Entrevista de Miguel Rossetto, presidente da Petrobras Biocombustível, ao Jornal do Brasil

24 de junho de 2009 / 18:29 Entrevistas Enviar por e-mail Enviar por e-mail Imprimir

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ROSSETTOO ex-ministro do Desenvolvimento Agrário e cientista social, Miguel Rossetto, 49 anos, assumiu a presidência da Petrobras Biocombustível em maio. Mesmo pouco tempo a frente da subsidiária da estatal, mostrou ter planos ambiciosos para o setor. Com entusiasmo, contou ao JB como pretende fazer com que a empresa seja em pouco tempo um gigante mundial no segmento, do ponto de vista econômico, social e ambiental. E os primeiros frutos da subsidiária, que completa no próximo dia 29 de julho o seu primeiro ano, já começam a surgir. Para isso, basta ver como o programa de biocombustível tem melhorado a vida dos agricultores de uma das regiões mais pobres do Brasil. Até agora já foram beneficiados 25 mil trabalhadores e a previsão é que até o fim do ano o total seja de mais de 45 mil trabalhando na atividade em regiões do semiárido. Orgulhoso com os primeiros resultados do trabalho, Rossetto explicou porque o Brasil é vanguarda no setor e revelou que o etanol e o biodiesel vão receber investimentos da ordem de US$ 2,4 bilhões nos próximos cinco anos. Só de pesquisas vão ser investidos US$ 530 milhões para assegurar uma condição de vanguarda tecnológica. Mais do que isso, Rossetto reafirmou com convicção que a agenda do biocombustível veio de vez para ficar. A seguir, os principais trechos da entrevista ao JB:

Como estão funcionando as usinas de biodiesel no Brasil?

Operamos hoje com três usinas, uma em Quixadá-CE, outra em Candeias-BA e uma em Montes Claros-MG com capacidade de 150 mil toneladas ano. Já estamos trabalhando com capacidade máxima e produzindo biodiesel com qualidade e garantindo entregas regulares para abastecer o mercado brasileiro, especialmente o Nordeste.

Qual o impacto destas usinas em seus mercados regionais?

Quando a Petrobras instalou estas usinas assumiu o desafio de produzir biodiesel com qualidade, competitividade, com racionalidade econômica e ao mesmo tempo de estimular a criação de um mercado regional de produção de matéria-prima inexistente. Hoje não temos um mercado regional com capacidade de abastecer, através de agricultura familiar, as nossas usinas. Por isso, estamos criando um mercado, prioritariamente organizado através da agricultura familiar dessas regiões, que vai participar da oferta de matéria-prima para abastecer as nossas fábricas.

mamonaQue matérias-primas têm sido utilizadas e quantos agricultores foram contratados?

A mamona, o girassol, o pinhão manso, o algodão, a própria soja e a macaúba, entre outros. Neste momento, porém, operamos nossas usinas com a soja e o algodão que compramos no mercado. Este ano começamos a organizar e a estimular os agricultores das regiões. Já contratamos nesta safra em torno de 25.900 famílias e a nossa expectativa é que até o fim de 2009 sejam contratadas de 45 mil a 46 mil famílias.

O senhor assumiu há pouco a presidência da Petrobras Biocombustível. Qual sua ambição à frente da subsidiária?

Vamos ampliar a produção de biodiesel, iniciarmos a produção de etanol ainda em 2009 e realizar um plano de negócios que temos aprovado (2009 a 2013). Tenho a responsabilidade de implantar estes investimentos e consolidar esta grande empresa brasileira produtora de biodiesel e de etanol. Desde já criamos condições para que a Petrobras Biocombustível seja nos próximos anos uma das melhores empresas do setor no mundo, do ponto de vista econômico, social e ambiental.

Como tornar o etanol uma realidade para a estatal?

Começamos agora a investir no etanol. Nossa estratégia de implantação de álcool para etanol é uma condição minoritária. Mas estamos nos associando a grupos existentes, ao mesmo tempo que participamos de novos projetos de etanol. E em todos eles buscamos uma grande eficiência ambiental e econômica.

Há projetos sociais ligados à implantação do programa de biocombustível?

Asseguramos a conquista do selo combustível social, que chancela o cumprimento da legislação federal e determina o percentual mínimo de participação da agricultura familiar como fornecedora de matéria-prima para nossas fábricas. Todas as empresas que trabalham com biodiesel no Brasil têm que cumprir essa exigência. No nosso caso, que atuamos no Nordeste, o percentual é de 30% da matéria oriunda da agricultura familiar. Estamos trabalhando muito para estimular a organização de pequenos produtores e que eles possam participar ativamente dessa atividade econômica e, com isso, melhorar a renda da região e a sua própria renda.

Existe um grande debate sobre a participação do nosso biocombustível no mercado internacional. Quais são nossas vantagens?

Nós somos vanguarda. A Europa tem uma agenda de biocombustível há mais tempo que a brasileira, especialmente a Alemanha. A Europa tem hoje uma média de 3% a 4% de participação de produção de biodiesel no seu mercado local. Já o Brasil vai começar a operar a partir do dia 1º de julho com o B4, com 4% de biodiesel na mistura do diesel mineral. Já existe a sinalização de que, para janeiro de 2010, haverá o B5 com 5% de participação. Mas no que o nosso programa nacional difere de outros programas de biodiesel em escala mundial? Para participar do mercado de biodiesel no Brasil, as empresas têm que ter o selo de combustível social. Portanto, elas têm a obrigação de comprar matéria-prima da agricultura familiar. Esse é o grande diferencial do programa brasileiro e faz com que seja melhor que os outros.

Como funciona o selo de combustível ambiental?

Ele faz parte do programa federal e é organizado pelo Ministério do Movimento Agrário, que certifica as empresas. As nossas empresas, por estarem na região do semiárido, têm a obrigação de adquirirem até 30% dos seus gastos em matérias-primas no selo de agricultura familiar.

Mas quais são as bases dos contratos firmados com os agricultores?

São contratos de cinco anos com preços justos. Em qualquer condição de mercado, eu asseguro ao agricultor que a Petrobras contratou o preço mínimo que garanta a remuneração do trabalho dele. Em nenhuma hipótese ele terá prejuízo e, por outro lado, garanto o preço do mercado. Se o preço de mercado estiver acima do mínimo eu pago o preço do mercado. Além disso, os nossos contratos estabelecem a possibilidade de revisão anual de preço. Isso cria um estímulo no agricultor em investir no seu trabalho, na sua propriedade de tal forma que tenhamos uma expansão rápida na produção de matéria-prima no Nordeste. Estou muito seguro que em dois ou três anos vamos ter uma estrutura estável e qualificada de suprimento das usinas.

As pesquisas nesse campo são fundamentais. Quanto a empresa está investindo aí?

Temos um volume de pesquisas tanto para o etanol, tanto para o biodiesel na ordem de US$ 530 milhões para assegurar uma condição de vanguarda tecnológica da Petrobras e do Brasil, tanto no etanol como no biodiesel.

Qual a expectativa de compra da produção de grãos para este ano?

Nossa expetativa é de adquirirmos algo em torno de 89 mil toneladas de grãos nestas regiões que estamos operando agora. O Brasil tem uma grande possibilidade de aumentar a produção agrícola, principalmente no Nordeste, na região semiárida, para abastecer as unidades de produção. Nossa prioridade é abastecer o mercado interno. Nossa rota de investimento é chegar até 2013 produzindo 25% do mercado de biodiesel no Brasil e 10% de etanol. Há muito trabalho por fazer. Temos quase US$ 2,4 bilhões autorizados para investir nessas duas áreas. Nossa meta é chegar nesta data com uma empresa sólida, robusta e produzindo biodiesel no Nordeste, no Norte do país e produzindo o etanol, este sim voltado especialmente para a exportação. Os investimentos do etanol vão se concentrar em São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.

Quanto vai ser investido no etanol?

Dos US$ 2,4 bilhões de investimentos para os próximos cinco anos, 80% serão em etanol e 20% em biodiesel. O etanol será a grande aposta brasileira.

Mas até que ponto essa aposta já é uma realidade ou há limites?

A ausência de uma tradição dessa produção agrícola nestas regiões é o grande desafio. Através da pesquisa, no entanto, da oferta de sementes, do estímulo à produção, de um conhecimento das melhores práticas agrícolas, nós esperamos ter em um prazo adequado o retorno em volume de produção a um custo competitivo. Em dois a três anos, teremos resultados muito positivos.

A mamona é uma das matérias-primas mais utilizadas no semiárido, mas alguns críticos afirmam que tem alto poder corrosivo no motores do carro. Como conciliar o interesse social com o técnico?

Não, inclusive temos testes em frota com o B5 rodando 100 mil quilômetros sem desgaste dos motores. Esta questão foi levantada e já foi demonstrada.

A produção de girassol funciona bem no Sul do país, mas como está reagindo na região do semiárido?

Há três anos não se falava em produzir girassol em nenhuma área do Nordeste. Hoje, a Embrapa tem pesquisas em Sergipe, no Rio Grande do Norte e em várias áreas com produtividades médias de girassol iguais aos da região Sul.

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