Entrevista José Sérgio Gabrielli – Revista Isto É Dinheiro

20 de junho de 2009 / 00:02 Entrevistas Enviar por e-mail Enviar por e-mail Imprimir

A+ A-

Entrevistador: Desde que começaram os boatos e tal…

Sergio Gabrielli: É, nós montamos dentro da Petrobras um conjunto de pessoas. É um grupo de comunicação de crise – que é normal em situação de crise -, que vai estar dedicada parcialmente a essa questão da CPI.  Tem algumas pessoas que vão estar dedicadas integralmente a CPI.

Entrevistador: É uma equipe, né?

Sergio Gabrielli: É uma equipe.

Entrevistador: Grande, de advogados?  Precisamos radiografar um pouco esse time.

Sergio Gabrielli: É. Grande porque está organizado de acordo com a organização da companhia. Ou seja, reproduz a organização da companhia em miniatura porque nós vamos ter que responder todas as demandas que surgirem. Tem gente de Comunicação, de E&P, de Abastecimento, de Gás e Energia, de Internacional, do Jurídico, da Segurança Empresarial, da Auditoria…

Entrevistador: Mais é uma mini Petrobras que está sendo montada, de certa maneira?

Sergio Gabrielli: Muito mini, comparativamente.

Entrevistador: Tem quantas pessoas nesse grupo?

Sergio Gabrielli: Olha, é difícil dizer. Mas acredito que deve ter aí, em tempo integral, entre 30 a 40 pessoas. Agora, deve ter algumas centenas de pessoas em torno do assunto. O jornalista quando pergunta é assim: eu quero a cópia de todos contratos da Petrobras.

Entrevistador: Quantos contratos são?

Sergio Gabrielli: Em torno de 240 mil.

Entrevistador: A Petrobras é uma empresa que faz quantas contratações por dia, por exemplo. Ou por mês?

Sergio Gabrielli: Olha, se você pensa que isso aqui tem 240 mil contratos, divida isso aqui por 365…

Entrevistador: Isso a longo prazo, mas imagina! Porque todo dia você vai ver o que está acontecendo aqui…

Sergio Gabrielli: Nós temos leilão eletrônico, nós temos mais de 3 mil gerentes que fazem contratos.

Entrevistador: Três mil gerentes?

Sergio Gabrielli: É. Três mil gerentes.

Entrevistador: Com autonomia?

Sergio Gabrielli: Nós temos 72 mil pessoas na companhia.

Entrevistador: Todos petroleiros?

Sergio Gabrielli: Todos petroleiros. Essa é uma empresa muito grande, ela fatura 240 bilhões de reais por ano, são 20 bilhões de reais por mês. Nós investimos nos três primeiros meses desse ano 15 bilhões de reais. Divida 15 bilhões de reais por 90 dias e veja o resultado. Investimento é contrato. Fora o contrato operacional que é o dia-a-dia da empresa.

Entrevistador: Mas como é o processo licitatório aqui dentro?

Sergio Gabrielli: Como é que nós funcionamos? Isso é importante analisar. Por exemplo, projetos e investimento, nós temos várias etapas. Nós temos chamados 4 portões. A primeira é o projeto conceitual. Você faz uma formulação do projeto. Por exemplo: vou querer melhorar a unidade de compressão da plataforma tal. Isso aí tem uma base conceitual. Depois passa para uma fase de projeto básico. Daí são detalhes de engenharia, faz estimativa de custo etc. Depois do projeto básico, tem um processo de aprovação que é coletivo, não há decisões individuais. Depois do projeto básico você vai para o mercado fazer as licitações, locações, cotações, propostas, análises, negociações, isso demora um tempo, um ano.

Entrevistador: Então está tudo enquadrado naquela Lei 8666?

Sergio Gabrielli: Não, espera aí. Eu vou chegar na Lei depois. Então, o processo envolve etapas.

Entrevistador: E cada uma é um contrato?

Sergio Gabrielli: Não. Envolve etapas. A fase de contratação vai depois. Você vai pro mercado.

Entrevistador: A contratação é interna?

Sergio Gabrielli: É interna. Aí você vai para o mercado. Para fazer a licitação, você também tem que ter um produto de decisões, nunca uma decisão individual. Marco regulatório, marco legal, a Lei 9478 é a Lei do Petróleo, certo? Que substituiu a Lei 2004, certo? A Lei 2004 foi a que fundou a Petrobras e a 9478, de 97, é a Lei do Petróleo, que regula a nova situação da Petrobras. O que essa lei diz? Essa Lei diz que a Petrobras tem que ser competitiva, que a Petrobras perde o monopólio e que a Petrobras tem que competir em igual condição como as outras empresas.

Entrevistador: Ela não tem nenhuma condição de contratar como empresa privada?

Sergio Gabrielli: Mas essa lei remete a um decreto presidencial, as regras de licitação da Petrobras. O decreto 2745 foi assinado por Fernando Henrique Cardoso, em 1998, e é específico para a Petrobrás, que foi indicação da lei 9478. A Advocacia Geral da União tem a interpretação de que nós temos que cumprir o decreto. Nós também temos essa interpretação. Mas o TCU acha que devemos seguir o que determina a lei 8666. O TCU nos autua porque não cumprimos 8666, mas seguimos a lei 9478 e o decreto 2745. Onde é que resolvemos a controvérsia constitucional? Recorremos ao STF toda vez que precisamos, para cada contrato.

Entrevistador: Mas só pra entender este modelo original de 98, ele visa dar agilidade?

Sergio Gabrielli: São poucas as diferenças entre a 2745 e 8666. A grande diferença são limites de convites, em relação à concorrência pública, e os prazos para recurso, que agilizam o processo. Mais transparência, publicidade, impessoalidade, os princípios gerais são os mesmos…

Entrevistador: Não teve uma decisão ainda do STF?

Sergio Gabrielli: Decisões no mérito não. Só decretos e ganhamos todos.

Entrevistador: A Refinaria de Abreu e Lima não está nas reclamações?

Sergio Gabrielli: Abreu Lima é outro problema. A Abreu Lima é uma diferença de metodologia de preço.

Entrevistador: O que vocês imaginam que virá dessa CPI?

Sergio Gabrielli: Vamos analisar o requerimento da CPI. Primeiro item: águas profundas. Uma operação feita pela Policia Federal com a colaboração, desde o início da Petrobras, já demitiu dois funcionários e suspendeu três no passado. Portanto, está sob investigação da policia e da justiça. Quanto a explicarmos sobre isso não tem problema, mas não precisamos de uma CPI pra isso. Segundo item do requerimento: demanda sobre reajuste de contrato por ajustes cambiais. Nós entendemos que são os casos que nós temos em discussão com o TCU desde 2007, construções técnicas sobre o impacto da avaliação do câmbio sobre contratos tem que ser em reais e em dólar.

Entrevistador: Vocês fizeram um reajuste da variação cambial e o TCU?

Sergio Gabrielli: É, nós fizemos uma revisão de preço, reajuste cambial, porque mudaram as condições econômicas no contrato.

Entrevistador: Era previsto que mudasse as condições que havia no contrato?

Sergio Gabrielli: Sim, tem que fazer a revisão. Terceiro item, Refinaria Abreu e Lima, que está em plena discussão técnica sobre qual é o custo de produção, de rodovia, como é que mede custo direto e indireto. A discussão técnica está em andamento no TCU. O quarto ponto é sobre o potencial de manobra contábil, que é uma discussão técnica. Nós estamos com tranquilidade sobre a discussão, posição, legalidade, justeza, correção de nossa posição. É uma discussão que se houver será entre o contribuinte e a Receita Federal. E por se tratar de Receita Federal, não precisaria de uma CPI. Tem um último item que é genérico, os patrocínios de ONGS. Temos milhares, literalmente milhares de demandas entre ONGs e patrocínios. E o que é colocado, as festas em São João da Bahia, são absolutamente claras e não temos nenhum problema para explicar, mas também não justificam uma CPI. Há o caso da ANP que não nos diz respeito. Nós recolhemos os royalties de participação do Governo Federal, não participamos da distribuição. Portanto, os itens que estão no requerimento da CPI não têm justificativa. Mas vamos participar com máxima transparência possível!

Entrevistador: É, mas eu acho, uma vez instalada…

Sergio Gabrielli: Por outro lado, sabemos que existe um processo social que envolve a imprensa. Devo ter usado uma expressão para isso, temos que evitar a coscuvilhice.

Entrevistadora: Como é que é?

Sergio Gabrielli: Coscuvilhice é uma palavra portuguesa e arcaica brasileira, que diz: mexerico bem ouvido. E é esse processo que temos que evitar porque a boataria, que é a criação de imagem com base de generalização de casos particulares como se fossem reais. Para combater isso, entramos com um canal de relação direta com o público que é o blog

Entrevistadora: O blog já mudou?

Sergio Gabrielli: Não, não mudou. Nós publicamos à meia-noite, o leitor vai ver de manhã.

Entrevistadora: O senhor avalia que foi um erro?

Sergio Gabrielli: Não, não foi um erro. Vamos falar concretamente. Domingo passado a matéria que a Folha de São Paulo publicou, falando de quatro e não sei quantos milhões do PT. A Folha de São Paulo tinha as informações. Eu estou atribuindo a equivoco e não má fé. Nós mandamos a informação antes, publicamos meia-noite e de manhã, no domingo, saímos com uma crítica dura refutando as informações publicadas.

Entrevistador: Bom, o sr. conhece a imprensa e, eventualmente, pode imaginar que ela quer confirmar o que ela pensa que é, entendeu?

Sergio Gabrielli: é sempre assim, geralmente.

Entrevistadora: Agora, porque o sr. acha que a imprensa está com essa posição?

Sergio Gabrielli: Eu faria uma análise mais ampla. Se nós olharmos essas histórias das CPIs brasileiras, vamos ver que elas têm um padrão de se fazer matérias retroativas. Geralmente, no domingo, a impressa publica uma notícia bombástica. Aí, na segunda- feira, tem uma suíte dessa matéria, algum jornalista ouvindo deputados da oposição ao atual governo. E isso aí vira um motivo para CPI investigar aquele assunto. Esse papel é sistemático, não só dessa CPI. Esse padrão está se repetindo, ou seja, o que acontece quando sai a noticia sobre a Petrobras são chamadas socos no fígado, mas não nocautes. A idéia é enfraquecer.

Entrevistadora – Agora, em várias matérias nos últimos dias desde que começou esse boato de que ia ter CPI, o sr. disse que isso prejudicava muito a reputação da empresa…

Entrevistador – O que leva uma empresa desse porte a estar submetida a esse grau de escrutínio, vamos dizer assim?

Sergio Gabrielli: O problema não é o escrutínio. O problema é a escandalização bombástica de fatos particulares, tentando virar generalidades, ou seja, transformar o particular em geral ou fazer ilações inadequadas com fatos existentes. Eu acho que esse é o problema. A Petrobras tem uma coisa muito importante, quer dizer, a reputação da Petrobras é um valor importante. Por que é importante? Porque na nossa estratégia, em nossa visão, nós queremos ser uma das cinco maiores empresas de petróleo do mundo. Mas nós não só queremos ser uma das cinco maiores, nós queremos ser a preferida dos nossos públicos de interesse, que são investidores, são clientes ou fornecedores, ou empregados, são governo. É difícil ser preferido por públicos tão distintos, mas nós queremos ser e não podemos ser uma empresa bandida, então transparência, reputação, seriedade, ética, são valores fundamentais pra nós. Então, o que nós temos que fazer com uma empresa complexa como é a Petrobras? Nós temos que aperfeiçoar continuamente os nossos processos de decisão e de controle. Por exemplo, nós seguimos estritamente os requisitos da Lei Sarbanes-Oxley, que é uma lei americana criada para aumentar a transparência e o controle, e os balanços das informações econômicas. Nós seguimos estritamente os requisitos das bolsas americanas e da CVM brasileira. Do ponto de vista da legislação privada, nós seguimos estritamente a legislação que vale e, deste ponto de vista, os investidores estão tranquilos. Por outro lado, nós temos que seguir todas as regras da legislação pública brasileira. Somos submetidos à auditoria do TCU, da CGU, da regulação da ANP, da Delegacia de Trabalho, IBAMA, Aneel… Nós temos um conjunto de supervisão e de controle externo enorme, internamente. Temos um gigantesco sistema de controle. Pode melhorar? Pode. Pode surgir um caso ou outro, desvios podem surgir, e nós vamos ter que punir os desvios… Qual é o impacto que pode ter sobre nós? O impacto que pode ter sobre nós é a contínua repetição de ataques, criar uma fama e uma imagem de que aqui é um mar de lama, que isso aqui é uma república de sindicalistas, que isso aqui é um bando de políticos aparelhando a Companhia, que nós somos um agente só do governo ou que nós fazemos só maracutaia, essa imagem que está sendo construída é uma imagem falsa, mas que …

Entrevistador – A Petrobras é vista como essa empresa que está entre as maiores…

Sergio Gabrielli – A visão da imprensa internacional sobre nós é extremamente positiva, a imprensa brasileira é que destaca os aspectos negativos, né? Não vou entrar em julgamento de mérito, mas isso é factual…

Entrevistador – Não era assim também, passou a ser factual…

Entrevistadora – Tem alguma matéria na imprensa internacional sobre a CPI?

Sergio Gabrielli – Saíram poucas matérias. Saiu uma matéria no Financial Times, no New York Times, saiu alguma coisa na Bloomberg, mas sempre numa visão um pouco genérica, mais sobre a situação política…

Entrevistador – Mais como uma curiosidade brasileira…

Sergio Gabrielli – Isso…

Entrevistadora – E teve algum questionamento de investidor, alguns fundos questionaram?

Sergio Gabrielli – Não, ainda não tem isso. A Petrobras tem uma situação extraordinária porque, em plena crise, nós saímos no dia 23 de janeiro com nosso plano estratégico. E esse plano estratégico era extremamente ousado porque a gente dizia que de 2009 a 2013 nós íamos investir 174,4 bilhões de dólares. Então, em plena crise, você sair com um plano de investimento de 174 bilhões de dólares, todo mundo ficou preocupado. Resultado: o que nós dizíamos nessa época? Se o preço do petróleo de 2009 for 37 dólares o barril, for 41 dólares o barril em 2010, e for 45 dólares o barril para sempre depois de 2011, nós vamos precisar de 30 bilhões de dólares pra financiar os próximos 2 anos, e depois desses 2 anos então nós vamos ver o que vamos fazer. Trinta bilhões de dólares financiados do nosso investimento nos próximos 2 anos. Se o preço do petróleo ficar na média acima de 65 dólares, nós vamos precisar de 30 bilhões de dólares pra financiar os 5 anos, porque a geração de caixa cobre o resto. O que aconteceu? Nos primeiros 5 meses desse ano, em plena crise, a Petrobras conseguiu levantar 12,5 bilhões de dólares do BNDES, 10 bilhões de dólares do Chinese Bank, 6 e meio bilhões de dólares de um sindicato de 6 bancos.

Entrevistador – No fundo, a visão mais otimista da Petrobras era mais realista…

Sergio Gabrielli – Isso. Seis e meio bilhões de dólares dos bancos e 2 bilhões de dólares do US Ex-im Bank. Resultado: levantamos 31 bilhões de dólares. O preço do petróleo hoje está 71 dólares. Mas é que se ficar acima de 65, nós estamos financiados com sócios por 5 anos. Não precisamos mais catar dinheiro…

Entrevistador – Eu queria só voltar a um ponto dessa questão. São só socos no fígado, mas não nocaute. Vocês imaginam passar quanto tempo assim?

Sergio Gabrielli – É impossível saber. Nós sabemos o seguinte: a empresa é sólida, a empresa é grande, ela tem apoios, ela é resistente…

Entrevistador – Agora, sobre sua postura… O senhor foi formador do PT, deve ter participado de várias lutas aí, ao longo do tempo. Gosta de briga, quer dizer, gosta de estar envolvido em polêmica…

Sergio Gabrielli – Eu preferia estar dedicado à minha atividade principal, que é conduzir a empresa, mas eu não fujo de briga… Eu prefiro não entrar na briga, mas eu não fujo…

Entrevistador – É daqueles que também dá uma moeda pra não sair?

Entrevistadora – Porque, na verdade, agora há uma situação que obriga, né?

Sergio Gabrielli – Eu? É impossível.  Não tem jeito, tem que falar…

Entrevistador – Mas como é que é? Um boi pra não entrar, uma boiada pra não sair ou…?

Sergio Gabrielli – Eu acho, na verdade, que é uma briga interessante, porque tem papéis diferentes. Num processo como o da CPI, você tem de um lado o governo, o social, a sociedade. E não vamos entrar na discussão da opinião na sociedade, certo? Tem uma discussão no Senado, a dinâmica do Senado, CPI, relator. Nós não temos que nos meter nisso…

Entrevistador – Mas o senhor não fala com os senadores…

Sergio Gabrielli – Nós não temos que nos meter nisso, certo? Porque isso é um processo interno do Senado Federal…

Entrevistador – A Petrobras tem uma assessoria parlamentar…?

Sergio Gabrielli – Tem, mas tem que acompanhar; não tem que se meter, certo? Isso é um processo legítimo, legítimo do Senado, do poder político brasileiro e tem que ser feito. Tem todo o envolvimento da empresa nas atividades regulares que nós temos que fazer. Não pode parar com isso, né? Tem que funcionar tudo. E tem que tratar o específico das ações, tanto da CPI, como do ataque da imprensa. Isso é uma parte do trabalho. Nós temos que acompanhar esse conjunto de coisas. Não dá pra você ter uma batalha só nesse canto…

Entrevistadora – Agora, em que ponto atrapalha, o senhor ter que ficar aqui (em Brasília) às terças e quartas?

Entrevistador – É, isso não estaria na agenda se não tivesse….

Sergio Gabrielli – Por exemplo, o pré-sal… Nós iniciamos esta semana a produção de gás no Espírito Santo, nós batemos o recorde de produção mês passado, nós estamos discutindo novas contratações…

Entrevistador – O sr. tem que estar focado no negócio…

Sergio Gabrielli – Sim, é no negócio que eu tenho que estar focado…

Entrevistadora – Claro, mas o noticiário não está. Obviamente, internamente as pessoas estão cuidando desses assuntos, mas a opinião pública acaba não sabendo.

Entrevistador – Eu queria explorar um pouco mais a sua disposição pessoal para o conflito, para briga…

Sergio Gabrielli – Não digo assim, a vontade de brigar, mas já que tá lá… Eu me lembro, e o senhor vai se lembrar do debate presidencial…

Entrevistador – Eu estava atrás do senhor. Eu me lembro quando o Alckmin adotou aquela postura de delegado de polícia. O senhor queria invadir ali, quase querendo entrar para brigar. Não pra defender o Lula, mas pra dizer que o cara estava mentindo…

Sergio Gabrielli – Eu tenho minha origem étnica. Eu tenho uma origem italiana misturada com africana e uma origem índia misturada com português. Os africanos e italianos são sangue quente, emocionais, briguentos. Os índios e os portugueses são mais racionais, civilizadores, matreiros, desconfiados, tímidos. Então, eu sou uma combinação dessas duas coisas geneticamente. Hora predomina a italiana; hora predomina o índio.

Entrevistador: Entendi.

Entrevistador: E nesse momento?

Sergio Gabrielli: Eu tenho que combinar os dois. Em certos momentos, tem que predominar o Azevedo; em determinados momentos, tem que predominar o Gabrielli.

Entrevistador – Depende da intensidade do ataque. Agora, por exemplo, vamos imaginar voltando pra empresa…

Sergio Gabrielli: Eu sou Gabrielli de Azevedo.

Entrevistador: O senhor usa só o Gabrielli?

Sergio Gabrielli: Eu uso os dois.

Entrevistador: Voltando pra empresa, permanente, indiscutivelmente, existe…

Sergio Gabrielli: Minha vida está sendo revirada de todos os…

Entrevistador: Até a vida pessoal?

Sergio Gabrielli: Imagino que esteja.

Entrevistador: Mas o senhor tem uma vida pessoal pacata, aparentemente. Como é a vida pessoal do sr., por exemplo, a vida fora da Petrobras? Uma viagem com a esposa para China?…

Sergio Gabrielli: Sim, uma vez na vida.

Entrevistador: Quer dizer que o senhor não faz aquele circuito de golf na Europa, de ski?…

Sergio Gabrielli: Não, vida pacatíssima.

Entrevistador: Quantas horas o sr. trabalha por dia, por falar nisso?

Sergio Gabrielli: Eu normalmente trabalho de 8h30 até às 22h30.

Entrevistador: E agora? Igual ou mais?

Sergio Gabrielli: Agora eu estou trabalhando mais, porque envolve o fim de semana todo.

Entrevistador: Sete dias por semana.

Sergio Gabrielli: Sete dias por semana.

Entrevistadora: E em todos os lugares do mundo. Eu fico impressionada… Depois dessa viagem pra China, não sei como que vocês agüentam… Toda hora estar na Ásia.

Entrevistador: O gerente da Petrobras tem o poder para definir algumas contratações, quer dizer, imagino que existam várias unidades de negócios…

Sergio Gabrielli: Tem outro efeito também esse tipo de coisa. Você começa a inibir certas decisões. Quer dizer, uma empresa tem que correr riscos. Faz parte do negócio assumir riscos. Não ilegalidades, mas assumir riscos, sim. Então, por exemplo, nós temos que fazer uma determinada atividade que tem que estar pronta em uma determinada data. Eu posso esperar tudo estar absolutamente definido antes de ir para os mercados. E aí eu posso ter o risco da negociação com o mercado estourar o prazo final.

Entrevistador: Tarde demais?

Sergio Gabrielli: É tarde demais. Ou eu tenho que tomar o risco de ir mais cedo e ter que alterar no processo licitatório algumas condições, porque com isso…

Entrevistador: Dá tempo de espremer o fornecedor?…

Sergio Gabrielli: Então, isso é um risco. Hoje, com CPI etc, os gerentes já começam a ficar com medo de fazer isso…

Entrevistador: Isso dá o saldo do gerente?

Sergio Gabrielli: Não é ilegal fazer isso.

Entrevistador: A Petrobras quando apostou pode ter conseguido contratar várias coisas mais baratas do que se tivesse esperado?

Sergio Gabrielli: Estão aí os rebites que nós estamos trazendo. Hoje, nós já observamos nos processos licitatórios a presença de mais fornecedores, prazos reduzidos, preços menores que nós esperávamos…

Entrevistador: A gente escuta que a Petrobras está apertando muito os fornecedores, chegando para todo mundo e mandando cortar 20%, 30%, 40%, 50%. É por aí mesmo?

Sergio Gabrielli: É isso mesmo.

Entrevistador: Mas isso não passa um sinal ruim?

Sergio Gabrielli: Não, não. O mercado mudou.

Entrevistador: Dos contratos já em andamento, não os novos contratos…

Sergio Gabrielli: Não, mas o problema todo é o seguinte: eu fiz um contrato em uma determinada época, que o contrato vai levar cinco anos. Tem uma determinada data para comprar aço e que vai ser comprado só naquele momento. Quando eu fiz o contrato naquele primeiro momento, o preço do aço estava lá em cima, e se agora está lá embaixo, nós temos que renegociar.

Entrevistador: É preço estrangulado, de certa forma.

Sergio Gabrielli: Isso eu disse em vários lugares. Nós temos que apertar os fornecedores sem matá-los, não interessa matar os fornecedores (risos).

Entrevistador: As outras petroleiras não estão investindo como a Petrobras?

Sergio Gabrielli: Mas as grandes petroleiras estão fazendo a mesma coisa que nós. As grandes empresas, não tanto quanto a Petrobras, todas elas mantiveram o investimento ou cresceram.

Entrevistador – Então…

Sergio Gabrielli: Não porque eles são diferentes. A Petrobras tem 23% da exploração em águas profundas do mundo. Outras empresas estão em terra, outras empresas estão investindo na área de gás, outras sempre investindo em areias betuminosas no Canadá… Não é o mesmo mercado.

Entrevistador – Esse aperto então é uma coisa de mercado. Não tem nada a ver com CPI?

Sergio Gabrielli: Não tem nada a ver com CPI. Esse aperto nós sentimos em janeiro. Nós percebemos que o mercado vinha crescendo…

Entrevistador – Os custos tinham subido muito? E eles subiram quanto e caíram quanto? Considerando cinco anos, vamos dizer assim…

Sergio Gabrielli: Muito difícil falar em geral. Eu diria o seguinte: por exemplo, os equipamentos offshore, de produção de petróleo e de sondas, caíram menos do que os equipamentos para refinaria e para gasodutos. As matérias-primas caíram mais, aço caiu mais…

Entrevistador – Também são usados em outras coisas?

Sergio Gabrielli: Em outras coisas. Então, é difícil fazer uma média. A média é muito boa para um jornalista, mas é como colocar o pé em água fervendo e em água gelada. Vai dar uma média, mas você queima o pé dos dois lados.

Entrevistador – O TCU chega e diz o seguinte: vamos ver um contrato novo para poder fazer mais ou menos a mesma coisa pela metade do preço do contrato antigo. Não tem compreensão?

Sergio Gabrielli: Vamos analisar, por exemplo, o caso da Renest, Refinaria de Pernambuco. Uns dos aspectos da refinaria é que o TCU fale sobre preço de alguns itens.

Entrevistador: Renest é Abreu e Lima?

Sergio Gabrielli: Sim. Umas das argumentações do TCU é isso. Você pega uma refinaria, que é um estabelecimento que tem equipamentos altamente pesados com centenas e toneladas de peso fixas. Uma terraplanagem de uma refinaria não é a mesma coisa de uma terraplanagem em estrada em que vai passar caminhão, por mais pesado que seja. Então, usar o padrão de custo de terraplanagem de estrada para terraplanagem de refinaria não esta correto.

Entrevistador – Resistência do cimento?

Sergio Gabrielli: Resistência do cimento.

Entrevistador – Temperatura?

Sergio Gabrielli: Temperatura, estabilidade do subsolo, expansão…

Entrevistador – Então, no fundo, para o TCU responder uma CPI, você tem que ter equipe de comunicação, mas também de engenheiros…

Sergio Gabrielli: Eu vou dizer a você o seguinte: a Petrobras, por exemplo, tem um setor da engenharia só de orçamento, que tem 90 engenheiros. Nós fazemos o nosso preço certo. Na licitação, temos o nosso preço interno, que é feito por nossa equipe de engenharia. E todos eles estão trabalhando para o TCU hoje.

Entrevistador – Para esse contrato?

Sergio Gabrielli: Não, para as centenas de demandas que nós temos do TCU.

Entrevistador – Além desse caso de Abreu Lima, há outros?

Sergio Gabrielli: Sim. É só entrar no site do TCU que tem centenas de processos.

Entrevistador – Eu li esse processo. Acho que é uma coisa de 20%, 40% de diferença.

Sergio Gabrielli: Na nossa avaliação, a diferença com a técnica correta de fazer é em torno de 2%. Ao nosso ver, não tem superfaturamento nenhum.

Entrevistador: Se tem uma licitação, como é que você pode alegar sobrepreço?

Sergio Gabrielli: O que o TCU chama sobrepreço é o seguinte: o TCU estabelece um preço, o que tiver acima dele, eles chamam de sobrepreço. É o TCU que estabelece.

Entrevistador – E ele tem gente técnica para fazer essa avaliação?

Sergio Gabrielli: O TCU tem um corpo técnico muito bom, não pode ser especialista em tudo porque…

Entrevistador: Deve ser muito raro a Petrobras contratar diretamente uma empresa. Se for feito um processo com dez candidatos e o preço estiver de um jeito, mas os outros tiverem o menor preço estabelecido, você tem um preço referente aqui da Petrobras?

Sergio Gabrielli: Não. Neste caso, há discussões técnicas. Por exemplo, no caso também da Refinaria Abreu e Lima, tem a discussão sobre preço unitário e preço global. Nós contratamos com preço global, ou seja, você tem lá uma planilha que tem três mil itens. O contrato é feito pelo valor total dos itens.

Entrevistador: Vocês entregaram o empreendimento inteiro?

Sergio Gabrielli: É. Você faz a licitação pelo empreendimento inteiro.

Entrevistador: E o TCU conta o parafuso?

Sergio Gabrielli: Sim, o TCU conta o parafuso.

Entrevistador – Voltando à rotina da CPI, como é que é esse QG aqui (em Brasília)? Você transferiu várias pessoas do Rio para Brasília?

Sergio Gabrielli: Não, eu tenho algumas pessoas transferidas para cá. Esse escritório de Brasília atende as relações da Petrobras com o Congresso Nacional e com o Executivo brasileiro, basicamente.

Entrevistador – O senhor não vinha muito para cá? Não toda semana?

Sergio Gabrielli: Não toda semana. Ao Congresso, eu ia a convite, várias vezes ao Senado.

Entrevistador – Falar de assuntos?…

Sergio Gabrielli: Falar de assuntos… e vinha basicamente para conversas com o Executivo, com o Ministério de Minas e Energia, com o presidente Lula, com a Casa Civil…

Entrevistador: E agora o senhor nesses dias aqui…

Sergio Gabrielli: Essencialmente, eu acompanho o que está acontecendo no âmbito do Congresso. Enquanto não instalar a CPI, nós vamos entrar no mérito das questões. Acompanho via conferência o que está acontecendo no Rio, o detalhamento das respostas dos temas que a gente já identificou. E acompanho o trabalho que a nossa Comunicação está fazendo.

Entrevistador: O senhor quer se antecipar…

Sergio Gabrielli: Nós estamos montando uma infraestrutura de batalha.

Entrevistador: Quer dizer, vocês já estão imaginando quais seriam as perguntas e elaborando as respostas… Porque ainda não tem CPI. E o que o sr. acha que vai ser? Onde é que vai ser a principal ponte?

Sergio Gabrielli: Nós estamos trabalhando no requerimento. São cinco pontos.

Entrevistador: São cinco, mas pode surgir muito mais coisa. É imprevisível…

Sergio Gabrielli: Se surgir, é ilegal. Porque a CPI, pela legislação brasileira, só pode ser por fato determinado.

Entrevistador: E o senhor já está conversando com senadores, com o presidente? Como é a questão da política?

Sergio Gabrielli: Eu converso com os atores políticos.

Entrevistador: O senhor conversa diretamente?

Sergio Gabrielli: Algumas conversas, sim. Eu estive aqui com o senador Arthur Virgílio, com o senador Sérgio Guerra, com o senador Tasso Jereissati, e na véspera da CPI, o público acompanhou a reunião.

Entrevistador: Quando foi?

Sergio Gabrielli: Na quinta-feira, antes de instalar a CPI.

Entrevistador: Mas a CPI não foi instalada ainda…

Sergio Gabrielli: Não, mas foi lida a CPI.

Entrevistador: O requerimento?

Sergio Gabrielli: Sim, foi lido o requerimento. Na véspera eu disse: “olha, eu vim aqui conversar com os senhores”.

Entrevistador: O sr. foi lá no Senado?

Sergio Gabrielli: No Senado, publicamente.

Entrevistador: Não… eu digo, o senhor foi lá? Quer dizer, eles não vieram aqui?

Sergio Gabrielli: Fui lá conversar.

Entrevistador: As conversas, com gente da base, não estão acontecendo? Até para orientar algumas pessoas sobre os assuntos mais importantes da Petrobras?

Sergio Gabrielli: A Petrobras sempre teve um relacionamento não só com a base ou o governo… Com todos. A Petrobras sempre teve um relacionamento amplo com os parlamentares de todos os partidos e vai continuar mantendo esse relacionamento.

Entrevistador: Na verdade, o governo é o maior acionista da Petrobras. O Planalto é parte interessada nisso, porque ele é o dono?

Sergio Gabrielli: Ele é dono de 37%.

Entrevistador: E o senhor acha que o Planalto está cuidando do patrimônio?

Sergio Gabrielli: O governo sempre cuida bem do nosso patrimônio. Nós não discutimos. Ação do governo é ação do governo; ação do parlamentar é ação do parlamentar; ação do movimento social é ação do movimento social. Nós estamos interagindo com todos eles. Mas nós não intervimos na ação do governo…

Entrevistador: O que eu quero saber é se o governo não está fazendo o papel dele, como sócio majoritário, de ajudar a empresa? O presidente Lula tratou dessa questão de investigar a Petrobras, não com essas palavras, mas como se fosse até uma coisa de certa forma antipatriota. Colocar uma empresa desse tamanho, conduzindo esse volume de investimentos…

Sergio Gabrielli: Tem que ver essa declaração na íntegra.

Entrevistador – Mas o senhor concorda que há um quê de antipatriotismo nesse ciclo de investigar?

Sergio Gabrielli: Eu não vou entrar na discussão sobre o caráter da CPI. Do ponto de vista da Petrobras, a CPI tem que ser um legítimo instrumento da oposição no Brasil, do Congresso Nacional. Ela tem que ser por lei, por fato determinado. Nós estamos absolutamente cooperativos e participantes e vamos fazer o possível para dar mais transparência, para analisar os fatos determinados. Evidentemente, como uma empresa desse tamanho, ela tem relações com vários públicos, e o governo é o nosso principal acionista, nosso controlador. O governo, a meu ver, está agindo corretamente na lógica do governo. O movimento social é muito importante porque a sociedade é muito importante para a Petrobras. No movimento social há pessoas que acham que não deveria ter CPI, há outras que acham que deveriam ter três CPIs e não uma só. A discussão no movimento social vai intensificar.

Entrevistador: Mas a Petrobras interferiu, por exemplo, nessas decisões de custo?

Sergio Gabrielli: Não, de jeito nenhum. Não tem como a Petrobras interferir nisso. Ela tem apenas que dialogar sobre o que está acontecendo em todas as áreas, a favor e contra.

Entrevistador: E outras brigas, por exemplo, de fora da CPI que são importantes para Petrobras? Definição de modelo do Pré-sal? O senhor acha que isso atrapalha? A CUT entende o seguinte: ela tem que apoiar a Petrobras e tentar evitar a CPI porque isso enfraquece a questão do Pré-sal.

Sergio Gabrielli: A mudança na discussão do marco regulatório é uma necessidade. O marco regulatório brasileiro do petróleo foi construído no momento em que o país não tinha capital, estava em crise econômica. A Petrobras estava enfrentando uma situação de preços baixos e sem capitalização. Então, o marco regulatório foi montado para atrair capitais externos, para viabilizar produção de tecnologias e para viabilizar aqueles que assumiram o risco exploratório de ganhar. O marco regulatório foi feito fortemente para viabilizar uma situação de pouco conhecimento exploratório.

Entrevistador: E foi benéfico para o País?

Sergio Gabrielli: A Petrobras foi a que mais assumiu o risco e ampliou, particularmente a partir de 2003, a sua área exploratória, aumentou seu investimento e teve benefício com isso. Hoje nós temos uma situação com o País em uma economia estável, com condições de financiamento. A empresa é muito maior do que era antes, talvez quatro, cinco vezes maior. O valor de mercado da Petrobras em 2003 era de US$ 15 bilhões e hoje é de US$ 180 bilhões.

Entrevistador: E ainda está barato?

Sergio Gabrielli: Ainda está barato. Tem uma diferença de mais de dez vezes do tamanho da empresa no valor de mercado, e o risco exploratório é mínimo porque perfuramos 16 poços e encontramos petróleo em todos eles. Nessa situação, o marco regulatório tem que ser outro. Pode envolver uma discussão no Congresso e provavelmente vai envolver. Um congresso polarizado por uma CPI é uma situação negativa, porém essa discussão tem que ser feita. Não tem jeito.

Entrevistador: Isso pode atrapalhar a participação da Petrobras nesse novo modelo?

Sergio Gabrielli: Não. Eu acho que a Petrobras vai ter que dividir suas atenções para tratar a CPI e a discussão do marco regulatório.

Entrevistador: Mas o Congresso é o mesmo e a opinião pública é a mesma?

Sergio Gabrielli: O Congresso se altera.

Entrevistador: O contexto que podia ser um contexto de interesse nacional passa a ser um contexto politizado.

Sergio Gabrielli: Você muda a lógica de análise em um ambiente contaminado com a CPI.

Entrevistador: Pois é, exatamente isso. Quer dizer, a CPI pode não atrapalhar investidores externos, mas influencia a opinião pública brasileira. Os congressistas podem se sentir obrigados a dar satisfação para a opinião pública e reduzir a participação da Petrobras no novo modelo?

Sergio Gabrielli: O movimento social também vai se mobilizar, pressionando o Congresso. Vai ter um movimento de pressão contra pressão.

Entrevistador: Um movimento popular como no passado?

Sergio Gabrielli: Eu acho que é possível ter uma situação dessas.

Entrevistador: Tipo como nos anos 50?

Sergio Gabrielli: Não sei se do tempo dos anos 50, mas vai ter uma mobilização nacional.

Entrevistador: Tipo “a Petrobras é nossa”?

Sergio Gabrielli: É impossível você ter uma antecipação disso. Agora, que terá um grande debate nacional sobre o futuro do Pré-sal, pelo tamanho e importância dele e sobre o tamanho da Petrobras, disso eu não tenho dúvida.

Entrevistador: Por que dentro do governo tem gente que acha que tem que ser da Petrobras, tem gente que acha que tem que ser da outra parte?

Sergio Gabrielli: O debate vai ser intenso.

Entrevistador: Porque a competição estimula a Petrobras, como o senhor falou. O custo da Companhia pulou de US$ 15 bilhões de dólares para US$ 180 bilhões de dólares.

Sergio Gabrielli: Eu acho que a Petrobras, hoje, é a melhor empresa para tratar do Pré-sal. É a empresa que mais conhece, que tem mais capacidade técnica e de operação. Não tem ninguém que discuta isso.

Entrevistador: E se tudo tiver que ser leiloado, pode colocar um custo adicional desnecessário na sua visão?

Sergio Gabrielli: Eu não vou especular sobre o que será o marco regulatório. Eu acredito que o marco regulatório não vai ser o atual. Será diferente. Então vamos ver o que vai ser. Se fosse o atual, a Petrobras estaria em uma situação difícil porque temos US$ 174 bilhões de investimentos já definidos. Além dos US$ 174 bilhões, nós fazermos uma disputa com as grandes empresas do mundo, sem reserva em leilão para áreas que vão ser leiloadas, eu acredito que a Petrobras fica em desvantagem. Na hora de fazer as duas coisas é complicado.

Entrevistador: Essa é uma outra briga importante na qual o senhor estará envolvido.

Sergio Gabrielli: Evidentemente que sim. Por isso digo que o dia tem de ter mais de 24 horas.

Entrevistador: Agora, isso ganhou uma projeção, obviamente que já tinha, mas maior ainda em defesa da Petrobras. Saiu uma nota na Sônia Racy dizendo o seguinte: se não tivessem colocado a candidatura da Dilma, o Gabrielli é o cara.

Sergio Gabrielli: Eu não sou candidato. Há uma outra coscuvilhice em relação a mim, pessoalmente, que é o fato de dizer que eu sou candidato ao senado na Bahia.

Entrevistador: O senhor já foi candidato a governador na Bahia?

Sergio Gabrielli: Em 1990.

Entrevistador: E era bem pior do que agora?

Sergio Gabrielli: Bem pior do que agora. Eu não pretendo ser candidato. De lá pra cá já se passaram 19 anos que não sou candidato.

Entrevistador: Mas agora você acha que seria um bom momento?

Sergio Gabrielli: Não acho que seria um bom momento por várias razões. Primeiro, que eu não quero. Esse é um argumento importante. Estou na Petrobras e sou professor da Universidade Federal da Bahia. É isso que tenho definido na minha vida profissional. Segundo, porque meu partido não quer. O PT da Bahia definiu que nesse ano só vai disputar o cargo de governador e o candidato a governador é o Jacques Wagner, e ofereceu ao PMDB um lugar de senador.

Entrevistador: Já está fechado?

Sergio Gabrielli: Já foi votado em janeiro. O meu partido não vai me indicar e eu não quero.

Entrevistador: Quer dizer, o partido definiu, o senhor obedece?

Sergio Gabrielli: Eu acho que contribuo mais como assessor.

Entrevistador: O senhor continua no governo ou o senhor acha que dá para continuar o trabalho na Petrobras?

Sergio Gabrielli: Ai depende. Eu sou demissível a qualquer momento.

Entrevistador: O senhor pensa em voltar a dar aulas no futuro? Como é a sua vida fora da Petrobras? Fala um pouco para gente da sua vida privada.

Sergio Gabrielli: Eu entro na Petrobras às 8h30 e saio às 22h30.

Entrevistador: Mas os prazeres fora da Petrobras, a rotina?

Sergio Gabrielli: Minha mulher e meu enteado mais velho moram no Rio, meus dois filhos e o enteado mais novo moram na Bahia. Eu tenho poucos momentos de lazer. Meu fim de semana é predominantemente no Rio. Eu ando na praia, tomo uma cerveja, não freqüento restaurantes caros, compro jornal na banca… Faço o simples da vida.

Entrevistador: Mas agora não dá tempo de fazer isso, dá?

Sergio Gabrielli: Hoje, nesse período, não está dando nem para fazer isso.

Entrevistador: Fala um pouquinho para gente também do seu papel na criação do PT. O senhor foi da ficha número 15, número 50, como era a sua linha política naquele momento?

Sergio Gabrielli: Eu morei cinco anos fora do Brasil, voltei em 1980.

Entrevistador: Morou exilado?

Sergio Gabrielli – Eu fui expulso da universidade pelo exército. Eu fui jornalista e fui expulso da redação pelo exército, então eu fiquei sem condições de sobreviver.

Entrevistador: Mas o senhor foi estudar não é isso?

Sergio Gabrielli: Fui estudar. Eu fiquei sem condições de sobreviver. Fiz mestrado aqui no Brasil, terminei em 76, fui demitido dos jornais em 71, fui condenado em 73, cumpri pena…

Entrevistador: Cumpriu pena? Conta um pouco para gente.

Sergio Gabrielli: Fui condenado, cumpri seis meses de prisão.

Entrevistador: Na Bahia?

Sergio Gabrielli: Na Bahia.

Entrevistador: Saiu e depois foi estudar fora?

Sergio Gabrielli: Fui estudar nos Estados Unidos, com bolsa americana. Sem contatos com o Brasil.

Entrevistador: Com bolsa americana?

Sergio Gabrielli: Com bolsa americana.

Entrevistador: Eles não sabiam?

Sergio Gabrielli: Eles sabiam. Tinha cinco anos fora sem vínculos econômicos com o Brasil.

Entrevistador: E quando o senhor voltou?

Sergio Gabrielli: Quando voltei entrei na universidade, voltei a dar aula. Voltei depois da anistia. Lá fora mantive minha militância política, sou militante político antigo.

Entrevistador: Quem eram as suas principais relações na esquerda do PT?

Sergio Gabrielli: Eu fui condenado por ser membro da Ação Popular Marxista-Leninista (APML).

Entrevistador: Teve ação específica? Qual foi?

Sergio Gabrielli: Não teve ação militar.

Entrevistador: A prisão foi com alguma alegação?

Sergio Gabrielli: Algumas vezes. Eu não quero falar sobre isso, mas fui preso várias vezes, foram oito. Mas eu acho que não é relevante falar sobre isso.

Entrevistador: Mas eu acho importante para um perfil de uma pessoa, dizer o que conhece.

Sergio Gabrielli: Voltei e no início do PT, em 80, conheci o Lula, o Wagner, fazia parte de um grupo fundador do PT, cuja primeira direção foi em 81. Fui diretor em 84, fui candidato a deputado federal em 82.

Entrevistador: Sempre na Bahia?

Sergio Gabrielli: Sempre na Bahia. Depois fui candidato a vice-prefeito em 86 e depois fui candidato a governador em 90.

Entrevistador: E quando o senhor abandonou o Marxismo-Leninismo? Ou ainda não abandonou?

Sergio Gabrielli: Na minha formação teórica eu acho que o Marxismo-Leninismo – Leninismo nem tanto, eu nunca fui muito Leninista – mas o Marxismo é um instrumento teórico interessante. Eu diria que minha formação teórica, como economista, envolve um pouco do “Marx”, que é uma formação eclética. Eu trabalhei muito com desenvolvimento regional e com empresas estatais na minha vida acadêmica. Então minha vida acadêmica envolve uma formação teórica forte sobre teoria econômica, história e desenvolvimento. Portanto é uma formação de economia política. E, do ponto de vista da experiência de gestão, de uma empresa do tamanho da Petrobras, ninguém pode dizer que teve experiência maior do que essa em nenhum lugar do mundo, porque é única. Pelo menos pelo tamanho e a importância dela para a economia local…

Entrevistador – Uma cultura muito forte?

Sergio Gabrielli: Uma cultura forte. Ela é única. Mas iniciei minha vida profissional fazendo projetos, trabalhei muito tempo com assessoria a projeto robusto em gestão. Fui gestor de uma fundação que trabalhava com projetos de apoio a pesquisa e desenvolvimento científico tecnológico. Minha formação, digamos, pré-Petrobras é teórica.

Entrevistador – O senhor acha que isso vai ser questionado na CPI?

Sergio Gabrielli: Eu acho que vai.

Entrevistador: Porque muitos dizem sobre a ingerência política.

Sergio Gabrielli: Eu diria o seguinte: eu entrei na Petrobras como diretor financeiro, em 2003. A acusação inicial era que um ilustre desconhecido baiano, com todo preconceito que o baiano tem. E eu fui muito ousado. Eu com dois dias como diretor financeiro estava em Nova York, Londres, Tóquio, Milão. Eu fiz no primeiro ano mais de 1.500 reuniões no mercado com investidores.

Entrevistador: Em 2003 quando o senhor assumiu, qual era o valor de mercado? O senhor se lembra mais ou menos?

Sergio Gabrielli: 15 bilhões de dólares. Continuando, então em 2004/2005 eu passei a ser o melhor gestor financeiro do país. Ganhei prêmio de diretor financeiro latino-americano, ganhei prêmio de melhor executivo da área de petróleo ano passado em Londres, fui escolhido o homem do ano em Nova York…

Entrevistador: Ninguém lembrava que o senhor era baiano.

Sergio Gabrielli: Esqueceram que sou baiano.

Deixe seu comentário

Prezado leitor,

Lembramos que não serão aceitos comentários que tenham conteúdo ou termos ofensivos, nem que sejam desassociados do tema do post. Dúvidas sobre temas diversos devem ser encaminhadas ao Fale Conosco do site.

 caracteres restantes