Uma constelação clássica na Bahia

27 de setembro de 2010 / 15:22 Reportagens Enviar por e-mail Enviar por e-mail Imprimir

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A melodia de “Jesus, alegria dos homens”, clássico de Johann Sebastian Bach, ecoa pela rua Professor Telles, no bairro de Amaralina, em Salvador. O som chama a atenção de quem passa e nem imagina que ali mais de uma centena de crianças e adolescentes de baixa renda aprendem gratuitamente música clássica. Foi assim que Emily Pereira (12 anos) descobriu e se encantou com o projeto Estrelas Musicais, do qual faz parte há dois anos. A equipe do blog Fatos e Dados foi até lá conhecer o projeto e as pessoas envolvidas na iniciativa, que é patrocinada pela Petrobras.

Encontramos Emily, numa sala, treinando em sua viola. Acompanhada da colega Lidiane Conceição (12 anos), participante há dois meses, ela explica a diferença entre o instrumento que toca e o violino. “O som é diferente: o mi deles é a corda lá e o da viola é a corda ré. A viola tem cordas mais finas e o violino tem menor tamanho”, resume. Como ela era mais alta que muitos dos alunos, foi encaminhada para a viola. “Os menores não conseguem pegar com os quatro dedos na viola”, ensina, mostrando com a mão.

O som que invade a rua e levou Emily a participar do Estrelas é o da orquestra clássica de cordas, ou orquestrinha, como chamam os íntimos. De segunda a quinta-feira, os músicos mirins ensaiam ali para as apresentações que realizam na cidade. As crianças, que têm entre 7 e 17 anos são das comunidades do Nordeste de Amaralina, Santa Cruz e Vale das Pedrinhas, bairros pobres de Salvador.

Criado pelo músico Luis Ibarra e sua mulher, a administradora Aline Ibarra, o projeto tem o objetivo de promover a educação integral de crianças e adolescentes em risco social, a partir da música. Além das aulas de teoria e prática musical, os alunos também participam de um programa de reeducação pessoal, familiar e social.

A iniciativa há quatro anos conquista admiradores. No início, as crianças eram convidadas, principalmente em igrejas e escolas das comunidades próximas. Com o passar do tempo e de notas/melodias musicais, a demanda se tornou espontânea. Mas para fazer parte do projeto é necessário estar matriculado e frequentando regularmente escola da rede pública de ensino.

“Os instrumentos ensinados são os de um quarteto de cordas clássico. Além do violino, viola, violoncelo e contrabaixo. Os meninos são distribuídos de acordo com a idade: os mais novos vão, geralmente, para o violino, instrumento cujo tempo de aprendizado é mais longo”, explica Aline, que também é psicóloga. Para ela, a atividade canaliza a energia das crianças.

Pela prática do Método Suzuki, aplicado nas aulas, já no segundo livro da metodologia, os alunos estão aptos a ler partituras de peças eruditas de Bach, Ravel, Vila Lobos, entre outros.

Como forma de estimular, os menos experientes também podem participar das apresentações públicas, sendo distribuídos em três níveis. A Orquestra 5 Estrelas reúne os alunos avançados; a 4 Estrelas, os intermediários; e a 3 Estrelas, os alunos de nível básico. Mas apresentações mistas também são comuns para incentivar os pequenos.

“Os compositores se inspiravam em música popular para fazer erudita. São melodias folclóricas, fáceis de tocar, mas que hoje são clássicas, apesar de bem simples”, explica Luís Ibarra, que é o professor de prática de orquestra. Durante nossa visita, uma das composições ensaiadas pelos meninos foi o tema da Nona Sinfonia de Beethoven.

Animados com a iniciativa, muitos pais de alunos acabam trabalhando como voluntários. É ocaso do Sr. Roque Ribeiro de Jesus, pai de Ludmila (8 anos), que contribui com sucos e biscoitos para o lanche da garotada. Prestador de serviços gerais, ele assistiu, por acaso, a uma apresentação da orquestra com várias crianças pequenas. Admirado, ele pesquisou onde o grupo se apresentaria novamente e levou a filha para conferir. A menina adorou e pediu ao pai para participar. Ludmila é uma das mais compenetradas na aula de violino, instrumento que aprende há três meses. “É meu instrumento preferido, porque o som é muito bonito. Até agora já aprendi nove músicas”, empolga-se.

Dona Valdeci Rosa, mãe de Marcos Vinícius (13 anos), que está na orquestrinha há dois anos, acompanha o filho aos ensaios e também aproveita para dar uma forcinha. Ela faz “de tudo um pouco”: prepara o lanche, toma conta das crianças menores, arruma bancos para as meninas que chegam para a aula, entre outras atividades. “Se as aulas fossem em outro lugar eu não teria condições de pagar. Então, o que posso fazer é colaborar”, justifica.

Outro requisito para que o ingressante permaneça no projeto é a participação regular dos pais em programa de reeducação familiar desenvolvido pelo projeto. Pós-graduado em terapia familiar, o Pastor José Mário Jesus Santos é quem atender as demandas trazidas pelos pais e filhos. Para ele, a música ajuda a romper o determinismo social do ambiente em que os integrantes do projeto vivem.

“A música entra como ferramenta que ajuda a acessar potenciais, abrindo novos horizontes. Se você pode tocar um instrumento clássico, você pode qualquer coisa, desde que seja bem treinado. Também é uma questão de autoestima. Esses meninos são tratados com aplausos, não aparecem na mídia envergonhados. Aparecem com orgulho pelo que produzem. O som que eles ouvem não é o do carro da polícia é o do violino”, conclui.

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