações, atestado, certificado, analisado pela SEC americana, por auditorias externas contratadas para isso. Somos obrigados a fazer isso por lei. Então um gestor é obrigado a fazer o máximo pelo resultado dos acionistas, entre eles, o governo. Por outro lado, somos obrigados também a atender todos os requisitos, análises e subordinações de uma empresa pública. Temos então o TCU, CGU, Congresso Nacional, ANP, delegacias regionais do Trabalho, IBAMA, órgãos estaduais ambientais, ANP e ANEEL, que formam conjuntos de regras que nos obrigam a tomar determinadas decisões. Isso nos obriga a sermos muito bons gestores públicos e muitos bons gestores privados, fazendo com que o desafio seja maior ainda.

Entrevistador: Quando o PAC foi lançado encampou uma série de projetos que já eram da Petrobras e que estavam sendo tocados com recursos da Petrobras. Agora ganharam o âmbito do PAC. A Petrobras adquiriu alguma vantagem em relação a isso?

Sergio Gabrielli: Se os projetos da Petrobras que estão no PAC levassem prejuízos aos acionistas privados nós estaríamos infringindo os regulamentos legais a que somos submetidos como empresa regulada.

Entrevistador: E não há este risco?

Sergio Gabrielli: Não. O ajuste é estar no PAC sem prejudicar o acionista privado. Estar no PAC é bom, porque permite dar prioridades aos projetos, inclusive junto a diversos órgãos do governo que dão prioridade ao PAC. Isso porque agiliza o relacionamento com um órgão que precisa dar licenciamento para localização ou, por exemplo, uma desapropriação de área. Também agiliza a alteração de sistemas legislativos que viabilizam uma determinada atividade.

Entrevistador: E sobre biodiesel?

Sergio Gabrielli: – A Petrobras hoje é uma empresa que importa diesel, porque não temos nossa capacidade de refino e nosso petróleo brasileiro não produz diesel em quantidade suficiente para atender o mercado brasileiro. Então, minimizar a importação de diesel já é algo muito positivo para nós enquanto empresa. Porque aumentamos o valor adicionado e, se nos tornarmos produtores de biodiesel, melhor ainda, porque capturamos mais valor na cadeia. No nosso caso, capturamos valor por estarmos construindo uma nova cadeia de fornecedores de biodiesel, e nossas plantas estão criando essa cadeia. Hoje, estamos com três plantas de biodiesel. Em longo prazo, tudo isso vai nos dar alternativa de suprimento para além da commodity internacional.

Entrevistador: Existem outros fornecedores que não…

Sergio Gabrielli: Que não marcaram porque nós estamos montando a cadeia com estruturas familiares no Ceará, na Bahia e em Minas Gerais. Essa cadeia tende a ser contracíclica. Ela tem um comportamento futuro, pensando no que a empresa tem que pensar ao longo prazo. Então, do ponto de vista empresarial, tem tudo a ver a gente estar no biodiesel. E do ponto de vista de governo, também é bom porque o governo está com a política para favorecer este setor, numa convergência de interesses, pois o que não pode é um prejudicar o outro.

Entrevistador: Mas o biodiesel não tem restrições técnicas, como a viabilidade?

Sergio Gabrielli: Não; porque nós compramos todo o biodiesel produzido no Brasil e de outros países. Pegamos este biodiesel a preço de leilão. Então, misturamos com o diesel e vendemos, ao preço que compramos, para o consumidor. Então, não tem perda.

Entrevistador: Mas o consumidor não tem perda?

Sergio Gabrielli: Não; porque obtêm um produto que tem menos enxofre no diesel dele, gerando uma crescente produção sustentável em longo prazo para o seu diesel. A diferença é no milésimo do diesel, é pouco. Hoje, ele paga a diferença de 4%. O efeito para o consumidor é nada.

Entrevistador: A Petrobras repetiu um modelo que não deu muito certo na iniciativa privada, que é comprar a produção da familiar e fabricar o biodiesel…

Sergio Gabrielli: Estamos fazendo completamente diferente disso, pois investimos fortemente na área de extensão rural, fazendo mudanças genéticas de sementes e investimentos em logística, e não apenas contrato de compra e produção de agricultura familiar. Estamos fazendo isso também, mas não só, o que faz com que haja um sistema de competitividade.

Entrevistador: Então, na verdade, fica difícil para os outros competirem com a Petrobras?

Sergio Gabrielli: No futuro sim. Isso vai levar um tempo, dois ou três anos.

Entrevistador: Encerrando competição, vamos falar de pré-sal. A única coisa certa é que não será um modelo de concessão unicamente como o que vigora hoje. O senhor concorda? Se sim, por quê?

Sergio Gabrielli: Eu concordo. Quando fez o modelo atual, de concessão, o Brasil estava sem acesso ao mercado internacional, com a economia em crise, com a Petrobras sem recursos e o preço do petróleo baixo. Essencialmente, a lei do petróleo brasileiro favorece a empresa que assumiu o risco porque a empresa entra no leilão e compra uma área para investir. Se nessa área ela acertar o petróleo, o petróleo é dela. E é ela que tem todo o ganho dentro dessas circunstâncias. Hoje, o Brasil está com a economia equilibrada, mesmo nessa crise. Em termos de acesso ao mercado internacional, o Brasil empresta ao FMI, têm duzentos milhões de dólares de reserva, a Petrobras é outra empresa e está consolidada e conseguimos, nos primeiros cinco meses deste ano, captar trinta bilhões de dólares. Se o preço do petróleo continuar em torno dos sessenta e cinco dólares, em cinco anos, teremos todo o nosso investimento financiado.

Entrevistador: O investimento para o pré-sal está incluído em tudo isso?

Sergio Gabrielli: Tudo. Até 2013, o nosso investimento é de cento e setenta e quatro bilhões e quatrocentos milhões de dólares. A Petrobras tem tecnologia, tem capacidade de gestão para fazer isso, e encontramos uma área exploratória de risco mínimo. Nós perfuramos dezesseis poços e encontramos dezesseis poços com petróleo. O risco é mínimo. A nossa realidade é 100% de sucesso.

Entrevistador: E o custo da tecnologia?

Sergio Gabrielli: A Petrobras tem 60% dos 38% já concedidos. Planejamos investir cento e onze bilhões de dólares nessa área, até 2020. Vamos estrear em 2020, produzindo um milhão e oitocentos mil barris por dia do pré-sal. Isso significa que nós próximos doze anos iremos levar a produção da Petrobras a um milhão e oitocentos mil do pré-sal. O primeiro um milhão e oitocentos da Petrobras nós levamos cinqüenta e quatro anos para conseguir e o segundo vai levar doze anos. Isso é viável abaixo de quarenta e cinco dólares o barril.

Entrevistador: Mesmo que o barril caia abaixo de quarenta e cinco?

Sergio Gabrielli: Se o barril for abaixo de quarenta e cinco, claro que muito abaixo não dá. Isso é hoje. Nós conhecemos a tecnologia para a área da superfície do mar, o que fazer entre a superfície e o fundo do mar, nós conhecemos o que fazer para perfurar, então não há problema tecnológico. Podemos aperfeiçoá-la, mas não há grandes desafios.

Entrevistador: Não tem a corrosão?

Sergio Gabrielli: – Tem mais corrosão, menos corrosão, mais H2S, mais CO2, mas isso não é grande problema tecnológico. Não há dificuldades tecnológicas hoje. O problema é que há uma Unidade Estacionária de Produção, chamada hoje de UEP, que é flutuante e é conectada a poços embaixo do mar. Mas quantos poços nós precisamos para produzir cem mil barris? Quem vai nos dizer isso é a natureza, é a dinâmica do reservatório, é o fluxo dos fluidos do reservatório, a permeabilidade de porosidade do reservatório, a arquitetura do reservatório, é a resistência dos carbonatos que constituem o reservatório, é o gradiente de pressão que tem no reservatório.

Entrevistador: São as características do reservatório?

Sergio Gabrielli: – Como se conhece isso? Só tem uma maneira: produzindo. Então, estamos fazendo um teste de longa duração que vai levar quinze meses para nos dar parte dessas informações. Com isso, você tem um ajuste fino para saber quantos poços você precisa para produzir. E poços significam custos. Cada poço para perfurar custa hoje sessenta milhões de dólares e para completar cem milhões. Então, se você reduzir algumas centenas de poços, estará reduzindo bilhões de dólares nos investimentos. Por isso estou dizendo que, com o conhecimento que nós temos hoje, que é o da Bacia de Campos, ele é viável a menos de quarenta e cinco dólares.

Entrevistador: O senhor concorda então que a situação hoje é outra e que a concessão seria um sistema bom demais para ser verdade?

Sergio Gabrielli: – Eu acho, por exemplo, que a concessão é um bom sistema para remunerar quem toma risco exploratório. Nesta área, deve ter a concessão. Acho que deve continuar a concessão. Agora, a área que vocês falam… Uma coisa é você comprar um bilhete de loteria antes de ter o resultado e outra coisa é comprar depois.

Entrevistador: Mas o que está sendo discutido é a partilha. As empresas teriam que oferecer de antemão ao governo uma parcela da produção em dinheiro ou em barril. Mas não é arriscado não saber o número de poços, não saber o custo que eles vão ter?

Sergio Gabrielli: – A indústria mundial do petróleo trabalha com qualquer modelo. Ela se adapta. Existem três tipos de modelos de contrato: de serviço, partilha de produção e concessão. A indústria no mundo trabalha com os três tipos, não é uma coisa incompatível com a indústria. O problema todo é saber, a priori, o que vai fazer, quem vai ter acesso às áreas não concedidas. Porque, hoje, 62% não estão concedidos. São da União.

Entrevistador: O que o senhor defende?

Sergio Gabrielli: – Eu defendo que o Estado brasileiro tenha um controle mais profundo da operação dessas áreas que pertencem 100% ao Estado brasileiro. E a União escolhe como vai fazer. Eu acho que a partilha de produção é um bom sistema para essa área porque o risco exploratório é pequeno.

Entrevistador: Mas a União escolhe também a empresa que vai entrar por convite?

Sergio Gabrielli: Espero que ela escolha a Petrobras. Porque ela é que tem mais competência, mais expertise.

Entrevistador: O senhor já falou do melhor índice da Petrobras, o senhor falou que os investimentos estão garantidos. Queria fazer uma pergunta sobre o investimento importante que é o gás natural. Uma das metas de sua gestão é reduzir a dependência, embora a Bolívia continue atendendo a metade do mercado brasileiro. A queima de gás foi crescendo desde 2005, e hoje está em cerca de dez milhões de metros cúbicos, quase o dobro de 2006. Faltaram investimentos para reduzir o desperdício?

Sergio Gabrielli: Vamos falar um pouco primeiro do mercado de gás brasileiro. Hoje, o mercado de gás brasileiro demanda de quarenta a quarenta e cinco milhões de metros cúbicos/dia. Destes quarenta e cinco milhões de metros cúbicos, trazemos vinte e quatro milhões da Bolívia. O que acontecia em 2003? Em 2003, a gente pagava vinte e quatro milhões e trazia nove. Então, de 2003 a 2005, nós não repassamos para os distribuidores estaduais do Brasil as variações de preço que pagamos à Bolívia. Nós encaixamos estas variações.

Entrevistador: Foi um prejuízo pra Petrobras.

Sergio Gabrielli: Não; não foi prejuízo porque a gente pagava vinte quatro milhões, trazendo ou não. Então, se a gente estimulasse a demanda até vinte e quatro, diminuía prejuízo, não aumentava; trazia mais produto. Quando chegou a vinte e quatro, nós começamos a reajustar os preços para as distribuidoras estaduais. Este é um fato muito importante. Pela Constituição brasileira, a Petrobras não pode vender gás ao consumidor final. Quem vende o gás ao consumidor final é o monopólio da distribuidora estadual. Que é Comgás, a CEG Rio, a Bahia Gás, Sul Gás etc. Elas que vendem o gás. Nós vendemos para elas. Nós não podemos vender ao consumidor final, então o destino do gás para GNV residencial e industrial é para a distribuidora. Porém, o Brasil tem uma outra característica do mercado de gás, para a qual é importante chamar a atenção. O mercado de gás brasileiro tem uma parcela substantiva para a termelétrica. E a termelétrica brasileira não é como nos outros países, em que você despacha o ano inteiro. A termelétrica brasileira despacha quando você acha que vai faltar chuva e você poupa água do reservatório. Isso para gerar eletricidade vazando água do reservatório. Portanto, você tem uma termelétrica que não vai usar gás sempre, ela vai usar o gás de vez em quando. No entanto, precisa ter gasoduto quando for necessário. É preciso ter uma infra-estrutura fixa pra algo que é intermitente. Então, é preciso desenvolver flexibilidade na oferta. Dos quarenta e cinco milhões de metros cúbicos por dia hoje, a nossa expectativa para 2013 é que a demanda seja de cento e trinta e cinco milhões de metros cúbicos.

Entrevistador – Por que vai crescer tanto?

Sergio Gabrielli: – Vai crescer porque a indústria vai crescer. Porque a termelétrica vai crescer.

Entrevistador – Senhor presidente, falta pouco.  São quatro anos e aí?

Sergio Gabrielli: Então, veja o que nós vamos fazer. Nós temos, hoje, vinte e um milhões de metros cúbicos já instalados de regaseificação de GNL, entre seis e sete milhões no Ceará e quatorze milhões no Rio de Janeiro. Estamos concluindo, agora em março de 2010, o Gasene, que interliga a malha nordeste com a malha sudeste. Então, vamos ter uma malha de gás no Brasil que vai do Nordeste até o Sul, interligando toda a malha.

Entrevistador: Hoje é só Sudeste?

Sergio Gabrielli: Hoje é só Sudeste, mas vai ter uma malha nacional. Então, vamos construir mais duas unidades de regaseificação, de tal maneira que vamos ficar com trinta e quatro milhões de capacidade de gás GNL. Qual é a vantagem do gás GNL? Se você tem uma previsão que vai chover, você não traz o navio; se você tem previsão que vai faltar água, você traz o navio. Então, você tem essa vantagem. Mas não vamos operar no GNL com o mercado de contrato em longo prazo. Vamos trazer em carga quando necessário, e vamos ter flexibilidade por aí. Temos vinte e quatro milhões, chegando a trinta milhões de metros cúbicos vindos da Bolívia até 2019. Então, trinta e quatro mais trinta, temos sessenta e quatro milhões já garantidos. E vamos aumentar a produção nacional para setenta e um milhões.

Entrevistador: Hoje ele vai subir de vinte e quatro para trinta?

Sergio Gabrielli: Não, não vai subir. Hoje já é assim. Então, não muda nada a Bolívia. O contrato de hoje é o que vai vigorar até 2019.  Então, nós estamos mantendo um contrato até 2019.

Entrevistador: E quando é que vai pra sessenta então?

Sergio Gabrielli: Vamos aumentar a produção nacional com dois campos, com duas características novas. Primeiro, até três anos atrás, a gente praticamente não tinha gás não associado. Todo nosso gás era associado a petróleo. Agora, nós temos Manati, Lagosta, que são gases puros e não têm petróleo, além do Mexilhão, que também é gás…

Entrevistador: Todos esses são campos livres?

Sergio Gabrielli: São campos livres de gás.  E o campo de gás administra a oferta mais livremente do que o petróleo.

Entrevistador: Não queima?

Sergio Gabrielli: Não, não é questão de não queimar. Eu vou chegar lá na queima. O critério do gás associado é a produção de petróleo, evidentemente. Mas, com o gás associado, você produz gás. Só que alguns campos são distantes e a produção de gás é pequena e não vale a pena fazer um gasoduto. E nem tem como transportar esse gás, pois não há viabilidade econômica de utilizar o gás.

Entrevistador: Porque teria que instalar uma planta que…

Sergio Gabrielli: Isso. Mas, provavelmente, não é o que tem aumentado a queima do gás. O que tem aumentado a queima são entraves operacionais em determinados momentos, em que às vezes existe uma planta de separação que quebra no mês e aí você não pode processar o gás, não pode separar o gás, e aí tem que queimá-lo.

Entrevistador: Tudo isso são dados operacionais?

Sergio Gabrielli: São dados operacionais, essencialmente. As nossas unidades são muito grandes. Quando uma unidade que produz cinco milhões de metros cúbicos pára, tem que queimar porque senão você paga a produção de petróleo. Isso é temporário.

Entrevistador – Sobre o acordo com a Bolívia.

Sergio Gabrielli: É um bom acordo. E vou dizer por que é um bom acordo. Acho que no primeiro momento foi um acordo que não tinha mercado, não tinha capacidade de produção na Bolívia e não tinha mercado consumidor no Brasil. Mas que depois cresceu. Quer dizer, hoje é vital, porque o gás da Bolívia representa mais da metade do gás de São Paulo. Você imagina o que é tirar metade do gás de São Paulo? Não tem como separar o gás de São Paulo. A Bolívia, no momento mais drástico e traumático da crise, cumpriu rigorosamente o contrato. Quando a Bolívia desapropriou as nossas refinarias – com todo escândalo, com toda aquela crise política -, no final das contas ela pagou o justo valor da refinaria.

Entrevistador: Pagou menos do que vocês queriam não é?

Sergio Gabrielli: – Não, ela pagou o valor justo. Lembre o seguinte: existia uma situação futura de venda daquela refinaria que envolvia venda de condensado. Na medida em que houve uma mudança na lei boliviana, essa venda de condensado não podia ser feita pela nossa refinaria. Portanto, nós íamos perder o valor da refinaria. Ela não ia valer nada, porque nós não íamos poder vender o condensado. A Bolívia pagou o valor futuro do condensado. Nós não perdemos dinheiro com a Bolívia, nós diminuímos o ganho em relação ao que já tínhamos lá. Mas continuamos ganhando dinheiro.

Entrevistador: Na Bolívia as pessoas diziam que o governo brasileiro os acusava de ter uns esquemas meio complicados, com políticos bolivianos que tem uma coisa ali meio sinuosa, que havia uns esquemas… Eu não vou falar a palavra propina, mas tem alguma coisa que…

Sergio Gabrielli: A palavra atualmente que eu tenho usado muito, que eu até recomendo a vocês profissionais, é: coscuvilhice. Sabe o que é coscuvilhice?

Sergio Gabrielli: É uma palavra portuguesa que diz o seguinte: mexerico bem ouvido. A Petrobras é vítima de coscuvilhices. Ou seja, fazem mexericos e aumentam isso. Acontece devido a uma fantasia gigantesca em torno da Petrobras. A nossa avaliação interna é que nós temos melhorado substancialmente os mecanismos de controle interno. Nós atendemos todos os requisitos de controle e verbas das grandes corporações do mundo. Isso é perfeito? Não, nunca. É possível melhorar? É, mas não muito. Particularmente, quando você chega num país pequeno o volume de coscuvilhice aumenta porque você passa a criar mil histórias. Eu não to dizendo que sim e nem que não, eu não sei. Mas é o seguinte: os nossos controles aumentaram. Toda a vez que nós identificamos problemas, nós punimos e punimos exemplarmente. Agora se tem casos…

Entrevistador: Por exemplo, não teve um sujeito que foi afastado e acabou virando o seu assessor?

Sergio Gabrielli: Não. Aí é coscuvilhice.

Entrevistador: E a matéria da Folha?

Sergio Gabrielli: A matéria da Folha está errada. Nós desmentimos, inclusive. A Folha tem três erros factuais, que ela não publicou. Primeiro erro factual; Giovane sindicalista, não é verdade.

Entrevistador: Giovane Morais?

Sergio Gabrielli: Sim. Ele não é sindicalista. Ele é uma pessoa que entrou para Petrobras no concurso de 94, nunca foi sindicalista e subiu na carreira dentro da empresa. Segundo: também é falsa a informação – e a Folha sabia disso -,  de que ele foi afastado por desvio de dinheiro. Isso não é verdade. Ele foi afastado porque descumpriu regras trabalhistas da Petrobras. Regras internas. Por isso ele foi afastado e foi demitido por justa causa. As questões de desvios, indícios de desvios estão sob averiguação ainda porque são dois mil e tantos processos. O Rosemberg era um gerente de comunicação da Bahia. Hoje ele é meu assessor aqui pra cuidar das montagens das gerências, e aglutinação das gerências regionais. Não foi afastado em nenhum momento, entendeu? Então é errada a matéria da Folha.

Entrevistador: Essa coisa das verbas da Bahia… Você não acha melhor pôr o sujeito na geladeira?

Sergio Gabrielli: Porque eu vou colocá-lo na geladeira? Se eu acho que não tem nada demais, não tem nenhuma indicação de problema.

Entrevistador: Não, mas é aquela coisa a festa de junina ficou meio esquisita…

Sergio Gabrielli: Qual é o problema fazer festa de junina? Você tem algum preconceito contra festa de junina?

Entrevistador: Não. Sou totalmente a favor.

Sergio Gabrielli: – Então, é importante fazer festa de junina. O que está errado é dizer que a gente fez festa de junina para o PT. E os números mostram que está errado. Os critérios para decidir sobre festas juninas são onde tem festa junina. Não vai fazer festa junina onde não tem festa junina. Das quarenta e tantas cidades apuradas onze são do PT porque nas cidades em que tem festa de São João tem PT. Paciência. Coincidência.

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