O pré-sal e a expansão internacional da Petrobras: entrevista do diretor Zelada a O Globo

18 de outubro de 2009 / 16:56 Entrevistas Enviar por e-mail Enviar por e-mail Imprimir

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Em matéria “Petrobras aposta em refinarias no exterior” da edição deste domingo (18/10) em O Globo, o  diretor da Área Internacional, Jorge Luiz Zelada, fala em entrevista sobre os investimentos da Petrobras no exterior, sob o  contexto nacional do pré-sal. Leia a seguir a transcrição completa da entrevista.

O Globo: Nós queremos falar um pouquinho sobre quais são os planos, como se posiciona a Área Internacional da Petrobras diante desse novo fator que é o pré-sal. Pra começar, eu queria que você falasse um pouquinho de como está a Área Internacional dentro dos planos da Petrobras, quanto que ela está recebendo de investimentos, quais são os principais focos. E se isso vem mudando nos últimos anos; se ela vem perdendo um pouquinho, não diria de importância, mas o percentual em relação aos investimentos totais.

Diretor Zelada: Eu tenho colocado que, até na própria revisão do planejamento estratégico da Petrobras, aquilo que estava planejado para a Área Internacional da Petrobras não arrefeceu. É mantido o mesmo plano que havia sido estabelecido, com algumas diferenças que a gente vai conversar aí ao longo dessa entrevista. Então, não diminuiu em termos de valores de investimentos. É óbvio que, se você for olhar em termos relativos, houve uma diminuição a partir do momento em que há uma perspectiva concreta de ter investimentos maiores em relação às descobertas que foram feitas. Isso é fato. Em relação aos investimentos que estamos fazendo na área de refino também. Mas, o planejamento da Área Internacional é o mesmo planejamento que já tinha sido colocado. Então, os compromissos que foram assumidos estão sendo cumpridos, os investimentos estão nos mesmos níveis. Se você for comparar o plano de investimentos 2008-2012 e o 2009-2013, que, vamos dizer, já foi uma revisão considerando o cenário do pré-sal, nas atividades internacionais os investimentos continuaram nos mesmos níveis. Houve uma similaridade de valores, por exemplo, do que foi realizado em 2008 e do que está entrando em 2013.

Leia também a matéria “Petrobras aposta em refinarias no exterior” , como publicado no Globo Online.

O Globo: Está em quanto?

Diretor Zelada: US$ 15,9 bilhões de dólares.

O Globo: Quando vocês fizeram o planejamento estratégico lá atrás, sabia-se de todas essas promessas em relação ao pré-sal, mas o formato não estava definido. Não se sabia nem que a Petrobras ia ser, eu imagino, a operadora de todos os blocos. Ou já se sabia isso na época, já se tinha uma ideia disso?

Diretor Zelada: Não, não se sabia. Do marco regulatório não se sabia, mas se tinha uma perspectiva de investimento.

O Globo: Pesado…

Diretor Zelada: … por conta daqueles blocos que a Petrobras já detinha alguma participação. Agora, ela ser a operadora de todos os postos, não significa que vai ser a principal investidora em todos os blocos. Ela pode ser a operadora, ficar lá com aquele mínimo de 30% e outras empresas entrarem dentro desse consórcio. Com essa nova configuração, em relação ao novo marco regulatório que ainda está em análise, ele vai ser reavaliado num próximo dimensionamento dos investimentos da Petrobras.

O Globo: Em termos nominais a Área Internacional não perdeu, ficou mais ou menos nessa faixa de 15 bi. Mas, e em termos relativos? Em relação ao investimento total da empresa, a Área Internacional perdeu ou tende a perder, já que a empresa vai direcionar muito investimento aqui para dentro?

Diretor Zelada: Eu não digo que seria perda. Se você for olhar em termos relativos, diminuiu o percentual? Diminuiu. Mas, porque está crescendo. Não é porque nós estamos diminuindo atividades internacionais, é porque está crescendo a necessidade de investimentos na área nacional. O que é razoável, por conta das descobertas. Então é isso, está tendo uma necessidade de um aporte maior dentro do nosso mercado interno. O que estava sendo proposto e projetado, para expansão internacional da Petrobras permanece. Você tem várias maneiras de olhar isso. Está perdendo? Não sei. Se você for olhar em termos relativos a participação é menor, mas não por uma diminuição de atividade.

O Globo: É que a base ficou maior.

Diretor Zelada: Exatamente.

O Globo: O senhor falou: “É claro que nós continuamos investindo, com alguns ajustes”. Que ajustes são esses? O fato de ter esse novo cenário de pré-sal pode fazer com que vocês direcionem algumas estratégias lá fora? Por exemplo, invistam ou tenham interesse maior em áreas onde há perspectiva de exploração no pré-sal também. Ou, talvez, priorizem algum tipo de hidrocarboneto, o gás, por exemplo.

Diretor Zelada: Existe sim um ajuste a ser feito, que a cada revisão do plano estratégico vai sendo reestudado. Então, com o advento do pré-sal, se a gente já enxergar, num determinado momento no futuro, um excesso de produção ou, com os investimentos de refino que estão sendo feitos no Brasil, um excesso de produtos derivados, o Brasil passa a ser um exportador desses produtos. Então, a atividade internacional da Petrobras se ajusta a esse movimento. Esse momento de tempo e volumes está sendo permanentemente estudado. Se eu tiver num momento futuro um certo excedente de produtos, eu vou ter que buscar uma colocação no mercado para esses produtos. Então, a Área Internacional vai buscar se adequar a um momento em que a Petrobras vai ser exportadora de produtos, exportadora de óleo. Isso sim, isso traz uma reavaliação da estratégia internacional da Petrobras, o que é exatamente o âmago da sua pergunta. Tem esse ajuste sim e eu acho que é natural que a Petrobras vá modificando. A Petrobras era, vamos dizer, num passado recente uma empresa com uma atividade predominantemente de exploração e produção no exterior, ela já passa nesse futuro próximo a ser também uma empresa com uma determinada atuação na área de downstream. Na colocação de produtos, eventualmente intensificando o seu refino no exterior, onde já temos alguma posição; trabalhando mais a questão de distribuição para poder colocar os produtos. Enfim, é natural esse movimento. Números exatos de posição e de metas vão aparecer nas próximas revisões do planejamento estratégico. Mas é um movimento que nós podemos enxergar sim. Esse movimento de passar de uma atividade predominantemente de exploração e produção, para outros segmentos na cadeia da indústria do petróleo. O que, aliás, eu acho que torna a Petrobras cada vez mais uma empresa com presença internacional. Então você vê, com toda essa questão do pré-sal e essa necessidade de investimento, isso faz com que a Petrobras tenha um movimento de internacionalização em outros segmentos que não tinha até então.

O Globo: Na prática como que isso acontece? Via aquisição de refinarias?

Diretor Zelada: Para atuar no mercado internacional de refino hoje, não necessariamente você precisa adquirir refinarias. Existem diversas formas em que você pode colocar um excedente seu de petróleo para refinar e agregar valor ao seu produto. Mas, a motivação principal da Petrobras é fazer o investimento em capacidade de refino no Brasil. Há um esforço gigantesco nesse sentido. Agora, de acordo com os dados adquiridos em relação às reservas e à capacidade de produção do pré-sal, se tivermos um excedente de petróleo, mesmo com toda essa capacidade de refino – que vai sendo colocada no mercado ao longo do tempo, não é uma coisa escalonada -, nós podemos buscar também agregar valor a esse petróleo com aquisição de capacidade de refino no exterior.

O Globo: E já tem alguma coisa…?

Diretor Zelada: Não, não tem. Essa coisa é dinâmica. Esses dados estão aparecendo todo dia, estamos adquirimos ainda novos dados do reservatório, as curvas projetadas de produção estão permanentemente sendo ajustadas. Nós temos a expectativa que apesar de toda a capacidade de investimento no Brasil em refino, ainda haja um excesso de produção de petróleo. Então, vai ser estudada a melhor maneira.

O Globo: Hoje, do investimento total previsto, de 15,9 bilhões, 79% estão direcionados para E&P e distribuição fica com um percentual de 5%. Como o senhor vê isso daqui a algum tempo?

Diretor Zelada: Eu acho que, fatalmente, vamos ter uma maior participação nos segmentos de refino e de distribuição e o próprio de gás, no lugar de exploração e produção. Acho que isso vai ser um movimento natural que vai ocorrer. Hoje é menos 10% da Petrobras, mas é investimento grandioso, se você for olhar em valor absoluto. Você não faz uma correção brusca da noite para o dia, mas eu posso te dizer que vai haver um movimento de diminuição da exploração e produção, até porque as potencialidades aqui dentro do Brasil aumentaram bastante e tendo mais a parte de refino, gás e distribuição.

O Globo: E dentro desse novo cenário, onde pode aumentar a presença da Petrobras? Por exemplo, quando se pensa em distribuição, qual o mercado que vocês olham principalmente? Seriam os Estados Unidos?

Diretor Zelada: Eu acho que em termos de distribuição, olhando as especificações das refinarias que estão sendo implantadas no Brasil, que são refinarias para gasolina e diesel dentro dos padrões de mercados premium, como Estados Unidos e Europa, é um objetivo natural buscar colocação de produtos nesses mercados. Acho que a Ásia já é mais distante, existe a questão da logística. Mas, enfim, com o excedente de produção de derivados a Petrobras, o Brasil, vai ter que olhar esse mercado. Gasolina nos Estados Unidos é um mercado natural, diesel na Europa é um mercado natural, mas outros lugares também vão ser estudados.

O Globo: Vocês já estão presentes hoje com gasolina nos Estados Unidos? Vocês têm uma refinaria no Texas, não é?

Diretor Zelada: Na refinaria no Texas os produtos são colocados no mercado local. Mas, nós não temos ainda atividade de distribuição nos Estados Unidos.

O Globo: E como é que ela se daria? Com uma rede de postos de gasolina?

Diretor Zelada: Há mais de uma maneira de você olhar um mercado de distribuição. A que vem primeiramente a mente é ter rede de postos. Mas, você pode trabalhar também trabalha no mercado de distribuição de forma atacadista. Então, a partir de uma melhoria do seu produto e de um aumento de capacidade de produção, que é o que nós estamos estudando nas nossas instalações nos Estados Unidos. Esse estudo ainda não está pronto.

O Globo: Seria para vender para as bandeiras, para as redes de postos lá?

Diretor Zelada: É uma maneira de trabalhar, de forma atacadista.

O Globo: Vocês descartam totalmente ter uma rede de postos média lá?

Diretor Zelada: Não descartamos nada. Tudo está se apresentando agora, diversos dados estão se apresentando agora. O que eu quero te dizer? Curvas de produção, nós estamos sempre olhando e atualizando isso; a própria produção de derivados, com os investimentos na nova refinaria; o atendimento ao mercado interno brasileiro, que é o principal; e em termos de excedentes desses diversos produtos, onde seria estrategicamente melhor trabalhar. Então, eu não tenho uma resposta definitiva para você. O que eu posso te dizer é que estamos olhando para o mercado exterior. Essa estratégia internacional da Petrobras tem esse movimento de ir tendo mais presença nesses outros segmentos além de exploração e produção? Sim. O quanto isso tudo vai ser calibrado ao longo do tempo, é um estudo permanente que nós fazemos. No próximo planejamento estratégico da Petrobras para 2010-2014, isso já vai estar refletido com certeza.

O Globo: Na Europa vocês têm alguma atividade de refino?

Diretor Zelada: Não.

O Globo: E distribuição, também não?

Diretor Zelada: Nem distribuição. Agora se você perguntar se estamos estudando, estamos.

O Globo: E já têm conversas com empresar locais?

Diretor Zelada: Estamos estudando. Isso não é um processo, um estudo assim rápido. Você verifica, conversa com diversas empresas, vê que tipo de associações você pode fazer, interesses bi-laterais.

O Globo: Vocês poderiam, por exemplo, fazer assim algum tipo de associação com a Galp, que já é parceira?

Diretor Zelada: A Galp já é uma parceira nossa aqui, também tem projetos conosco na área de bicombustível. Já é uma empresa com que tem alguns negócios com a Petrobras e sim, ela poderia fazer parte desse processo também.

O Globo: Mas, vocês já conversam sobre isso?

Diretor Zelada: Nós conversamos sobre os negócios que temos. Sobre os negócios futuros, eu não posso falar.

O Globo: Como o senhor vê a atuação da Petrobras internacional na área de gás?

Diretor Zelada: Na área de gás, o Brasil vem experimentando ao longo do tempo uma participação crescente do gás natural na matriz energética. Então, o gás é interessante porque tem um dinamismo talvez mais forte do que os outros insumos. No sentido de que é previsto a produção de gás do Brasil aumentar bastante nos próximos anos, mas o consumo também. Então, a necessidade de importação de gás – o principal supridor de gás quem vem da Bolívia – permanece. Mas, conforme for esse dinamismo consumo x aumento de produção, o Brasil pode de repente precisar de mais gás ou nós podemos imaginar que algum momento futuro, ou em alguns momentos do ano, sejamos exportadores de gás. Então, o GNL pode ser um produto estratégico para isso, dentro da comercialização de gás do Brasil. Nós já temos dois terminais de GNL no Brasil. Internacionalmente, a Petrobras participando de projetos de gás no exterior, traz essa complementaridade para o suprimento do mercado interno. Ou, ainda, imaginando um futuro de capacidade de exportação, ela poder também colocar o produto conhecido no Brasil no exterior. O mercado de gás é bastante interessante, no sentido de desenhar estratégias na atuação internacional da Petrobras.

O Globo: Como que vocês estão vendo a questão do consumo? Porque em algum momento, por causa da crise e o arrefecimento da atividade das indústrias, as importações da Bolívia chegaram a recuar bastante. A última notícia que eu vi é que elas já estão se recuperando e estão em 23 milhões m³.

Diretor Zelada: Números exatos, obviamente, não fazem parte do meu dia-a-dia. Eu não sei te dizer. O que posso dizer é que o consumo do Brasil está dentro das faixas que estão previstas em contrato com a Bolívia.

O Globo: Já existem setores que estão preocupados com uma recuperação muito rápida da economia para o próximo ano. E, dentro desse contexto, já tivemos momentos em que o limite de importação da Bolívia esteve alto. Vocês acham que pode voltar muito rapidamente a demanda? Em breve vocês terão de acelerar mais esses projetos de GNL?

Diretor Zelada: É uma questão efetivamente de mercado, parece que é “chover no molhado”, mas não é. O gás tem, por exemplo, a questão do mercado industrial, que tem a ver com o crescimento da economia. Mas, existe um outro fator que a Petrobras não tem controle, que a parte termoelétrica, que depende do sistema elétrico brasileiro, do operador nacional do sistema despachar termoelétricas a gás ou não. Isso tem uma representatividade grande em termos do que a Petrobras fornece de gás para o mercado interno e, em conseqüência, do que importa mais ou menos da Bolívia. O que observamos na média, é que essa flutuação que está dentro dos parâmetros previstos no contrato do Brasil com a Bolívia. Esse nesse movimento futuro, em que estamos vendo que a matriz energética do país terá uma maior participação de gás, que a produção interna doméstica do Brasil irá aumentar, mas o consumo também aumentará, a questão da GNL entra para compor o suprimento dessa fonte energética.

O Globo: As unidades já estão prontas? Estão produzindo no momento?

Diretor Zelada: Nós temos duas unidades prontas. Elas têm capacidade para recebimento de GNL. Temos um terminal no Rio de Janeiro, e outro, no Ceará.

O Globo: Mas, por enquanto como não estão precisando, elas ficam desativadas?

Diretor Zelada: Não, ela já recebeu carga de GNL do exterior.

O Globo: Hoje, o gás que nós usamos é basicamente Bolívia. Da onde mais a Petrobras consegue extrair?

Diretor Zelada: Dos seus campos de petróleo. Não tenho números exatos, mas volume da mesma ordem de grandeza que é importado da Bolívia, produzimos no Brasil.

O Globo: Não há outro país que ele importe gás, a não ser a Bolívia?

Diretor Zelada: É por isso que entra o GNL nesse ponto, pois ele traz essa flexibilidade. Não vou aqui descorrer sobre o mercado de gás do Brasil mais do que essas informações que estou te dando. Mas, a presença da Petrobras no exterior em projetos de gás, reservas de gás associadas a projetos GNL, traz uma complementaridade interessante para o suprimento do mercado interno.

O Globo: Como que está a relação da Bolívia atualmente quanto às questões tarifárias?

Diretor Zelada: Depois da modificação do marco regulatório da Bolívia, a Petrobras se adequou e está trabalhando sem problemas.

O Globo: O presidente Gabrielli disse recentemente que dificilmente seremos autossuficientes em GLP, que o movimento natural é fazermos a substituição pelo gás natural. E o Sr. disse que o gás natural de outros países, via GNL, pode ser uma alternativa, caso a gente venha a precisar de mais gás, além do que está previsto nos contratos com a Bolívia. Já existe alguma estimativamente de que isso será necessário até um determinado prazo?

Diretor Zelada: Estimativa não tenho. Nós sempre temos de estar acompanhando. Esse é um trabalho cotidiano, de acompanhar projeções de produção interna, de consumo interno – e tem uma parcela que não dominamos, que é a questão da área elétrica – com uma contingência, a fim de ter a equação, que está sempre em movimento, fechada. Aí que entra o GNL. O que o Gabrielli falou foi de GLP, isso é outra coisa. O GNL entra para fazer a complementaridade com esse mercado, que tem a produção do Brasil de gás, a importação da Bolívia de gás e o consumo interno.

O Globo: Qual a estimativa de consumo de gás natural para o Brasil?

Diretor Zelada: Estimativa eu não tenho. Você está entrando muito na área de gás, que não é a minha. O Brasil hoje consome 60, produz 30, e importa 30. Metade nós importamos, metade produzimos aqui.

O Globo: O pré-sal também provocará algum tipo de ajuste dentro das atividades de E&P lá fora?

Diretor Zelada: Sim. Até hoje, o foco de E&P no exterior sempre foi dentro de uma tecnologia que a Petrobras vinha desenvolvendo no mercado interno. Por exemplo, águas profundas. A Petrobras sempre teve uma capacitação, uma liderança em atividades em águas profundas. Então, aquilo que vinha se desenvolvendo no Brasil, nós procurávamos buscar o mesmo tipo de atividade no exterior. A partir do momento em que descobrimos no Brasil uma província tão grande e promissora como o pré-sal, que vai precisar de tanto recurso em termos de capital, equipamento humano, nessa área de águas profundas, no exterior, a não ser as atividades com as que já estamos comprometidos e cumprindo contratos, talvez o mais interessante seja buscar operações de exploração e produção complementares a essa do Brasil, e nós focarmos os nossos recursos e competências para as atividades no Brasil. É importante dizer que, quando se faz uma estratégia de produção e exploração, estamos pensando de maneira global, não estamos colocando a exploração e produção do Brasil contra a produção internacional. Nós estamos vendo de uma forma global. Então, a atividade internacional pode ser mais complementar às atividades no Brasil. Por exemplo, o que a Petrobras vem adquirindo em termos de conhecimento e capacitação tecnológica para operação do pré-sal aqui no Brasil, pode, especificamente nesse ponto, ser aplicado lá fora. Vê-se que essas coisas têm uma lógica, um encadeamento estratégico.

O Globo: E aonde tem potencial para pré-sal no exterior?

Diretor Zelada: Nós não temos informação. Já não temos muitas informações detalhadas no Brasil, é uma coisa que ainda está sendo adquirida; no exterior menos ainda. Mas, existe na Costa Oeste da África uma certa similaridade em termos de bacias sedimentares com o Brasil. É uma possibilidade. Mas, tem muito conhecimento para se adquirir ainda sobre isso.

O Globo: Vocês estão na Nigéria?

Diretor Zelada: Temos operação na Nigéria, Angola e Namíbia, na Costa Leste. No Senegal, temos uma atividade inicial de exploração.

O Globo: O mais promissor é a Nigéria?

Diretor Zelada: Na Nigéria nós temos uma atividade de produção já acontecendo, já estamos produzindo lá.

O Globo: Quanto aproximadamente?

Diretor Zelada: Em torno de 50 mil barris. Em Angola, nós temos uma atividade exploratória. Vamos iniciar uma campanha de perfuração em Angola que pode nos dar algum resultado. Como a Nigéria já está produzindo, o promissor seria a Angola. Lá a gente pode ter alguma novidade.

O Globo: Na Nigéria vocês têm dois campos?

Diretor Zelada: Temos dois campos principais, Akpo e Agbami. E temos uma atividade exploratória em um campo em que a Petrobras é operadora, mas não me recordo o nome do bloco.

O Globo: O Senhor falou que está começando uma campanha de atividade exploratória agora na Nigéria ou em Angola?

Diretor Zelada: Angola.

O Globo: Fale um pouco do que vocês têm em Angola.

Diretor Zelada: Na Angola, nós temos atividade exploratória em alguns blocos como operador, com consórcios locais. Passamos uma fase de aquisição de dados sísmicos e trabalhos de interpretação. E isso vem acontecendo, pois uma atividade exploratória leva em média de 5 a 8 anos.

O Globo: Quantos blocos vocês têm lá?

Diretor Zelada: Somos operadores em três blocos.

O Globo: E não produzem ainda?

Diretor Zelada: Temos uma produção muito pequena de coisas antigas. Essa parte nova ainda não tem. Então, passamos esse primeiro período dessa fase exploratória adquirindo dados. Atualmente, nós estamos entrando na fase de perfuração. Ainda nesse ano, estamos iniciando a perfuração e está prevista, ainda, uma perfuração de nove poços. A partir do resultado dessas perfurações, vamos ver o resultado e definir as próximas fases.

O Globo: E nos estudos desses dados sísmicos já dá para imaginar que possa ter petróleo no pré-sal?

Diretor Zelada: Não. Quando se faz um estudo sísmico, identificam-se as regiões em que podem haver ocorrência de acumulação de óleo. Para se ter a confirmação de óleo, tem-se de perfurar, e é nessa fase que vamos entrar agora.

O Globo: Qual o investimento?

Diretor Zelada: 5% dos 15,9 bi estimados para este período entre 2009 e 2013.

O Globo: É possível vocês usarem algumas dessas parcerias que vocês têm lá fora para explorar no pré-sal aqui no Brasil também? Por exemplo, trazer a estatal de Angola para os leilões futuros em consórcio?

Diretor Zelada: Primeiro, tem de ser obedecer ao marco regulatório. O que tinha até agora era o marco de concessão. Nestes leilões, a Petrobras entrou com determinadas empresas. No novo marco regulatório, que ainda precisa ter aprovação no Congresso Nacional, vai ter um novo regime de partilha da produção, em que a Petrobras tem a participação mínima de 30%. Então, é esse o marco que será obedecido. Não tem esse negócio de ter uma parceria no exterior e aproveitar a parceria para o Brasil.

O Globo: Digo assim, vocês já entram aqui com até 30% em algumas áreas, e aí, porque vocês já conversam com as empresas do exterior, pode ser que elas se interessem em entrar aqui nesses leilões. Não sei se isso tem algum ganho de uso de equipamento…

Diretor Zelada: O que pode acontecer é o que acontece no mercado da indústria de petróleo em todo o mundo. A partir do momento que se adquiriu uma participação, se você quiser trocar interesse com uma outra participação em outro local, você pode negociar isso. Isso é algo corrente na indústria de petróleo.

O Globo: E como que está a exportação de etanol?

Diretor Zelada: Eu não tenho informação sobre isso. Sou de outra área. A Petrobras já montou a sua subsidiária de biocombustível.

O Globo: Os EUA atualmente têm a maior parte dos investimentos no exterior, ficando com 28%. Com esse redesenho dentro da área de E&P e essa atenção maior a outros segmentos, é possível que mude um pouco esse cenário? Pode ser que vocês passem a direcionar mais para a África?

Diretor Zelada: Se você verificar no planejamento, a maior parte dos recursos são para a América do Sul – obviamente, a Petrobras tem uma presença importante lá –, no Golfo do México e Oeste da África. O Golfo do México tem um portfólio de projetos de exploração bastante interessante. Então, existem compromissos, tanto consórcios nos diversos blocos, quanto com as entidades. É um compromisso que a Petrobras já se colocou para fazer no portfólio de projetos no Golfo do México.

O Globo: Em futuras licitações, pode ser que vocês entrem com um pouco menos de apetite?

Diretor Zelada: O que nós estamos fazendo basicamente nos EUA é o que chamamos de Gestão de Portfólio. Estamos dando tratamento em termos de melhorar a qualidade, do nosso ponto de vista geológico, de portfólio de projetos da Petrobras nos EUA. Mantendo nossas atividades também dentro dos estudos das nossas equipes de exploração.

O Globo: Está ótimo. Obrigada.

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