Entrevista José Sérgio Gabrielli – O Estado de S.Paulo – 2ª Parte

30 de junho de 2009 / 00:03 Entrevistas Enviar por e-mail Enviar por e-mail Imprimir

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jornais2Entrevistador: Estão vindo ultimamente algumas reclamações, ou pelo menos algumas notícias, de que os parceiros da Petrobras… o pessoal não está, vamos dizer, favoráveis ao sistema de contratação de oito cascos…

José Sergio Gabrielli: Não, não é que não estão favoráveis…

Entrevistador: …porque o custo está muito barato lá fora hoje em dia e não seria um bom momento para isso.

José Sergio Gabrielli: Não é essa a informação que nós temos. Nós temos o seguinte: a montagem de outros oitos cascos para FPSOs é uma montagem de produção de cascos de FPSOs em série. Então, os cascos de FPSOs serão formulados em série. Mas o casco de FPSO não é suficiente para você produzir, você precisa ter os módulos em cima do FPSO. E os módulos, às vezes, são específicos de determinados campos. E como você vai fazer esses cascos em série, você precisa, a priori, definir como é que esses cascos vão ser usados, e em que campos vão ser usados.

Entrevistador: Antes de começar?

José Sergio Gabrielli: Antes de começar o processo licitatório. E, portanto, os sócios de cada joint venture, que são diferentes, têm que se posicionar sobre isso. Então o problema hoje é esse.

Entrevistador: Então, na verdade, a discussão é qual campo vai receber investimento, vai receber a produção primeiro ou não.

José Sergio Gabrielli: Não. Qual campo vai receber que casco de FPSO.

Entrevistador: Quer dizer, então, na ordem cronológica.

José Sergio Gabrielli: Exatamente.

Entrevistador: Qual vai receber primeiro?

José Sergio Gabrielli: É essa a discussão. Ainda é debate entre os sócios, ainda confidencial…

Entrevistador: Porque tem um momento no mercado internacional que está tendo liquidação…

José Sergio Gabrielli: Não, não é tão claro.

Entrevistador: …que o custo estava muito mais barato. Navios saindo das prateleiras sem ter mercado…

José Sergio Gabrielli: Mas veja o que acontece. O casco de FPSO é geralmente um VLCC (Very Large Crude Carrier) antigo. Não é um VLCC novo. Ninguém vai pegar um VLCC novo e fazer casco de FPSO. Isso é verdade. E o que acontece é o seguinte: apesar de ter uma redução de custos tendente, cada segmento da indústria do petróleo tem reações, tem velocidades diferentes. Como nós do Brasil e da Petrobras somos grandes players no mercado offshore e nós estamos mantendo os investimentos, nós investimos R$15 bilhões nos primeiros três meses deste ano. São R$ 5 bilhões por mês. R$ 5 bilhões divididos por 30, veja quanto é que dá por dia. Nós investimos isso no primeiro trimestre deste ano. Isso significa que nós estamos mantendo a atividade econômica da área offshore. Portanto, os custos desses equipamentos específicos da área de offshore estão caindo menos do que outros segmentos. Porque nós somos os demandantes. Então, nosso processo de negociação fica mais complexo, mais duro. Por isso, nós temos que ter um processo de barganha, disputa com o mercado mais intensa. Por outro lado, a Petrobras tem seis dos campos do pré-sal. Ela é operadora de seis dos sete campos, das sete áreas, que não tem campo ainda, das sete áreas do pré-sal.

Entrevistador: Lá na Bacia de Santos.

José Sergio Gabrielli: Na Bacia de Santos, os sete, e os campos todos do Espírito Santo. Então, consequentemente, nós temos que pensar no plano de desenvolvimento do sistema como um todo, para todo o tempo que nós temos aí, que são 30 anos. E, consequentemente, ter uma indústria nacional, para nós, tem um valor fundamental estratégico de garantia de suprimento a longo prazo que, às vezes, para cada parceiro nosso pode ter uma visão diferente. Então, nós temos que equacionar também esses interesses distintos.

Entrevistador: A questão que me parece que surgiu agora é assim: essa política de incentivo da indústria nacional, olhando a noção de curto prazo agora, a balança começa a pesar contra ela, está barato fazer lá fora…

José Sergio Gabrielli: Não pesa contra ela, porque no caso de offshore nós vamos demandar. E se nós não usarmos a escala para atrair capitais, nós vamos ter problema daqui a cinco, seis anos. Nós temos que usar a escala nesse momento como força nossa. E a escala é fundamental. Porque não tem nada parecido com a demanda que nós temos no mundo nessa área. Nada parecido. A Petrobras tem 23% da operação das águas profundas do mundo. O segundo maior operador, depois da Petrobras, tem 14 %.

Entrevistador: E essa política de redução de custos está dando resultado?

José Sergio Gabrielli: Já, já está dando resultado. Nós estamos vendo muitas licitações chegando com preços menores que os nossos orçamentos internos. Nós estamos vendo prazos sendo reduzidos de equipamentos críticos. Nós estamos vendo mais competidores chegando para licitações. Então, está tendo realmente sinais claros de melhorias de condições. É um processo, mas nada é instantâneo. Isso é um processo.

Entrevistador: O senhor está pegando aqueles R$ 25 bi do BNDES, não é?

José Sergio Gabrielli: É. Deve estar saindo. Espero que saia logo.

Entrevistador: Agora, para essa semana, para próxima…

José Sergio Gabrielli: Acredito que sim.

Entrevistador: Mas o senhor vai pegar tudo de uma vez?

José Sergio Gabrielli: Vou pegar tudo de uma vez.

Entrevistador: Por que tem alguma…?

José Sergio Gabrielli: A transferência não é em dinheiro, acho que é em título. E aí a gente vai ajustando o mercado quando for preciso.

Entrevistador: E tem alguma outra captação com o BNDES, não?

José Sergio Gabrielli: Não. Nós captamos US$ 30 (bilhões). Usando R$ 2 da taxa de câmbio, US$ 12,5 (bilhões) do BNDES, US$ 10 (bilhões) da China, US$ 6,5 (bilhões) dos sindicatos de bancos e US$ 2 (bilhões) do US Ex-Im Bank. US$ 31 bilhões nos últimos primeiros cinco meses deste ano.

Entrevistador: Já está de bom tamanho.

José Sergio Gabrielli: Está de bom tamanho, mas se tiver oportunidade, nós sempre analisamos o mercado, se tiver oportunidade nós fazemos. Desses US$ 6,5 bilhões, US$ 1,5 (bilhões) nós transformamos de dois anos para dez anos, que vira um bond e podemos fazer a operação de bond a qualquer momento.

Entrevistador: Imagino que gerações de caixa está bem superior ao que vocês previram naquele plano de financiamento…

José Sergio Gabrielli: Sim. Nós fizemos nossa situação de estresse, de cenário de estresse a US$ 37 o barril este ano. Então a geração de caixa…

Entrevistador: E qual é a projeção do preço do barril para o ano de vocês?

José Sergio Gabrielli: Não, na realidade é muito difícil de se fazer projeção de preço de barril. Nós estamos trabalhando com duas curvas de preço: uma curva que nós chamamos de cenário de estresse que é US$ 37 em 2009, US$ 40 em 2010, US$ 45 em 2015 para frente…E a outra curva de preço que dá uma média de US$ 65. Sobe, depois desce, dá uma média de US$ 65. Se o preço do petróleo ficar nessa curva mais baixa, o que nós captamos dá para financiar dois anos do nosso investimento. Se o preço do petróleo ficar mais próximo da curva de US$ 65, com os US$ 30 bilhões nós financiamos os cinco anos. Então, dependendo do preço do petróleo, o que nós captamos já é suficiente para dois anos ou para cinco anos.

Entrevistador: Agora essa conta considerava a queda da gasolina e de 15 (%) do diesel ou não

José Sergio Gabrielli: Considerava. Nós sempre pensamos no ajuste a longo prazo

Entrevistador: …trabalhando a longo prazo…

José Sergio Gabrielli: A longo prazo, não no curto prazo.

Entrevistador: E esse câmbio também.

José Sergio Gabrielli: É, o câmbio estava um pouquinho acima…, estava trabalhando em torno de R$ 2. Hoje está em torno de R$ 1,90 e pouco, 1,96, 1,97, por aí.

Entrevistador: Está para sair também agora a regulamentação das áreas do pré-sal. Já está tudo pronto, não é? E agora…

José Sergio Gabrielli: Não, não está pronto não. Está em discussão. Não está pronto, não. Tem detalhes …

Entrevistador: Você já é a favor da estatal ou você ainda continua contra?

José Sergio Gabrielli: Não. Eu sempre fui contra a ideia de uma estatal operacional. Mas sempre fui a favor do aumento do papel do Estado na regulação, na operação do pré-sal. Sempre defendi isso.

Entrevistador: Mas a nova estatal operacional nunca foi colocada em pauta.

José Sergio Gabrielli: Não. Minha posição sempre foi que o marco regulatório brasileiro foi feito no momento em que o Brasil não tinha recursos internacionais adequados por causa das crises financeiras nacional e internacional na década de 90. Nós tínhamos a inteira Petrobras, estava começando a crescer. Nós não tínhamos ainda descobertas de grandes reservatórios novos e grandes áreas exploratórias novas e, portanto, você fez um marco regulatório que privilegia e renumera quem assume riscos exploratórios. Então, a empresa que queira assumir o risco exploratório vai ser renumerada, porque ela vai ser dona do seu petróleo. A Petrobras assumiu esse risco exploratório. Tanto é que ela foi a que mais cresceu nos leilões e aquisições de áreas e investiu pesadamente na exploração. E ganhou. Por isso, ela descobriu as reservas, os reservatórios do pré-sal, por isso ela descobriu o volume que está anunciando aí no Tupi, Iara, etc., de ordem recuperável. Na medida em que isso tem uma extensão muito grande e que houve uma identificação do tipo de reservatório, o risco exploratório caiu muito. Portanto, para nós, hoje, a exploração das áreas do pré-sal fora das áreas concedidas é quase bilhete premiado. Não é bilhete premiado porque sempre tem um risco exploratório mínimo. Então, se é isso, o Estado que é dono dessas áreas pelo monopólio estatal das reservas brasileiras constitucional, o Estado tem que ganhar mais. Então, eu sempre defendi, desde o primeiro momento, que tinha que ter um sistema de partilha e produção dessas áreas e, evidentemente, quando você tem um sistema de partilha e produção, o Estado tem que ter um representante que é dedicado a isso, como seu representante.

Entrevistador: O que seria essa estatal.

José Sergio Gabrielli: O que seria essa estatal.

Entrevistador: Então, nesse modelo você aprova?

José Sergio Gabrielli: Claro. Nesse modelo eu aprovo. Não mudei de opinião. Essa é minha opinião desde o primeiro momento, se pegar as minhas entrevistas lá do início.

Entrevistador: Isso foi um consenso?

José Sergio Gabrielli: Não, eu não estou falando… não sei se o modelo vai ser assim. Não sei. A comissão não terminou o trabalho ainda. Eu não posso antecipar a posição da comissão.

Entrevistador: Existem pessoas na comissão que dizem que defendem coisas semelhantes… você e o Lobão (Ministro de Minas e Energia, Edison Lobão). Lobão falou com a gente.

José Sergio Gabrielli: Não, eu não vou discutir isso em termos, porque a comissão não terminou seu trabalho. Então, não tem como discutir isso ainda.

Entrevistador: Mas esse risco muito baixo, por exemplo, tem uma suspeita com relação a esse poço do BM-S- 22, o Iguaçu, que ele foi concluído já e que até agora não teve nenhum comunicado de descoberta à ANP. Quer dizer, o que tudo indica, ele foi um poço que não encontrou…

José Sergio Gabrielli: Quem pode comentar sobre o Iguaçu é a Exxon, que é a operadora. Nós somos sócios.

Entrevistador: Vocês já entregaram a plataforma aos titulares que estava pronta?

José Sergio Gabrielli: Estavam em negociação? Não sei.

Entrevistador: Eu me lembro que assinou um contrato já…

José Sergio Gabrielli: Não sei também. Aí é parte operacional, eu não sei, não. Não acompanhei por esses dias. Eu não tenho acompanhado isso.

Entrevistador: Essa nova estatal, sendo criada. Qual seria, depois a compensação? Porque você fala assim: poderia haver uma compensação para a Petrobras. Uma capitalização da Petrobras?

José Sergio Gabrielli: Não. Os detalhes do modelo não estão prontos, não há como discutir os detalhes desse modelo. Não tem um modelo pronto.

Entrevistador: Ah! mas já tem uma ideia já bem consistente.

José Sergio Gabrielli: Não tem modelo pronto. Eu fiz aqui uma análise sobre a comparação do sistema regulador anterior com um sistema novo, com áreas novas. Não tem nenhum modelo aqui.

Entrevistador: Vem cá, como é que está o teste de Tupi? Está dentro das expectativas, está superando ou está baixa?

José Sergio Gabrielli: Os testes são 15 meses.

Entrevistador: Começou já um pouquinho, deve de ter um mês ou dois…

José Sergio Gabrielli: É. Está dentro do padrão normal. Para, volta, cresce.. Já saiu até uma carga aí.

Entrevistador: Foi, eu vi. A Galp fez o estardalhaço lá. Para eles, deve ser muito petróleo.

José Sergio Gabrielli: Está aí. Não tem nenhuma anormalidade maior.

Entrevistador: Mas está além das expectativas ou está dentro?

José Sergio Gabrielli: Não tem como você dizer isso. Porque está dentro da normalidade. Você tem a grande novidade, é observar várias variáveis ao longo do tempo, por isso chama-se longa duração.

Entrevistador: Não tem como essa longa duração ser antecipada?

José Sergio Gabrielli: Não tem como. É a mesma coisa que gravidez…

Entrevistador: Ah! Pode nascer de sete meses…

José Sergio Gabrielli: Sim e aí nasce prematuro com problema e bota lá na incubadora.

Entrevistador: Do mesmo jeito que a indústria do petróleo está muito evoluída.

José Sergio Gabrielli: É, mas aí é que está. Evoluiu muito, mas este teste de longa duração ele faz o quê? Ele observa a natureza. Em termos assim, muito simplificados, pedindo perdão aos geólogos, engenheiros de petróleo em reservatórios, o teste é, você essencialmente produzir em diferentes condições durante muito tempo e observar como é que a natureza reage. É uma observação da natureza. Então, tem que ter tempo para a natureza.

Entrevistador: O próximo teste vai ser Guará mesmo?

José Sergio Gabrielli: O próximo teste deve ser Guará. No Guará, estão testando, é o do Espírito Santo. Tem o teste de Espírito Santo e tem, agora, o de Tupi.

Entrevistador: O Guará é quando?

José Sergio Gabrielli: Está no plano de avaliação, eu não sei quando, de cabeça, eu não sei. Tem mais de 200 planos aí.

Entrevistador: Essa história do gás de ontem, que você chegou a falar que não estavam conseguindo trazer tudo da Bolívia…

José Sergio Gabrielli: Não. Eu disse o seguinte: nós não estamos tendo sobra de gás. Nós não temos sobra de gás. Nós estamos trazendo tudo que é possível trazer.

Entrevistador: É, mas vocês haviam dito era assim no começo do mês passado.

José Sergio Gabrielli: Sim, mas a demanda térmica brasileira em 12 horas muda de 5 milhões para 15 milhões de metros cúbicos, em 12 horas. Depende de despacho termoélétrico? Aí você tem um problema em um determinado compressor, que é operacional, que acontece, aí você perde a capacidade de 5 milhões de metros cúbicos num dia. Então, isso aí é o dia a dia, entendeu? Isso é a parte operacional de um sistema grande, como é um sistema de gás.

Entrevistador: Tenho a impressão que ficou para gente, a partir desses últimos anúncios de campos de gás, que em 2006 vocês aceleraram os investimentos do Plangás, fizeram bastante investimentos e na hora que estavam tentando entrando em operação, o mercado, na verdade não está…

José Sergio Gabrielli: Não, não é assim. O grande investimento que nós fizemos foi o investimento em logística. Estamos completando paredes de gaseodutos. Os novos campos de produção também, que nós crescemos a capacidade de produção, são entradas de novos campos de produção de gás não associado: Manati, Lagosta e Mexilhão. São campos de gás não associados. Não tem petróleo.

Entrevistador: É, também no Espírito Santo agora, não é? Camarupim…

José Sergio Gabrielli: É, exatamente. É crescimento da produção de gás não associado. Montamos dois terminais de regaseificação que já estão sendo usados. Terminal de regaseificação, você traz o navio quando você precisa. Não é permanentemente realimentado. O terminal deve ser usado quando for necessário. A partir de março de 2010 devemos ter o Gasene concluído. Então, consequentemente, teremos uma rede nacional de gás. Então, nós montamos a rede com mais flexibilidade. Não é um problema volumétrico, de produzir mais em função de um mercado que está mais ou menos. É atender o mercado que está crescendo com a flexibilidade que ele exige.

Entrevistador: Certo. Mas entraram alguns campos…

José Sergio Gabrielli: Sim.

Entrevistador: É, mas não chega.

José Sergio Gabrielli: Não chega ainda, mas com o Gasene vai chegar também.

Entrevistador: E no momento de mercado que tem retraído bastante de gás…

José Sergio Gabrielli: Mas o que está acontecendo com o reservatório de água do Sul? Você está despachando termoelétrica para compensar a seca do Sul.

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