Uma ópera animada e diferente

19 de setembro de 2010 / 12:26 Reportagens Enviar por e-mail Enviar por e-mail Imprimir

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Um desenho animado entregando as partituras a um músico de carne e osso. Não é o que normalmente se espera encontrar em uma récita de ópera. Mas é com recursos inusitados como este que a Companhia Brasileira de Ópera leva O Barbeiro de Sevilha, de Gioachino Rossini, a 15 cidades brasileiras, em sua turnê de estreia. A equipe do blog Fatos e Dados foi até o Teatro Castro Alves, em Salvador, onde o espetáculo está em cartaz até este domingo (19/9), para conhecer a proposta inovadora da produção – que conta com patrocínio da Petrobras – e da companhia itinerante criada pelo maestro John Neschling e pelo produtor José Roberto Walker.

Ao entrar no teatro já encontramos os sinais dos bastidores da ópera, que reúne cerca de 70 pessoas a cada récita: músicos ensaiando por todos os cantos. O flautista não se incomoda e treina no corredor mesmo, próximo ao elevador que desce para o palco. Numa sala de espelhos, dois violinistas também se preparam. Enquanto um escolhe os reflexos , o outro prefere a cadeira encostada na parede, mais afastada dos espelhos. Numa outra sala, a musicista toca, concentrada, as cordas de seu violoncelo.

Na área dos camarins, a preparação para o espetáculo já está em outra fase. Os cantores iniciam a maquiagem . Enquanto aguardam a vez com a maquiadora, alguns já vão adiantando detalhes mais simples. Sendo uma ópera cômica, a caracterização dos personagens é mais caricata e requer, por exemplo, a aplicação de sobrancelhas e costeletas postiças, que precisam da mãozinha da especialista.

A camareira Catarina Rosa nos mostra as perucas e o figurino das personagens femininas. Todas as vestimentas são usadas por cima de enchimentos, que deixam os cantores “gordinhos”. A produção nos explica que o recurso é utilizado porque todos os personagens da ópera são inspirados na imagem do compositor Rossini, como se ele estrelasse todos os papéis. Mas isso conferimos mais tarde, durante a apresentação.

Enquanto a mezzo soprano Luisa Francesconi, que interpreta Rosina, está na sala de maquiagem, a camareira aproveita para fazer um reparo de última hora no enchimento usado por baixo da roupa da personagem. Do lado de fora dos camarins, atores que entram mais tarde em cena aproveitam para atualizar a conversa. O clima é de descontração entre a equipe toda.

Na área atrás do palco, uma mesa com jarras d’água fica disposta para que os cantores possam beber ao longo da apresentação. Objetos utilizados em cena também ficam acessíveis em uma mesa próxima.

Depois da maquiagem, alguns cantores conversam com uma equipe de TV local. Tudo tem que ser rápido, já que o horário da récita está próximo. Logo em seguida, a camareira ajuda os cantores a vestirem seus figurinos.

O Espetáculo – “Fígaro, Fígaro, Fígaro!”

Na trama de O Barbeiro de Sevilha, uma das comédias mais populares da história da ópera, o Conde de Almaviva se apaixona por Rosina, jovem que vive enclausurada por seu tutor, o Doutor Bartolo, que pretende ele mesmo casar-se com a pupila. O Conde convence o barbeiro Fígaro, requisitado para todo tipo de serviço na cidade, a ajudá-lo a conquistar a moça. Ardiloso e criativo, Fígaro elabora um plano para ajudar o Conde.

No palco, o cenário dá lugar a um telão típico de cinema, onde uma animação 2D de duas horas e meia é exibida. Os cantores reais interagem com os personagens e cenários desenhados pelo cartunista ítalo-americano Joshua Held. Além de facilitar a logística de transporte do espetáculo, o efeito encanta a platéia, que se diverte com as piadas cênicas.

– Queríamos, realmente, algo diferente, popular, que tivesse apelo de público – conta José Roberto Walker, diretor executivo da Companhia – Convidamos o desenhista italiano e já nos primeiros desenhos apresentados por ele, gostamos.

Logo no início, a platéia já sente o clima: o maestro toma seu lugar para reger a orquestra, mas os músicos avisam que “não há partituras”. Um dos músicos, então, sobe ao palco para pegar das mãos do compositor Rossini , em versão de desenho animado, algumas folhas soltas contendo a partitura. Na montagem da Companhia, é o próprio autor da ópera quem interpreta todos os personagens no desenho, conforme nos foi adiantado pela produtora.

A montagem ainda brinca com o público através de referências populares atuais, sobretudo de cinema: as citações incluem até uma inesperada alusão ao filme Titanic .

A novidade vem atraindo uma audiência diferenciada da habitual platéia de ópera. De acordo com a produção, o maior público do espetáculo tem sido de jovens, leigos e de pessoas que nunca assistiram a uma ópera. Até o fim de agosto, mais de 35 mil pessoas já tinham conferido a apresentação.

A Companhia

Projeto inédito na história da arte lírica no Brasil, a Companhia Brasileira de Ópera foi concebida em 2009 pelo maestro John Neschling e pelo produtor José Roberto Walker.

A iniciativa, já considerada o maior projeto de música erudita do país, tem o objetivo de reavivar a cena operística nacional, divulgando o gênero musical em todo o Brasil. Além disso, se propõe a manter um quadro estável de cantores, maestros e técnicos para compor a primeira formação lírica permanente em atividade no país, criando um mercado fixo de trabalho para artistas e técnicos.

– O Brasil tem uma grande tradição em ópera e um grupo enorme de artistas e cantores que não encontram as condições de exercer seu trabalho de maneira adequada. Nossa ideia foi criar uma companhia bem estruturada, qua atinja grandes públicos e, também, que ofereça aos profissionais uma possibilidade digna de sobreviverem com sua arte – diz Neschling no programa do espetáculo.

A passagem da Companhia pela capital da Bahia termina neste domingo, mas a turnê segue para Recife na próxima semana (22 a 27 de setembro), onde serão realizadas também três apresentações infantis. Na versão para crianças, com duração de 50 minutos, o personagem do barbeiro Fígaro narra para os pequenos um pouco da história da ópera. Para estas sessões com perfil didático, os ingressos são cobrados a preços simbólicos. A agenda de apresentações, que vai até novembro, finaliza nas cidades de Santos, São Paulo, Ribeirão Preto e Rio de Janeiro.

Assista a trechos da apresentação na página da Cia. no YouTube e acompanhe no blog Semibreves do maestro John Neschling as impressões sobre a temporada e o diário de bordo da Companhia.

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