Cartas do presidente da Petrobras ao blog de Miriam Leitão

15 de outubro de 2010 / 14:56 Esclarecimentos Enviar por e-mail Enviar por e-mail Imprimir

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Veja a nova carta enviada pelo presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli de Azevedo, à Miriam Leitão.  Leia o post Gabrielli em carta que me mandou: “Afirmo e reafirmo”, publicado nesta sexta-feira (15/10) no blog da colunista.

“Prezada Miriam,

Da Terra e não da Lua vão alguns comentários meus sobre sua coluna publicada hoje (15/10) no Globo para fins de esclarecimentos. Tentarei me ater exclusivamente as suas opiniões substantivas sobre a Petrobras, deixando os adjetivos de lado:

‘A Petrobras perdeu quase $100 bilhões de valor’. É verdade, como resultado de vários fatores como a crise internacional que desvalorizou muitos ativos, o desastre do Golfo do México, que afetou especialmente as empresas de petróleo, a demora da conclusão da capitalização devido à complexidade do processo eleitoral, e necessidade de manter a operação estritamente de acordo com as regras legais pertinentes. Dificilmente pode-se atribuir essa queda especialmente à atuação da direção da Companhia. Ao contrário, o sucesso da capitalização, além da participação do Governo e entidades relacionadas com uma demanda privada muito superior a oferta disponível de ações, mostra que o mercado acredita nas perspectivas futuras da empresa. Você, mesmo a contragosto, concorda que ‘ao ser capitalizada, principalmente com recursos da União, ela melhorou um pouco o desempenho’.

‘Está sendo mal avaliada em relatórios de bancos’. Você sabe que os relatórios dos analistas apontam para preços-alvo das ações nos próximos 12 meses e perspectivas de ganhos em relação à media do mercado. Eles não estã ‘julgando’ a gestão da Companhia, estão avaliando as possibilidades dos ativos geridos permitirem retornos adequados no horizonte de tempo que são relevantes para eles. Dois tipos de análises foram publicados. A maioria absoluta dos analistas ajustou tecnicamente o preço-alvo das ações, levando em consideração que o número de ações colocadas no mercado é muito maior depois da capitalização e portanto os preços unitários precisariam necessariamente ser reajustados. Uma minoria de acionistas alterou a recomendação sobre as ações de sugestões de compra porque elas poderiam ter um comportamento melhor do que o conjunto do mercado, para uma posição ajustada ao comportamento médio do mercado. O problema não é de mal ou bem. É uma avaliação relativa ao conjunto de ações disponíveis no mercado.

‘É a única ação que perde do Bovespa em um ano’. Difícil superar o índice do mercado brasileiro com as circunstâncias específicas mencionadas no primeiro tópico, especialmente o longo processo de capitalização, que manteve uma âncora sobre o preço das ações da companhia na maior parte do tempo considerado. O comportamento desses preços posteriormente à finalização da operação é bastante positivo considerando-se o tamanho da operação e a intensa volatilidade esperada em transações desse tipo nos dias posteriores à sua conclusão. As ações da Petrobras tiveram uma convergência para a estabilidade mais rápido do que o esperado, à exceção dos dias 6 e 7 da semana anterior quando as mudanças da tributação (IOF) sobre as aplicações de renda fixa dos estrangeiros provocou intensas movimentações de carteira, saindo das aplicações de renda variável, como as ações da Petrobras para outras aplicações, evitando a necessidade do pagamento dos 2% adicionais de impostos sobre movimentações financeiras. A intensa venda das ações baixou os seus preços, no meio de uma onda de boatos criminosamente espalhados sobre as revistas do final de semana e denúncias falsas contra a Petrobras.

‘Tem suas reservas em águas profundas, área em que no mundo inteiro estão sendo reavaliadas as normas de segurança’. É verdade que a Petrobras é a maior operadora de águas profundas do mundo. Operamos 20% da produção em campos com mais de 300 metros de lâmina de água (a segunda empresa opera 13%) e temos 45 unidades em operação (a segunda tem 15). Também é verdade que nossos procedimentos operacionais de segurança são muito mais rígidos do que outros e que a legislação brasileira já é mais rigorosa do que outras. Sempre afirmamos que há espaço para melhorar, e que os acidentes podem ser evitados pela disciplina operacional, adoção de procedimentos preventivos e rigidez nos compromissos com a segurança. Concordamos que as melhorias podem vir de novas ferramentas e técnicas para a contenção e recolhimentos de eventuais desastres e o fato de estarmos confiantes na nossa capacidade não pode levar ao desprezo sobre essas questões. Sempre reafirmamos nosso compromisso com a segurança em primeiro lugar.

Em relação à partilha e concessão já apresentei minha posição em carta anterior.

Tentando ser o mais objetivo possível espero ter contribuído salutarmente para o debate de assuntos relevantes para o futuro da Petrobras e para o seu presente.

Saudações,

José Sergio Gabrielli de Azevedo”

Leia também a primeira carta enviada à colunista.

“Miriam, respeito profundamente o direito de opinião, divergências e controvérsias. Justamente por isso, em relação à sua coluna de hoje, em que sou chamado de lunático e negligente com as funções de Presidente da Petrobras, acusando-me de atuar exclusivamente de forma política eleitoral, gostaria de convidá-la para um debate dos méritos de minhas afirmações, além dos adjetivos.

Vamos aos fatos:

Afirmei que a área exploratória da Petrobras estava sendo reduzida por limitações na ação da empresa na aquisição de novos blocos de exploração e que isso seria mortal para uma empresa que vive do crescimento orgânico de suas reservas, principalmente através de novas descobertas. Disse e reafirmo que isso mataria a Companhia por inanição se essa política não fosse revertida, como o CA e a Diretoria da empresa assim o fizeram a partir de 2003.

Afirmei e reafirmo que os investimentos em refino estavam limitados por decisões estratégicas à época do presidente FHC. Considerado negócio de baixa rentabilidade, o refino no governo FHC teve estímulo para parcerias para ser desmembrado para potencial venda de suas partes. Essa visão foi revertida com o presidente Lula. Consideramos que a integração da produção de petróleo e o refino é fundamental para o fortalecimento da Petrobras, que tem mais de 85% de suas receitas provenientes das vendas de derivados de petróleo ao mercado brasileiro. No sistema integrado, a maior parte do refino pertence à Petrobras e, portanto, o crescimento desse mercado é estratégico para o desenvolvimento e sustentabilidade da própria Companhia. Revertemos o ciclo de estagnação do investimento em refino e planejamos construir cinco novas refinarias nos próximos anos.

Afirmei e reafirmo que a Engenharia e o sistema de Pesquisa e Desenvolvimento da empresa (principalmente o Cenpes) estavam inibidos no seu crescimento por uma falsa ilusão de que o mercado poderia fornecer as soluções tecnológicas necessárias para enfrentar os desafios de uma atividade como a nossa, na qual o conhecimento é vital para a sustentabilidade do crescimento. Felizmente, essa política também foi revertida desde os tempos de José Eduardo Dutra na Presidência da Petrobras, com o reerguimento da importância da engenharia e da pesquisa desenvolvidos internamente, o que impediu a continuidade de mais um elemento da morte por inanição que a orientação da DE anterior levaria a empresa.

Afirmei e reafirmo que parte dos programas de termoelétricas era extremamente nocivo à Petrobras. Inquestionável que todos os ônus ficavam com a Petrobras e os benefícios eram repassados para os sócios privados. A Diretoria dos últimos oito anos reverteu esse processo e as termoelétricas hoje apresentam riscos e benefícios justos para a empresa que investiu na construção de um importante parque gerador no País.

Afirmei e reafirmo a ausência da Petrobras na área dos biocombustíveis. A Petrobras Biocombustível é a prova do sucesso da reversão dessa política.

Afirmei e reafirmo que a exacerbação do conceito de unidades de negócio, como forma básica de organização da empresa, levaria a uma perda de sinergia do sistema corporativo, fragmentando sua ação, criando condições para a repartição do sistema em unidades isoladas mais facilmente privatizáveis. A Diretoria da Petrobras nos últimos oito anos fortaleceu o sistema, em lugar das partes, enfatizou a atuação sistêmica e agora avança na separação das unidades de operação dos ativos em relação às unidades que são responsáveis pela implantação dos novos projetos, uma vez que a empresa aumentou exponencialmente seus investimentos.

Afirmei e reafirmo que o regime de concessões aplicado a áreas de baixo risco exploratório, como é o Pré-Sal brasileiro, implica maior parcela da renda petroleira às empresas que aí investirem. Defendo que o regime de partilha de produção para esses casos permite uma melhor repartição dessa renda futura com o Estado e, portanto, é socialmente mais justa. Nesse sentido, a defesa do regime atual para as áreas do Pré-Sal é, em certa medida, a defesa de sua privatização sim.

Esses foram meus argumentos. Poderia ter falado da preparação para a privatização das fábricas de fertilizantes (Fafens), da política ofensiva aos movimentos sindicais dos petroleiros, da internacionalização equivocada, das políticas de patrocínios sociais, culturais e ambientais sem critérios e sem transparência, e outras ações que indicavam a orientação do governo do presidente FHC para preparar a privatização da empresa.

Você pode discordar de cada ponto por mim tratado, mas não pode desqualificar apenas com adjetivos e contextualização exclusivamente eleitoral. O que discuti foram pontos relevantes para a gestão da maior empresa brasileira e uma das maiores do mundo, que tem desafios gigantescos para implementar um dos maiores programas de investimento do planeta.

Miriam, a defesa do fortalecimento da Petrobras não pode ser classificada como negligência em relação às tarefas do seu presidente. Ao contrário, defender esses princípios é parte inerente e importante da função que exerço.

Muito obrigado.

José Sergio Gabrielli de Azevedo”

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