Publicado no jornal O Dia – RJ

8 de julho de 2009 / 10:38 Entrevistas,Reportagens Enviar por e-mail Enviar por e-mail Imprimir

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Entrevista de Wilson Santarosa, Gerente Executivo de Comunicação Institucional da Petrobras,  ao Jornal O Dia:

O Dia – Como era o processo de seleção de projetos de patrocínio antes de 2003?
Wilson Santarosa – A Petrobras fazia relacionamento com comunidades onde havia um equipamento qualquer da Petrobras, uma unidade de negócios, mas não havia um alinhamento do que era feito. Cada unidade fazia o seu. A partir de 2003, introduzimos três pilares que dão sustentação ao Planejamento Estratégico da Companhia: rentabilidade, que é quando nós vamos retornar ao acionista; desenvolvimento de novas tecnologias, quando respondemos e damos segurança ao consumidor; e o terceiro pilar, que é a responsabilidade social e ambiental, quer dizer, a busca da sustentabilidade. Faltava esse de responsabilidade social, e isso aconteceu a partir de 2003. Então, foi o que fizemos: nós investigamos tudo que a Petrobras fazia na área social e reunimos num projeto, um programa só, que nós chamamos de Petrobras Fome Zero, alinhado ao programa de políticas públicas do Governo Federal. E por que nos alinhamos às políticas do Governo Federal? Porque um potencializava o outro, e obtínhamos resultados muito melhores.

O Dia – A gente está falando só do social, não é? Não chegamos ao ambiental ainda?
Wilson Santarosa – O ambiental é no mesmo sentido. Ele veio junto, e alinhamos também num programa ambiental. Feito isso, traçamos aquelas diretrizes para toda a Companhia. Todos tinham que enquadrar os seus projetos nesses programas. Então, quando coloca assim: “Aumentou o orçamento, aumentou o custo da Comunicação…”. Não, a gente veio como um todo. O que já existia, nós alinhamos, e aí apareceu o que não aparecia. Feito isso, nós vimos que havia certo direcionamento de alguns eixos muito próximos das unidades de negócio, mas também muito próximos dos grandes centros. É lógico que São Paulo tem cinco refinarias. Era em São Paulo onde se concentravam as coisas. Então, nós desenvolvemos um processo de seleção pública com edital público e critérios objetivos, claros, para que o Brasil todo pudesse participar e não somente aqueles mais próximos.

O Dia – É uma democratização do processo, porque antes só quem tinha o conhecimento aqui se candidatava…
Wilson Santarosa – O pessoal mais distante, de outras regiões, não sabia como apresentar um projeto. Eles não sabiam como montar, não tinham a menor ideia de como fazia. Eu acho que, com esse processo, com as caravanas que nós criamos, o pessoal começou a aprender e enquadrar os projetos dentro dos critérios que cada programa exige. Os procedimentos do social e do ambiental são muito parecidos. Os objetivos, lógico, e resultados são diferentes. No social, a gente trabalha com pessoas, no ambiental, com meio ambiente.

O Dia – Mas em comunidades mais carentes do litoral, é isso?
Wilson Santarosa – Nós chegamos a quase todas as cidades, principalmente aquelas onde nós temos negócios, nossas unidades.

O Dia – Mas isso também foi uma característica de 2003 pra cá?
Wilson Santarosa – Também. Isso deve ter começado em 2004 ou 2005.

O Dia – Soube que contrataram para a área o cara que é o bamba do meio ambiente, o Flávio Comin.
Wilson Santarosa – Sim, para o desenvolvimento de uma sistemática de avaliação.

O Dia – Ele trouxe uma fórmula que avalia o resultado, não é?
Wilson Santarosa – Tanto para ambiental quanto para social, e agora para cultural também. Agora aquele resultado que não for bom, que estiver abaixo da média, a gente estabelece que não terá continuidade. Antigamente não tinha avaliação nenhuma. Hoje, com isso, a gente passa a ter um crivo melhor. E o mais importante: quem vai acompanhar isso? Não será mais a Comunicação. A Comunicação faz o processo seletivo ou a contratação direta, de acordo com interesses ligados à unidade de negócios, executa e introduz os resultados e o acompanhamento nesse sistema que a Estratégia, que é uma outra área da companhia, a Estratégia de Desempenho, é que vai acompanhar. É a mesma área que acompanha os negócios. Isso é muito importante para nós. Tira, um pouco, o peso da responsabilidade nossa, na Comunicação, e dá maior consistência à aferição dos resultados, o que nos dá mais segurança de que estamos fazendo certo ou não.

O Dia – A Petrobras, como empresa bem sucedida, de um país que ainda tem aquele termo horroroso que não gostamos nem de dar, bolsão de miséria.
Wilson Santarosa – Nós não vivemos numa ilha da fantasia. A Petrobras está bem com o Brasil, como outras empresas estão bem com o Brasil. Na área cultural, a Petrobras investia muito – e tem investido ainda – em cinema. O resultado é que o cinema era o que mais dava retorno de imagem. A Petrobras investia a maior parte das suas verbas em cinema. Hoje, não. Nós mudamos. No processo de seleção pública, o dinheiro é dividido de acordo com a necessidade, lógico que é uma coisa de mercado, mas para todos os segmentos da cultura brasileira e com a maior diversidade possível: o Sul é diferente do Norte, que é diferente do Nordeste, que é diferente do Sudeste. A gente procura atender todos os segmentos, preservando a cultura local. Se não cuidar disso, você muda a realidade de regiões, muda a realidade do país, vira todo mundo igual. A preservação da cultura local é importante. Então, a gente atende todos os segmentos: cinema, teatro, etc.

O Dia – Qual a diferença daquilo que a Petrobras investe: o que é marketing, o que é publicidade, o que é investimento na área social e ambiental, que também tem resultado de marketing?
Wilson Santarosa – Como é que você fideliza o consumidor, para ter confiança e tal? Você tem que ter uma boa reputação, ser reconhecido como uma empresa de alta confiança, tem que ter credibilidade. Então não é só com marketing e publicidade nos meios de comunicação. Você tem que estar próximo do consumidor. Eu acho que com essa atuação em responsabilidade social nas comunidades, o consumidor sentiu a Petrobras muito próxima. Ele passou a gostar da Petrobras. Então, os resultados de imagem, de confiança, de reputação cresceram assustadoramente. Cresceram demais.

O Dia – E isso é aferido como?
Wilson Santarosa – Nós temos vários métodos de pesquisa, o SISMICO é um deles: é o Sistema de Monitoramento da Imagem Corporativa. Em que você conversa com todos os grupos de interesse e pesquisa, a cada dois anos, como é que nós estamos.

O Dia – Em números, isso é verificado periodicamente, então?
Wilson Santarosa – A cada dois anos.

O Dia – E funcionou, então?
Wilson Santarosa – Em todos os públicos de interesse, desde acionistas e imprensa, até a comunidade acadêmica, o consumidor, as comunidades de entorno. Com todo o mundo com quem a gente de alguma forma se relaciona, a gente afere a nossa imagem. É importante destacar também o balanço social. A importância de nós termos conseguido, com a consolidação de critérios em informação, nós termos conseguido emplacar a certificação da Dow Jones.

O Dia – Por três anos, né?
Wilson Santarosa – Por três anos. Em função de organização. Sem ela, nós não teríamos conseguido.

Entrevista de Luis Fernando Nery, Gerente de Responsabilidade Social da Petrobras,  ao Jornal O Dia:

O Dia – Estamos fazendo uma matéria que seja uma espécie de serviço para quem hoje tem uma ONG ou tem a pretensão de ter uma ONG, uma OSCIP.
Luís Fernando Nery – Primeiro, uma coisa importante, a gente não patrocina instituição, a gente patrocina projetos. Os projetos podem ser apresentados por qualquer tipo de instituição sem fins lucrativos que esteja regularizada legal e fiscalmente. Tem que ter os documentos que comprovam a sua regularidade fiscal e tem que estar legalmente constituída. No seu estatuto ou na sua ata de criação, tem que estar especificado como atividade a que está descrita no projeto. Falo isso porque – embora seja uma minoria, não é a maioria – a gente ainda recebe um número de projetos que não têm na descrição oficial a natureza do projeto que a instituição vai desenvolver. Então este é um caso típico em que a gente não aceita o projeto.

O Dia – Pode ser que ela desenvolva aquele projeto, mas se formalmente isso não estiver…
Luís Fernando Nery – Para a Petrobras analisar um projeto, é preciso que ele seja apresentado por uma instituição que seja sem fins lucrativos e tenha uma estruturação legal e a regularidade fiscal comprovada. Isso é o básico.

O Dia – Alguns projetos são selecionados por convite. Eles são chamados para entrar na seleção?
Luís Fernando Nery – É o seguinte: o que existia na Petrobras antes dos programas que a gente chamou de plurianuais na área social e ambiental? Um processo em que qualquer tipo de instituição poderia entregar qualquer proposta e projeto para qualquer pessoa da Petrobras. Procedimento, aliás, muito comum em várias empresas até hoje. O que nós fizemos então foi criar um grande programa plurianual para a área social, um grande programa plurianual para a área ambiental – da mesma forma que foi criado para a área cultural e, recentemente, para a área esportiva. Esse programa plurianual, como o próprio nome diz, tem um planejamento estabelecido para vários anos. No caso dos programas vigentes atualmente, eles têm um planejamento previsto para cinco anos. Ou seja, eles foram orçados em 2007, o social e o ambiental, com previsão até 2012. Esse não é um período de tempo ocasional. Porque é também de cinco anos a estruturação do plano de negócios da companhia. Tem a ver com o fato de que a responsabilidade social, e dentro da responsabilidade social, a parte de patrocínios a projetos sociais, ambientais, culturais e esportivos ter sido estabelecida como ações estratégicas. Então os programas têm o mesmo tipo de planejamento dos negócios da companhia. É um programa para cinco anos, a definição de critérios, metas e objetivos, com seus respectivos indicadores, para que a gente ano a ano possa verificar o desempenho daquelas decisões que tomamos. Quando a gente fez isso, também escolhemos as chamadas linhas de ação. Antes, até 2003, a Petrobras não tinha um foco definido de atuação tanto na área ambiental quanto na área social. Ela fazia muita coisa interessante, até porque não se descobriu a pólvora em 2003. A Petrobras já fazia muita coisa interessante, muita coisa que segue até hoje. Um bom exemplo na área ambiental é o Tamar, um projeto de mais de 25 anos de apoio e que continua sendo feito.

O Dia – O Jubarte, também…
Luís Fernando Nery – O Jubarte, o Peixe-Boi… E também na área social a Petrobras tinha alguns programas interessantes que seguem até hoje. Mas o que acontecia também é que a empresa tinha vários projetos em praticamente todas as áreas do meio ambiente, em todas as áreas do social, não tinha um foco definido. A novidade é que esses programas plurianuais, além de terem uma projeção, um tempo de cinco anos, verbas definidas e um orçamento previsto para esses cinco anos, passaram também a ter foco. Cada um desses programas tem o que a gente chama de linha de ação. Então, por exemplo, no programa social vigente, que foi lançado em 2007 e tem planejamento previsto até 2012, nós temos três linhas de ação. Para um projeto ser analisado pela Petrobras ele tem que seguir uma dessas três linhas de ação.

O Dia – Quais são?
Luís Fernando Nery – Geração de renda e oportunidades de trabalho, primeira linha. A segunda linha é educação para a qualificação profissional e a terceira é a garantia dos direitos da criança e do adolescente. Então, o que acontece? Se alguém chegar com um projeto que não seja dessas linhas, ninguém aqui vai ler nem analisar. Porque a gente está fazendo algo que é planejado, programado.

O Dia – Isso é o que entra naquele banco de projetos?
Luís Fernando Nery – Essas linhas de ação servem para qualquer tipo de projeto – os chamados projetos convidados ou os chamados projetos de seleção pública. Isso é geral. Isso é do programa. Então isso é o que orienta o que a gente quer fazer. A gente quer fazer um projeto de geração de renda e oportunidade de trabalho, projetos de educação para a qualificação profissional ou projetos de garantia dos direitos da criança e do adolescente. Então, eu não convido A, B ou C, é um convite à sociedade. E aí, a separação: esse convite é amplo, geral e irrestrito, democrático.

O Dia – Tem as caravanas, não é?
Luís Fernando Nery – Isso. A gente começou a fazer as Caravanas, que a gente chama de presenciais – ia às principais cidades fazer tipo um workshop. A gente dava tempo, as instituições se inscreviam e isso às vezes gerava um processo de multiplicação nas áreas social e ambiental. Tem muita instituição cuja razão de ser não é fazer projetos, é divulgar dados. Então, às vezes, nesses workshops, iam algumas instituições que nunca apresentaram projetos para a Petrobras. Mas elas iam, aprendiam como fazer e depois elas iam procurar outras cidades espontaneamente – não é que a gente bancasse isso não. E aí elas faziam os seus workshops ensinando às instituições daquela outra região como apresentar projetos para a Petrobras. Isso era ótimo para nós. O nosso objetivo é: quanto mais gente apresentar projetos, mais projetos a gente receberá, e, portanto, em tese, com a maior quantidade a tendência é uma melhor qualidade.

O Dia – As Caravanas têm quanto tempo?
Luís Fernando Nery – As Caravanas da área cultural foram lançadas em 2004, e na área social e ambiental, em 2005. E, por exemplo, mais recentemente, em 2006, nós lançamos o que a gente chamou de Caravana Virtual. Quer dizer, além de ter presencialmente, a gente tem pessoas que ficam na internet, no que a gente chama de tutorial. Antigamente a gente só botava as informações na internet, mas aí para quem tinha dificuldade para ler, dificuldade de compreensão, na hora, online, tem alguém 24 horas por dia, durante o período de inscrição, que normalmente fica entre 45 e 60 dias, e a pessoa pode mandar e-mail perguntando: “e aqui nesse campo, o que vocês pedem é isso mesmo?” A gente explica: o que a gente está querendo dizer com período de experiência não é simplesmente anexar o currículo, você pode, se não tem um currículo acadêmico, falar de sua experiência de trabalho, que é várias vezes na área social ou ambiental. Então, a pessoa pode ter anos e anos de experiência e não ter um currículo formal, não ser um biólogo, não ser um sociólogo, enfim, mas aquilo conta. Então, a seleção pública foi pensada para isso, ampliar. A primeira seleção pública que a gente fez teve mais de 5 mil inscritos.

O Dia – E ainda tem uns que rejeitam a Petrobras, né? Eu já fui num evento que, até era da Petrobras, ali em Caxias, onde se estava plantando orgânicos, aí um dos representantes da ONG parceira disse: “Eu sou muito criticado por ter entrado nesse patrocínio, nesse apoio da Petrobras…”
Luís Fernando Nery – Tem isso… Ninguém é unânime. Mas a gente usa essa terminologia exatamente por isso. Convidado é porque a gente anuncia que quer patrocinar projetos na área de geração de renda, de oportunidade de trabalho. Convidado é todo mundo que aceita o convite e apresenta um projeto. Não é um convite dirigido a A, B ou C. Entendeu, é a qualquer instituição. Você que está fazendo a matéria aqui comigo. Você está trabalhando numa instituição, numa associação de moradores, e diz: “Ah, na associação de moradores do bairro tal…”

O Dia – E isso tudo é fiscalizado?
Luís Fernando Nery – E isso tudo é fiscalizado. A gente tem um sistema de visita presencial, troca de informações pela internet, troca de informações pelo correio, e eventualmente até a contratação de especialistas, principalmente na área ambiental, quando tem algum projeto que tem uma linha muito técnica, ou vai algum especialista do nosso centro de pesquisa, ou nós contratamos algum especialista que vai lá fiscalizar se aquilo tecnicamente foi executado.

O Dia – A gente pode dizer que exista um perfil?
Luís Fernando Nery – Não, pelo contrário, a gente busca diversidade, que é um atributo da nossa ação no campo social.

O Dia – Mas nem por área, aqui no Rio de Janeiro não tem alguma coisa …
Luís Fernando Nery – Não, a gente tem critérios. Procuro um perfil específico da instituição. Temos critérios para o projeto. Um exemplo de critério que define projeto: a gente quer que 50% – uma meta chamada Meta de Carteira – do público atendido por todos os projetos estejam no intervalo entre 15 e 29 anos. Por quê? Porque esse é o intervalo de tempo definido pelo Conselho Nacional da Juventude como jovem. O jovem brasileiro entre 15 e 29 anos. E como me todos os estudos da OIT, do UNICEF, de instituições nacionais e internacionais mostram que a faixa com maior vulnerabilidade social no Brasil é a juventude, ou porque tem problemas no campo de educação e qualificação profissional e chega na idade de entra no mercado de trabalho com baixa educação e qualificação, ou como o mercado de trabalho está muito disputado, essas pessoas sem qualificação não conseguem espaço. Então, há várias formas de agir, mas, basicamente, ou você faz projetos de educação e qualificação profissional para melhorar, ou, na linha de geração de trabalho e renda, nós trabalhamos muito com projetos de empreendedorismo, porque muitas vezes a pessoa não consegue emprego numa empresa, num órgão público, às vezes não tem a qualificação acadêmica, mas pode ter algum talento, pode cozinhar muito bem ou ser um excelente artesão. E aí essa é preparada com o empreendedorismo.

O Dia – E para o nosso público leitor, para quem estamos querendo dar a visão de que ele pode entrar nisso?
Luís Fernando Nery – Para o público leitor, a melhor fonte de informação é o site da empresa, que dá todas as informações. Quando o processo de inscrição para seleção pública está aberto, isso fica em destaque no site.

O Dia – Quando é que abre?
Luís Fernando Nery – É uma vez por ano, não tem uma data definida. Esse ano deve abrir no segundo semestre, mas a data ainda não está definida. No social é todo ano e no ambiental é de dois em dois anos, porque os contratos sociais são anuais, e os ambientais são contratos de dois anos.

O Dia – Mas esses demandam mais tempo, é isso?
Luís Fernando Nery – Sim. Poderíamos ter projetos que fossem mais imediatistas, mas não. Queremos ter, na área ambiental, projetos realmente de intervenção em que haja melhoria a olhos vistos. Portanto, os contratos são mais longos, os valores são maiores e as exigências também são maiores, sob o ponto de vista do detalhe. Eles têm uma carga de trabalhos técnicos maior e os contratos também são mais amplos, de dois anos; por isso a seleção pública também é de dois em dois anos. E trabalhamos com dois temas hoje: de 2003 a…

O Dia – As inscrições já podem ter um perfil aí, não têm?
Luís Fernando Nery – Não. Só têm que apresentar uma equipe técnica. A equipe tem que ter um perfil técnico. Tanto que, para fiscalizar os projetos ambientais, várias vezes a gente recorre a técnicos contratados pela especialidade da atividade que está sendo feita naquele período.

O Dia – E tem linha de ação?
Luís Fernando Nery – Exatamente. Temos dois temas. Trabalhamos, de 2003 a 2006, só com o tema água. De 2007 em diante, mantivemos a água mas trabalhamos também com a parte de mudanças climáticas. Por isso dizemos que o trabalho é com água ou com clima. E dentro desses dois temas temos algumas linhas de ação que são, basicamente, a parte de recuperação ou preservação de áreas degradadas ou habitats marinhos, projetos de recuperação da biodiversidade e os projetos chamados de emissões evitáveis.

O Dia – A gente não falou de alguma coisa?
Luís Fernando Nery – Faltou a nossa menina dos olhos. Nós criamos o que chamamos de Sistemática de Avaliação de Projetos Sociais e Ambientais. Com tudo isso criado e aprovado, a diretoria colocou um desafio para a gente. Quando apresentamos tudo para a diretoria, eles confirmaram que estava tudo bem organizado. Mas se a Petrobras quiser que este investimento social seja estratégico… De acordo com a nossa visão, queremos ser, em 2020, uma das cinco maiores empresas de energia do mundo e a preferida de seus públicos. E para ser a preferida, a gente tem que atender às demandas sociais e ambientais, porque as pessoas esperam que as empresas de onde elas vivem façam isso. Essa é uma expectativa, e não uma cobrança do governo, de ONG, de imprensa. Isso é o esperado pelas pessoas de modo geral.

O Dia – É possível fazer a Petrobras sair de grande empresa, enorme, invejável, que dá orgulho, para fazer com que a população do país melhore? As pessoas falam de Angola, não é?
Luís Fernando Nery – Por isso escolhemos essas linhas de ação, porque sabemos que nós, nem ninguém, não conseguimos ajudar em tudo. Então, o primeiro é definir para onde vai a nossa ajuda, que são essas linhas de ação. O que nós avaliamos e verificamos a cada final de programa é o que foi feito e se de fato aquilo trouxe melhorias. De fato o sistema de garantia dos direitos da criança e do adolescente melhorou? De fato houve melhoria na geração de emprego e renda e oportunidades de trabalho daquelas pessoas? De fato houve ampliação da educação e qualificação profissional? Isso tem que ser medido e os resultados publicados. E tem que ser auditado.

O Dia – E isso foi montado de 2003 para cá?
Luís Fernando Nery – Sim, e a grande diferença é que, em 2007, quando teve esses programas novos, a diretoria colocou esse desafio para a gente. Que a gente ia ter que usar um sistema de avaliação para escolher o projeto, depois fazer o acompanhamento e ver os resultados, da mesma forma como é feito com os projetos de negócios da Companhia. E esse processo deveria ser acompanhado não só por aqueles que fazem como também por um órgão da Petrobras chamado Estratégia, que acompanha os resultados das áreas de negócios. Por exemplo, a área de negócio Abastecimento, que cuida das refinarias. Ela acompanha os resultados das refinarias (quanto produziu, quanto vendeu) através de um sistema pelo qual a Estratégia Corporativa vê os resultados e os apresenta para a diretoria, usando uma tecnologia que na Petrobras é chamada de BSC – Balanced Scorecard. Então, vamos ter que construir, na área de Responsabilidade Social, o mesmo processo com uma metodologia que é a mesma, para nós e a Estratégia Corporativa acompanhar. Assim, montamos um grupo interno com pessoas da nossa área, da Estratégia Corporativa e de várias áreas de negócios da Petrobras. Pegamos a metodologia de avaliação dos negócios da companhia e a adaptamos para acompanhar projetos sociais e ambientais. Inclusive estabelecendo indicadores, metas e um sistema que chamamos de métrico, afinal é uma empresa, na origem, de engenheiros. Tudo é pela fórmula. Tem uma métrica; tem uma equação; roda um programa para te dar um número de avaliação do projeto. Daqui a um ano vai rodar o programa de novo e esse número tem que dar igual ou maior.. Depois de tudo isso criado, pensamos se aquilo funcionava mesmo. Então contratamos um especialista para avaliar o que foi feito, o Flávio Comin – um brasileiro de vulto internacional que é um pós-doutor em economia radicado na Inglaterra, é da equipe do professor Amartya Sen (um dos papas da responsabilidade social) e é contratado pela ONU como responsável pelos relatórios de cumprimento dos Objetivos do Milênio no Brasil e está trabalhando no processo de revisão do IDH, nos critérios de formulação do IDH, o Índice de Desenvolvimento Humano, que é um dos critérios da ONU que classifica países, cidades e até bairros, se não me engano. Nós fizemos um acordo com o Flávio Comin: primeiro, que ele fizesse um estudo de benchmark entre as maiores empresas do mundo, aquelas que estão no índice Dow Jones de sustentabilidade, verificando como elas acompanham os projetos que patrocinam; segundo, que, a partir desse benchmark e da própria experiência dele, criticasse o nosso trabalho propondo melhorias de curto, médio e longo prazo. Foi o que ele fez e nós adotamos as melhorias de curto prazo sugeridas e implantamos o sistema, que está em fase de implementação (ainda não está 100%). O que isso significa? Criamos a nossa área de TI, 100% web. Esse sistema já está disponível para acesso de todos que trabalham com Responsabilidade Social na Petrobras.

O Dia – Mais alguma coisa?
Luís Fernando Nery – Se você tiver espaço, algumas coisas para a gente são importantes. A gente tem a pontuação mais alta entre todas as empresas do setor de petróleo, gás e energia no critério cidadania corporativa, o critério que avalia esse tipo de trabalho. Isso para nós é um tremendo reconhecimento. Em cidadania corporativa, eles chamam de citizen corporationship.

O Dia – Vou anotar aqui, isso é importante frisar.
Luís Fernando Nery – É assim. A gente vive fazendo pesquisas, mas uma coisa é a pesquisa que eu contrato e eu acredito nela. Mas, para um terceiro, se sou eu que estou contratando, em tese ela pode sempre ser suspeita. Então eu nunca cito as pesquisas da minha companhia. Mas o índice Dow Jones é aceito mundialmente. E nesse critério de cidadania corporativa, há três anos nós somos a empresa que tem a pontuação mais alta na nossa categoria.

Entrevista de Tais Wohlmuth Reis, Gerente Setorial de Patrocínios Culturais,  ao Jornal O Dia:

O Dia – O público em geral não imagina que pode participar e ter chance de passar um projeto em uma seleção na Petrobras. Como é que é isso?
Taís Wohlmuth – Na verdade, a Petrobras começou a utilizar a ferramenta de patrocínio, principalmente do patrocínio cultural, com uma consistência maior, a partir de 2003, quando foi criado o Programa Petrobras Cultural. Antes disso a gente tinha uma ação de programas que eram segmentados. Em 2003, houve uma fusão dos programas, para um melhor aproveitamento de verbas. A grande virada em 2003, quando o programa foi concebido o Programa Petrobras Cultural, é que ele deixa de trabalhar com setores da cultura e ele passa a trabalhar com linha de atuação. O programa, desde que foi lançado – já estamos na quinta edição –, teve um investimento grande de recursos. A Petrobras já selecionou, via seleção pública, cerca de 1.000 projetos.

O Dia – E efetivamente investiu em mil?
Taís Wohlmuth – Via seleção pública pelo PPC. E isso significa o quê? A Petrobras já tinha uma experiência pequena de seleção pública e, usando essa experiência, percebemos que algumas áreas são mais concentradoras que outras. Quando a gente fala de patrocinar o cinema, a gente sabe que 90% das inscrições serão do eixo Rio-São Paulo, onde estão concentradas as grandes produtoras. Então a idéia é a seguinte: trabalhando as linhas, o tipo de abordagem que a gente vai dar nos setores que vão ficar atrelados a cada uma delas, vai nos possibilitar receber projetos mais ou menos profissionalizados, do eixo Rio-São Paulo ou fora do eixo. Dependendo da área, a gente tem perfis diferentes de inscritos. Quem pode se candidatar? Pessoas físicas e jurídicas.

O Dia – Pessoa física também?
Taís Wohlmuth – Pessoa física pode em algumas áreas e pessoa jurídica tem que ter natureza cultural. O estatuto dela tem que indicar que ela tenha natureza cultural. Essa é a definição inclusive do Ministério da Cultura. Por quê? Como a Petrobras trabalha com uma parte dos recursos da Lei Rouanet, então a gente já da um recorte que é exigido pelo ministério.

O Dia – A Lei Rouanet é seletiva, né?
Taís Wohlmuth – A gente tem uma experiência de receber projetos do Brasil todo. O próprio Ministério tem feito um trabalho de caravanas para capacitação de produtores culturais em varias regiões do país, que tem o objetivo de mostrar aos produtores que a Lei Rouanet não é a única forma que ele tem de buscar um financiamento. Mas do nosso lado, em que a gente instituiu? As caravanas Petrobras Cultural funcionavam como? Depois da primeira edição do programa, a gente percebeu duas coisas. Na primeira, a gente ainda recebeu muito projeto do eixo Rio–São Paulo. Apesar de ter algumas áreas de seleção que eram desconcentradoras, foi uma distribuição regional mais interessante. Muitos projetos caíam na fase de triagem. Eu vou te explicar como funciona o programa. A primeira etapa é a de inscrição, hoje em dia totalmente feita pelo site. Em um segundo momento, a Petrobras recebe essa inscrição, e aí há uma triagem técnica, que é o seguinte: se aquela área de seleção pública para a qual a pessoa se candidatou é, por exemplo, gravação de CD e o anteprojeto dela é fazer um show, então o projeto não está no foco, então ele é descartado, é uma triagem técnica principalmente de foco e de adequação ao que o edital pede. Então, se o edital pede que tenha um orçamento e a pessoa não mandou o orçamento o projeto cai. Tem que contemplar aquilo que o edital pediu, se o edital pede que você coloque, digamos, que você se inscreveu para gravação de CD e o edital pede que coloque um trechinho de uma música sua ou que você indique um portfólio de quantos CDs você já gravou, e você não indica ou deixa em branco o projeto cai na triagem. Por quê? Só passa para a segunda fase, que é a fase de análise das comissões, aqueles projetos que estejam realmente dentro do foco e que cumpriram as exigências iniciais do edital. Então o que é que a gente sentiu? Na primeira seleção pública a gente sentiu que muitos projetos caíram nessa triagem. Isso significava o quê?  Que algumas pessoas tinham uma primeira dificuldade de compreender o foco, de compreender a natureza do projeto, a compreensão de algumas coisas. Então a gente montou a Caravana Petrobras Cultural.

O Dia – A partir de quando?
Taís Wohlmuth – A Caravana Petrobras Cultural começa a partir de 2006. E como funciona a Caravana? A gente fez palestras em todas as capitais brasileiras e em algumas cidades que não são capitais, como Nova Iguaçu. A gente levava uma palestra na qual explicávamos o Programa, explicávamos a forma da seleção pública, explicávamos quais projetos e que tipos de projetos se encaixavam em cada uma das áreas. Em seguida, a gente dava uma oficina de formatação de projetos, na qual se explicava minimamente as exigências do Ministério e os formulários do Programa Petrobras Cultural, que são iguais aos do Ministério. Para já facilitar, as pessoas entram no site da Petrobras, no momento que vai montar um orçamento, por exemplo, e o modelo que ela montou o orçamento para o Programa Petrobras Cultural é igual ao modelo que ela vai usar depois, quando enviar esse projeto para o Ministério, já para poupar o retrabalho. Então, a gente dava essas palestras para as pessoas já inscreverem o projeto a partir de uma compreensão melhor. E foi fantástico o resultado. A gente aumentou a extensão regional porque a gente tinha uma receptividade bacana da imprensa local. Assim, você chega a Recife e aí a nossa assessoria de imprensa divulgava que a Petrobras daria um cursinho explicando o Programa Petrobras Cultural, como a oficina de formatação de projetos. Lotava, a imprensa local cobria, dava um retorno bacana, foi muito bom. Então a Caravana foi uma prática que foi incluída nos processos das seleções publicas da Petrobras. É uma prática que, acima de tudo, a gente percebeu que democratiza não só o acesso as verbas e aos patrocínios, mas democratiza a informação, porque com seleção pública a gente está democratizando o acesso à verba, mas a informação também é uma coisa irrestrita.

O Dia – Posso dizer que as pessoas que quiserem já podem ir estudando para as próximas inscrições?
Taís Wohlmuth – Podem. É fundamental para quem queira se candidatar entrar no site da Petrobras, ler sobre as outras seleções públicas, olhar o perfil dos projetos que foram selecionados. É muito importante que tenha um aprendizado. No site da Petrobras há tem uma série de dúvidas, um monte de coisas que permitem que as pessoas já possam ter um aprendizado. Entrando no site na área de cultura, a pessoa vê os projetos que estão em andamento. Quando a seleção abrir, ela vê qual é o enquadramento do projeto dela, você vai lá e nota que um projeto tem várias faces. Às vezes você tem um ponto forte e você acha que seu projeto é de tal coisa, mas você lê no site que seu projeto se encaixa em outro perfil. Vou te dar um exemplo: uma vez eu fui dar uma palestra em Recife, e veio uma garota e falou assim para mim: “Meu projeto não tem enquadramento”. Eu disse: “E é sobre o quê?” Ela respondeu: “Eu queria fazer um encontro das parteiras tradicionais no interior de Pernambuco”. “Para quê?”, eu perguntei.  Ela falou: “Para registrar os saberes das práticas delas”. Então eu falei: “Seu projeto não é um encontro, seu projeto é o registro das pessoas dessa pratica, o encontro é a metodologia que você escolheu para fazer o registro, mas o seu objeto é o registro e você  pode se inscrever.” Ela se inscreveu, e esse projeto foi selecionado.

O Dia – Ela fez em forma de livro?
Taís Wohlmuth – Isso, depois saiu o livro sobre as práticas das parteiras tradicionais de Pernambuco. Se ela tivesse se inscrito como encontro, teria caído na triagem de cara. Então esse aprendizado é muito importante, e é isso que a gente tenta com as caravanas: que as pessoas tenham acesso, olhem para seu projeto de uma forma diferente, que olhem sob outro ângulo para conseguir entender. E isso é uma coisa que um produtor profissional já tem, mas uma pessoa que não é tão profissional assim na área, está no primeiro projeto ainda, precisa fazer esse exercício. E entrar em nosso site é um ótimo exercício. A gente teve essa receptividade na primeira caravana. As pessoas não acreditavam que os projetos eram selecionados assim. Pensavam: “Como eu não conheço ninguém lá dentro, não acredito que vou botar meu projeto na internet e vou ser selecionada.” Com o tempo, na quarta caravana as pessoas já acreditavam porque já conheciam alguém que tinha sido selecionado. Como te disse, foram 1.000 projetos no Brasil inteiro nos últimos anos. Então, sempre tinha alguém que sabia de alguém que inscreveu o projeto e foi selecionado. E selecionado por uma comissão que também é externa a Petrobras. O primeiro requisito para o projeto ser selecionado é o mérito qualitativo do projeto, e mesmo assim muitos projetos excelentes ficam de fora. A outra dica que eu dou: se seu projeto não foi selecionado nesse ano, inscreva de novo. Não significa que se não foi selecionado ele seja ruim, significa que em aquele ano havia outros que eram mais prioritários. Pode ser que no ano seguinte seu projeto seja considerado mais prioritário por aquela comissão, que é uma comissão diferente, são outras pessoas que vão analisar.

O Dia – Significa muito aquela coisa do projeto aprovado…
Taís Wohlmuth – A idéia é ampliar um pouco a estratégia, diminuir um pouco a coisa do balcão de patrocínio, você cria um processo.

O Dia – Assim como na área de Responsabilidade Social, se pode dizer que há uma democratização de educação?
Taís Wohlmuth – Certamente.

O Dia – Tem 2.500 projetos inscritos?
Taís – São 2.200 projetos.

Taís Wohlmuth – Desde?
Taís Wohlmuth – Desde 2001, mas a grande parte é de 2003. Desses mais de 2.000 projetos, metade é pela seleção publica e metade de convidados. E esse número de seleção publica é estupendo. Além de serem muitos projetos no Brasil todo. Tem gente que nem sabe o endereço da Petrobras aqui no Rio de Janeiro e consegue um patrocínio. Nenhuma empresa no mundo tem uma experiência igual, e isso é muito importante. Não há nenhuma empresa que trabalhe recurso de patrocínio de uma forma tão democrática quanto a Petrobras.

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