Entrevistas de José Sergio Gabrielli à Folha e ao IG

18 de outubro de 2010 / 10:06 Entrevistas Enviar por e-mail Enviar por e-mail Imprimir

A+ A-

Leia a entrevista com o presidente José Sergio Gabrielli publicada pela Folha de São de Paulo nesta segunda-feira (18/10). Veja também abaixo a íntegra da entrevista realizada em 15/10.

Repórter: Vamos começar com a questão dessa semana que é o debate do modelo de exploração, concessão contra partilha. Eu queria primeiro saber do senhor por que a partilha é melhor e saber que riscos que isso provoca para companhia. A gente corre o risco disso ser revisto em função disso voltar para pauta agora?

Gabrielli: Na verdade é o seguinte: existem vários regimes no mundo para regular a atividade de exploração e produção de petróleo. As empresas de petróleo trabalham com vários regimes. Estão acostumadas a trabalhar com os vários regimes. Esses regimes têm ênfases distintas a depender do tipo de exploração que se tem. Aquelas áreas que são de alto risco exploratório, ou seja, áreas em que você não tem grandes conhecimentos, e não tem grandes descobertas, que são áreas novas, que tem sísmica deficiente, que os estudos geológicos são municiais, são áreas de alto risco exploratório. São áreas em que as empresas vão investir com alto risco. Nessas áreas as empresas querem um maior retorno. Nessas áreas o regime de concessão é um regime que permite às empresas uma maior rentabilidade. Por que permite mais rentabilidade? Porque nessas áreas, em geral, os bônus de entrada são expectativas que você tem sobre os ganhos futuros. E, portanto, essas expectativas nunca são de fato certas. São expectativas, que podem ser ou não realizadas. E tem sempre descontos, porque são expectativas. São riscadas. Nesse sentido os ganhos futuros ficam predominantemente com as empresas que assumiram esse risco. O que acontece com o pré-sal: o pré-sal nós temos já perfurados, na área do pré-sal, da Bacia de Santos, que é a mais nova e mais desconhecida, mais de 20 poços perfurados. Com sucesso. Nós temos sísmicas de alta qualidade. Nós temos conhecimento geológico de alta qualidade. Temos produção contínua desde maio de 2009 com o teste de longa duração em Tupi. Vamos iniciar a produção comercial agora no final de outubro, início de novembro com o piloto de Tupi. Temos programado vários desenvolvimentos nessa área. Portanto, o risco exploratório na área do pré-sal é mínimo. Nesse sistema, com risco exploratório baixo, fazer a concessão é dar ao setor privado, às empresas que investirem, a maior rentabilidade. Nesse sistema, a partilha de produção, como o próprio nome indica, permite uma melhor repartição entre Estado e empresas dos ganhos futuros do petróleo. Se o país quiser apropriar-se de mais parcelas da renda de petróleo, é melhor usar o regime, para a área do pré-sal, a partilha de produção do que o regime de concessão. O regime de concessão, nesse sentido, é uma espécie de privatização dos ganhos futuros do petróleo. A partilha de produção permite uma melhor repartição social dos ganhos futuros do petróleo.

Repórter: Presidente, quando a Petrobras coloca essa questão nesse momento eleitoral obviamente está respondendo uma demanda político-eleitoral que foi colocada pela própria candidata do governo. Mas isso aí que o senhor está dizendo é muito diferente de acusar o governo anterior de desmontar “a pessoa” Petrobras e tentar vendê-la. Que elementos o senhor tem, concretos, de que isso aconteceu no governo Fernando Henrique e, que justificasse a pergunta, se não é uma politização e uma partidarização da empresa, que deveria ser mais do Estado do que do governo?

Gabrielli: Não, não acredito que seja nenhuma partidarização. O que eu respondi foi uma acusação feita pelo Zylbersztajn sobre a Petrobras e sobre o regime futuro onde tentei mostrar que o modelo de gestão da Petrobras, do período do governo do Fernando Henrique Cardoso, era um modelo de gestão que levaria a um desmembramento da Petrobras, e à possível privatização da Petrobras. Por quê? Primeiro: a principal atividade da Petrobras é a exploração e produção. Encontrar petróleo. Você só encontra petróleo se tiver áreas. A partir de 98, a única maneira de acessar áreas era através de leilões. O governo tinha uma orientação clara de limitar a participação da Petrobras nos leilões. A área exploratória da Petrobras era declinante. Se você continua declinando a área exploratória você morre por inanição. Primeiro, na atividade principal da Petrobras. Segundo: na segunda atividade importante da Petrobras, que é o refino, o que estava sendo feito era uma gestão de desmembramento da área de refino, partição das refinarias em partes e, com isso, você poderia permitir uma venda parcial das refinarias da Petrobras que estavam inibidas por uma lógica de curto prazo no investimento no refino. Portanto, não havia investimento em refino no Brasil até 2004-2005. Terceiro: na área de geração elétrica, os contratos firmados pela Petrobras com as chamadas “merchands” eram contratos que, claramente, levavam a uma repartição em que todo o custo ficava com a Petrobras e todo o lucro com o setor privado. Nós desmontamos esse sistema dos contratos das termelétricas. Quarto: a estrutura organizacional da Petrobras, exacerbando a unidade de negócios, fazendo com que a empresa tivesse organizada em unidades de negócios completamente estanques, exacerbadamente, fazendo com que se reproduzissem todos os temas corporativos dentro das unidades de negócios eram preparações claras para a eventualidade de privatização. Quinto: a engenharia da Petrobras foi desmontada. O sistema de pesquisa e desenvolvimento da Petrobras estava sendo considerado que não deveria existir, poderia ser fornecido pelo mercado como você compra tecnologia. Isso era mortal para Petrobras também. Eu não estou fazendo especulação, estou analisando uma gestão, um tempo de gestão de que eu discordo. E que a Petrobras, e eu discordo como Presidente, como diretor, quando eu assumi aqui, o José Eduardo também discordava, que nós mudamos nos últimos oito anos. Nos últimos oito anos, nós fortalecemos o sistema corporativo, nós fortalecemos as funções matriciais da companhia, aumentamos os investimentos e expandimos a companhia.

Repórter: Deixa-me fazer uma pergunta que pode parecer esdrúxula. E a partir da sua resposta, eu vou explicar porque eu faço. O senhor é favor do aborto?

Gabrielli: Eu não vou responder isso. Não vou entrar nessa discussão.

Repórter: Porque me parece que do mesmo modo que a direita está usando a questão do aborto no debate eleitoral, o governo está usando a questão da privatização.

Gabrielli: Eu não estou usando a questão da privatização. Eu sou o presidente da Petrobras. Eu estou respondendo do que foi acusada a Petrobras. Eu estou defendendo a Petrobras. Eu tenho a obrigação de defender a Petrobras.

Repórter: O senhor é contra a privatização em geral, por exemplo?

Gabrielli: Em geral eu não sou contra a privatização. Eu acho que a Petrobras não deve ser privatizada.

Repórter: O senhor acha que há um risco de…

Gabrielli: Eu acho que aquela política adotada pelo Fernando Henrique Cardoso, que orientou o Conselho de Administração da Petrobras e, por consequente, a direção da Petrobras, porque ela é uma empresa orientada pelo Conselho de Administração, onde os sócios majoritários têm um papel importante. Aquela continuidade daquela política levaria à privatização da Petrobras, ao desmembramento da Petrobras e a um enfraquecimento e inanição da Petrobras. O governo Lula, através do Conselho de Administração, da diretoria da Petrobras, orientou o contrário. Expansão da Petrobras, crescimento da atividade, fortalecimento do sistema, ampliação da participação direta dos trabalhadores.

Repórter: Mas nessa defesa…

Gabrielli: São diferentes.

Repórter: Mas quando o senhor coloca essa defesa justamente na pauta do governo, da candidata do governo, fica parecendo que a Petrobras não é do Estado, que a Petrobras é do governo, ou seja…

Gabrielli: Não está parecendo nada. Eu sou presidente de uma empresa que está sendo atacada. E eu estou defendendo a empresa. Eu tenho a obrigação funcional de fazer isso.

Repórter: O senhor não está defendendo só a empresa, o senhor está…

Gabrielli: Eu estou defendendo a empresa.

Repórter: O senhor é um braço da campanha da Dilma.

Gabrielli: Eu estou defendendo a empresa. A forma que o PSDB, a forma que alguns jornalistas responderam a minha posição, não foi a discussão do que eu acusei, foi dizer que era eleitoral. Eu estou propondo a discussão do mérito. É isso que eu estou chamando a atenção. Eu quero discutir o mérito, eu quero saber qual é o futuro da Petrobras. O que um quer fazer com a Petrobras? O que quer fazer com o pré-sal? Eu estou discutindo as alternativas para a maior empresa do Brasil, uma das maiores empresas do mundo. Que tem o maior programa de investimento da área de petróleo do mundo. É isso que eu estou discutindo.

Repórter: O senhor acha que uma eventual vitória do Serra traria esse risco de novo? De levar…

Gabrielli: Não. Se a política for a mesma, vai levar a esse risco, vai levar ao enfraquecimento da Petrobras, ao desmembramento da Petrobras e, portanto, ao enfraquecimento da capacidade dela de fazer o grande investimento que ela tem.

Repórter: Tem uma discussão aí, um detalhe dessa discussão sobre os modelos, que é a obrigatoriedade de a Petrobras ter 30% de todos os blocos exploratórios. Queira ou não, seja vantajoso, seja rentável, ou não, eu tenho que fazer: isso não seria um risco pra você… trazer problemas futuros pra companhia… prejuízos…

Gabrielli: Se fosse uma coisa limitada a alguns projetos, poderia ter esse risco. Mas como é para todos, é muito improvável que todos sejam ruins. Então consequentemente o fato de você estar presente em todos, minimiza muito esse risco.

Repórter: Como é que faria? Quando não for tão vantajoso…

Gabrielli: Você não pode só pegar o filé mignon. Você tem que pegar a carne de segunda também. A diferença é que você está trabalhando com um portfólio de investimentos numa área muito grande, que ela é maior que o Golfo do México americano, não é uma área pequena. Tem diversidade enorme, a Bacia de Santos é de uma diversidade geológica extraordinária. Então você tem na diversidade a redução do risco.

Repórter: E como se administra isso? Tendo a participação maior no filé mignon seria?

Gabrielli: Não. Você tem que gerir o portfólio. Essa é uma coisa normal numa empresa que tem duzentos e tantos poços… blocos exploratórios. É normal você gerir portfólios que tem alguns que são piores e outros são melhores. Você gere o conjunto dos portfólios. O resultado é o resultado do conjunto.

Repórter: O sistema de partilha, a gente poderia considerar que numa manutenção do governo, na vitória da candidata Dilma, a manutenção da política atual. O sistema de partilha valeria ad eternum ou, em algum momento, poderia se voltar a discutir a questão da prestação de serviços que chegou a ser colocado pelo PT nesse governo?

Gabrielli: A decisão sobre isso é uma decisão do Congresso, tem um projeto de lei no Congresso, que já foi aprovado pela câmara e foi aprovado pelo senado com mudanças e voltou à câmara para fase final de aprovação, está em fase final de aprovação. Se o Congresso Nacional aprovar é lei, se não aprovar permanece o atual. Então depende do Congresso Nacional, não depende nem da presidente Dilma, nem do presidente Serra eventualmente qualquer que seja o resultado das eleições.

Repórter: E a opinião do senhor, qual é a melhor solução?

Gabrielli: Na minha opinião, a partilha de produção é o melhor sistema para áreas exploratórias de baixo risco exploratório.

Repórter: (Inaudível)

Gabrielli: (Inaudível) Porque a predição de serviço é uma estrutura que existe. (Inaudível) Mas, geralmente, a predição de serviço ocorre para empresas que não são, digamos, empresas que tenham um portfólio de reservas grandes. São empresas, geralmente, que tem uma necessidade de reservas gigantescas e portanto aceitam trabalhar em situações de limitação de rentabilidade para ter acesso às reservas. Não é o caso da Petrobras, não é o caso do Brasil.

Repórter: Presidente, qual seria, qual a diferença que houve na questão da presidência que o sr. (Inaudível) Petrobras, agora com o ministro Mantega e antes com a ministra Dilma?

Gabrielli: De continuidade política, claro, não tem diferença fundamental, tem diferença de estilo, as pessoas são diferentes.

Repórter: Em termo de temperamento?

Gabrielli: Não tem, não há questão de temperamento. A ministra Dilma era ministra de Minas e Energia e depois da Casa Civil, ministro Guido é ministro da Fazenda, então é evidente que em aspectos econômicos, passam ser um pouco mais… chamam mais atenção que o presidente do Conselho, pela natureza da atividade dela.

Repórter: Na narrativa da campanha eleitoral todos os adversários da ministra Dilma relatam uma situação que eu queria que o Sr. esclarecesse, que envolvia o Sr., que em uma reunião o Sr. teria chorado.

Gabrielli: Isso é uma piada colocada, ridícula.

Repórter: Nunca existiu isso?

Gabrielli: Nunca existiu

Repórter: Mas há relatos de cobranças duras, que ela faz não só ao senhor…

Gabrielli: Ela é uma gestora que tem uma orientação muito clara para performance de resultado, ela é muito executiva nesse sentido. Então ela, como todo executivo, cobra e é normal que aconteça isso. Agora se há de convir que um homem de quase 2 metros de altura…

Repórter: Não, o presidente Lula disse que Sr. é emotivo como ele, então faria sentido porque o presidente Lula chora em público.

Gabrielli: Não por provocação desse tipo, por cobrança eu sou um profissional, não tem porquê. Por cobrança de trabalho profissional.

Repórter: E sua expectativa caso ela vença que o Sr. permaneça na presidência da Petrobras?

Gabrielli: Eu tenho uma certeza só, sou professor concursado na Universidade Federal da Bahia, titular de macro economia da Universidade Federal, essa é a única certeza que tenho. Eu trabalho com que tenho, nesse momento sou presidente da Petrobras.

Repórter: Por várias vezes foi especulado que você vai ser candidato na Bahia, falaram que senador até esse ano.

Gabrielli: Se for considerar o que a imprensa diz sobre mim, eu já fui…

Repórter: Mas o Sr. pretende ter uma carreira política?

Gabrielli: Eu já fui candidato a governador da Bahia, em 1990 fui candidato a governador da Bahia, não tenho nesse momento definições sobre isso. Nesse momento sou presidente da Petrobras, nesse momento eu sei que meu lugar é na Universidade Federal da Bahia, mestrado de economia, eu ainda tenho lugar lá.

Repórter: O Sr. acha que o momento da campanha está mais desfavorável para o governo?

Gabrielli: Eu acho que o debate político, espero que seja substantivo, que não seja factóides e nem temas que não são exatamente…

Repórter: O Sr. acha que está substantivo o debate sobre a privatização, por exemplo?

Gabrielli: Eu acho que não está tendo esse debate. Estou querendo fazer esse debate, eu estou querendo fazer o debate sobre o futuro da maior empresa do país, de uma área fundamental para o mundo, que é a área de petróleo. Esse debate eu acho que é relevante para todo o país, é um debate socialmente relevante.

Repórter: Mas por exemplo, o Sr. comanda uma empresa que tem milhares de acionistas e ao mesmo tempo o Sr. tem que responder a um governo…

Gabrielli: Nós acabamos de fazer uma capitalização onde tivemos milhares de acionistas novos, onde nós tivemos bilhões de dólares adquiridos por acionistas fora do governo, foi a maior capitalização do mundo, da história do capitalismo mundial. Onde o setor privado entrou firmemente comprando ações da Petrobras. Mais prova de que há aceitação da Petrobras do que essa capitalização realizada há 3 semanas não posso dar.

Repórter: Como o Sr. avalia as criticas de que não foi um processo completamente transparente da capitalização?

Gabrielli: Criticas podem existir de qualquer maneira. Foi uma capitalização desse tamanho que não teve nenhuma ação judicial, é um processo que foi um sucesso em termos de demanda das ações da Petrobras, a demanda foi maior que a oferta. Foi um sucesso porque imediatamente depois as ações se mantiveram estáveis, era esperado que elas caíssem, porque objetivamente, com o tamanho de emissões desse tipo, se esperaria que houvesse um efeito sobre o valor das ações, técnico. A variação que ocorreu semana passada tem muito mais a ver com ajuste do portifólios dos investidores, em função do IOF de 2% dos internacionais, do que especificamente sobre a Petrobras. Houve um ajuste de investidores que tinham ações da Petrobras, que venderam ações da Petrobras para transformar isso em reais, sem ter que pagar os 2%. Isso foi na quinta-feira dia 7, dia 8 isso foi fechado e as ações voltaram a se estabilizar. Essa é a realidade do mercado, objetiva. E é isso que eu tenho que responder.

Repórter: Se a gente considerar nos últimos 12 meses houve uma queda grande…

Gabrielli: Houve uma queda grande sem dúvida nenhuma, você anuncia uma capitalização gigantesca de qualquer empresa, você vai ter queda de ações. Ao lado disso tem uma crise da BP que reduz todos os preços das ações de petróleo do mundo, ao lado disso tem um recrudescimento da crise internacional, se não tivesse queda seria impossível.

Repórter: Mais associado a isso do que a uma possível perda de confiança dos investidores?

Gabrielli: Com certeza. A prova da confiança dos investidores é a demanda das ações. Houve muito mais gente demandando do que foi possível atender. Nós tivemos que cortar a demanda, porque tinha mais demanda que oferta. Mais prova que isso não pode existir.

Repórter: Esses recursos que viabilizam os investimentos do pré-sal, o que seria prioridade agora, concluída a capitalização?

Gabrielli: Nós temos um investimento de 224 bilhões de dólares para os próximos cinco anos. Desses 224 bilhões de dólares, para o pré-sal são só 39 (bilhões), certo? Na área de E&P (exploração e produção), por exemplo, vamos investir 39 bilhões no pré-sal e vamos investir 75 bilhões no pós-sal. Nossa produção vai crescer da produção atual, vamos acrescentar 240 mil barris por dia do pré-sal até 2014 e vamos acrescentar até 2020 1 milhão de barris por dia no pré-sal, mas nosso o crescimento vai ser de 2 milhões de barris por dia nos próximos dez anos. Portanto, daqui a dez anos o pré-sal vai representar 25% da produção da Petrobras, que é fortemente crescente no pré-sal. E O pré-sal é muito importante, mas a Petrobras não é só o pré-sal.

Repórter: A descoberta do pré-sal mudou um pouco o discurso do governo na questão dos biocombustíveis, né?

Gabrielli: Não. Ao contrário, a Petrobras aumentou o investimento no etanol. Hoje a Petrobras controla a terceira maior produtora de etanol do país. Nós aumentamos a capacidade de produção de biodiesel, a frota da Bahia foi dobrada. Estamos com dois projetos gigantescos de biodiesel para exportação no Pará, nós aumentamos o investimento no biodiesel, aumentamos o investimento, não reduzimos, não tem essa lógica. Essa lógica é de quem está acompanhando a campanha eleitoral, acho que você deve estar acompanhando eleitoral. Porque se você for acompanhar os fatos e dados não é verdade.

Repórter: Nessa semana o Estadão publicou uma matéria, falando sobre a refinaria Abreu e Lima, a parte necessária da Venezuela. A Venezuela não teria colocado nenhum recurso, só a Petrobras. Eu queria saber do Sr. se a Petrobras vai manter a PDVSA como sócia mesmo?

Gabrielli: No acordo que nós temos a PDVSA entra com 40%, ela vai ter que resolver o problema dela com financiamento etc. É um problema que os sócios estão resolvendo, nós não vamos aumentar o que eles estão fazendo.

Repórter: Mas eles deram algum sinal?

Gabrielli: Não vou comentar o que eles estão fazendo, a matéria do Estadão deve ter as fontes dela. Não vou comentar sobre os sócios, a PDVSA é nosso sócio.

Repórter: Presidente, fala-se muito também nos riscos exploratórios principalmente depois desse acidente do Golfo, tem alguma ação especial da Petrobras?

Gabrielli: Tem. Aliás o que nós vimos, na experiência no Golfo do México mostra duas coisas importantes. Primeiro que você tem que ser muito rígido nos procedimentos, e nossos procedimentos são mais rígidos do que aparentemente os que foram adotados no Golfo do México, os procedimentos de operação. Nós não faríamos uma série de decisão operacionais, que foram tomadas no Golfo do México, por procedimentos operacionais mesmo.

Repórter: O Sr. pode explicitar?

Gabrielli: Vou explicitar tecnicamente. Por exemplo, toda nossa operação é supervisionada de terra 24 horas por dia, online e realtime, tempo real. Não há nenhuma decisão operacional importante que seja tomada só pela frente operacional, ela é 24 horas por dias, 7 dias por semana e 365 dias por ano acompanhada de equipe de supervisão em terra. Segundo, nós testamos todos os equipamentos de segurança a cada 14 dias, isso é um custo gigantesco. Nós testamos, por exemplo, a guilhotina do BOP a cada 14 dias, que é uma coisa muito grande. Nós temos equipamentos sobressalentes de redundância de segurança, que quem tem contrato de curto prazo não pode ter. Nossos contratos de sonda são todos de longo prazo, que permitem que nós tenhamos na sonda equipamentos que sejam redundantes e com mais segurança do que quem contrata por 3 ou 4 meses. Nós contratamos por 7 anos. Nós fizemos depois do acidente uma revisão de todos os equipamentos que nós temos e todos os procedimentos que nós temos e consideramos que os nossos procedimentos estão muito acima…

Repórter: Mas na hipótese de isso tudo dar errado…

Gabrielli: Aí vem o segundo elemento. O segundo elemento é o processo de remediação e o processo de contensão. A Petrobras hoje é a maior operadora de águas profundas do mundo, nós temos 20% da operação mundial de águas profundas acima de 300 metros, a Petrobras é a maior operadora. O segundo maior operador tem 14%. Nós temos 45 unidades de produção em águas profundas do mundo, o grupo do segundo maior, que é Shell, Statoil e Exxon, tem cada um 15. Então, nós temos três vezes mais que o segundo. Nós somos de longe o maior operador, com maior experiência e com maior quantidade de sistemas operando em águas profundas do mundo e portanto, nós temos também a maior rede de contensão e de remediação em uma empresa do mundo. Por exemplo, só na Bacia de Santos temos hoje 9 navios stand by 24 horas por dia para eventual acidentes. Não tem nada parecido no mundo.

Repórter: Após o acidente?

Gabrielli: Não, não, desde antes, desde sempre. Isso mostra que não é suficiente para um acidente deste tamanho. O que precisamos avançar nisso é a rede de mobilização de recursos, que sejam rápidos, de rápida entrega. Nós precisamos fazer com que haja uma integração dos diferentes agentes que possam estar envolvidos, que são as Forças Armadas, as autoridades locais, a Defesa Civil, etc, que têm que ser rapidamente mobilizadas, que é a experiência que o Golfo do México deu. Esse é o caminho que nós precisamos avançar, que é montar um sistema de rápida mobilização, porque manter isso em stand by é impossível também. Rápida mobilização para eventualidade de um acidente desse tipo e atuar fortemente na prevenção para evitar os acidentes, porque os acidentes podem ser evitados.

Repórter: Mas tecnicamente não parece frágil demais? Por exemplo, quebrada toda aquela primeira rotina que o senhor disse, dos equipamentos, quando aconteceu o problema isso às vezes demorou três, quatro meses pra resolver…

Gabrielli: Os mineiros do Chile, levaram quanto tempo para o poço chegar lá embaixo? É um problema. Por isso que privatização,debatido com a sociedade, foi um risco … Nós temos 9 mil poços em produção hoje no Brasil. Quantos mil poços têm em produção nos EUA? Tem um poço que deu problema. E deu problema não por acidente, deu problema por decisão equivocada… É diferente, você tem que evitar, tem que ser rígido na disciplina operacional. E aí pode evitar acidente.

Repórter: Qual seu desafio para área de segurança?

Gabrielli: Nós já temos. Acho que se tiver que aumentar custo, tem que aumentar custo na mobilização de recursos para a recuperação e contenção. Vamos ter que investir em tecnologia, por exemplo, para acelerar eventuais esforços de perfuração emergenciais. Tem que avançar nisso. Tem que criar, desenvolver ferramentas para conter mais rapidamente qualquer vazamento eventual que exista. São áreas que precisam ser desenvolvidas. Eu concordo que tem que desenvolver, mas não é um problema da Petrobras, é um problema da indústria. Não é um problema só do Brasil. Tanto é que você vê, os EUA acabaram o banimento de perfuração, a Noruega acabou o banimento de perfuração, a Inglaterra não fez nenhum movimento nessa direção porque as condições de prevenção são suficientes para garantir um grau de controle de risco grande.

Repórter: E já chegando ao final do tempo, quando eu entrevistei o senhor antes ainda do pré-sal fiz uma pergunta que era quanto ganhava o presidente da Petrobras…

Gabrielli: Eu ganho R$ 60 mil.

Repórter: Então só subiu 20% desde o pré-sal, só aumentou 20% do seu salário?

Gabrielli: Meu salário aumentou mais ou menos a mesma linha que os trabalhadores da Petrobras aumentaram.

Repórter: Você acha que esse posto é equivalente ao cargo de Ministério, ele é tão disputado quanto o Ministério da Fazenda, por exemplo?

Gabrielli: Ah eu não vou entrar nessa discussão. Eu faço o meu trabalho.

Repórter: Eu queria só voltar numas questões técnicas… O plano de negócios do ano passado e desse também se você previa desde o ano passado, já previa a construção de um terceiro terminal de regularização…

Gabrielli: Vai precisar de uma…

Repórter: Eles entram em 2013. Como é que está? Já está decidido o local? Como é que vai ser?

Gabrielli: Nós estamos finalizando a localização dele, provavelmente será no Sul do Brasil, mas a microlocalização na está concluída.

Repórter: Não tinha alguma instalação em Suape, não seria esse terceiro que iria para Suape?

Gabrielli: Não, mas o problema todo é que nós hoje temos demandas e necessidade maior no Sul do que no Nordeste, que é o terceiro terminal.

Repórter: E para o aproveitamento do gás, eu sei que tem os gás do pré-sal… Considerando a a entrada do shale gás, que está revolucionando o mercado, pelo menos nos EUA .

Gabrielli: Mas por que o shale gás está revolucionando o mercado, você sabe por que?

Repórter: Pois é, acho que ninguém sabe muito bem… é o preço…

Gabrielli: Os reservatórios onde você pode fraturar a rocha nos EUA, estão localizados exatamente no centro dos principais gasodutos nos EUA. Então você perfura a rocha e imediatamente alimenta a rede de gasodutos. Portanto, o shale gás é um fraturamento da rocha para a retirada do gás que está preso dentro da rocha. Você quebra a rocha e solta o gás. Então evidentemente que é um processo caro. Se você além disso tiver que construir a rede de transporte, fica praticamente impossível. Por isso o efeito dele é forte nos EUA onde ele tem uma rede de gasoduto já instalada. O efeito indireto que ele vai trazer é sobre o crescimento da movimentação do gás natural liquefeito, o GNL, que tem uma capacidade prevista para atender o mercado americano e provavelmente vai se deslocar mais para a Europa, mais para Ásia e vai se deslocar mais para o Brasil, para a América do Sul.

Repórter: Com impacto no preço?

Gabrielli: Provavelmente sim. O shale gas provocou uma separação entre o preço.A referência principal do gás era o preço do petróleo, eram relativamente correlacionados. Agora o preço do gás é independente do preço do petróleo.

Repórter: Isso interfere em algum plano aqui?

Gabrielli: Não, porque a nossa principal fonte de gás é o gasoduto, é transporte de gasoduto, é produção nacional e produção boliviana que é toda transportada em gasoduto. O GNLentra interruptivelmente para atender a demanda brasileira que tem a característica de faixa elétrica, que é sazonal.

Repórter: Mas ele é estudado como uma possibilidade para aproveitamento do gás do pré-sal?

Gabrielli: O pré-sal é outra questão. O GNL no pré-sal tem um fator extremamente importante por outra razão. Nós temos hoje um gasoduto que sai de Tupi, vai a Mexilhão e de lá a Caraguatatuba. Esse gasoduto tem capacidade de 20 milhões de metros cúbicos por dia. Ele não está no pré-sal ainda porque nós estamos terminando a perfuração de um túnel em Caraguatatuba, que é um túnel de 5km, mas é extremamente desafiador do ponto de vista tecnológico. E isso em janeiro deve estar em operação. Janeiro agora, de 2011. Então esses são 20 milhões de metros cúbicos, isso é suficiente para Tupi, na primeira fase de Tupi. Nós temos um outro gasoduto que vai de Uruguai a Tambaú até Mexilhão, que é um pouco a norte de Franco, área que foi adquirida agora e que permite, portanto, o escoamento de Viola, Franco, Tambaú até Mexilhão. Nós estamos pensando em construir um outro gasoduto que vai sair dessa região até Cabiunas no Rio de Janeiro. Com isso nós teríamos dois terminais, dois dutos, com duas rotas de dutos. Mas isso não é suficiente, nós temos uma perspectiva de crescimento muito grande da produção. Qual é a incógnita que nós temos hoje no pré-sal? O que é que ainda não sabemos do pré-sal? Nós não sabemos do pré-sal como ele se comporta como reservatório. O que que nós não sabemos? Essencialmente como é que se recupera o óleo que está no pré-sal. Se é melhor injetar água, injetar gás, injetar CO2, alternar gás com C02, alternar gás com água, alternar CO2 com água, isso nós vamos testar. São alternativas porque o pré-sal tem mais gás… a razão gás-óleo é maior no pré-sal, porém a quantidade de gás que está sendo injetada nós não sabemos.

Repórter: Quando é que vocês terão essa resposta?

Gabrielli: A única maneira de fazer isso é teste de longa duração. Nós temos 13 testes de longa duração que estão previstos até 2014. O GNL entra, o GNL embarcado entra perfeitamente nisso porque ele fica com uma potencialidade de liquefazer o gás flutuante e portanto dar destino a esse gás ou para o mercado interno brasileiro – porque nós vamos ter três terminais de regaseficação, no mínimo, ou mandar para fora do País, isso dependendo de como se comporta o mercado. Você aumenta a flexibilidade da oferta de gás brasileira.

Repórter: Mas isso já é uma decisão então?

Gabrielli: A tecnologia foi fechada nesse momento do ponto de vista puramente tecnológico, nós temos quase certeza de que ela é viável e nós estamos fechando a análise.

Repórter: Campanha autossuficiência. Os números mostram que ela acaba sendo não permanente, ela vai e volta…

Gabrielli: Ela é permanente. Nós estamos crescendo mais do que o país consome, estamos produzindo mais do que o país consome, estamos autossuficientes. O problema é volumétrico, nós produzimos um tipo de petróleo que às vezes é melhor que a gente troque esse tipo de petróleo por outro tipo de petróleo para produzir diesel, que é o que nós precisamos. Então às vezes é melhor você produzir o petróleo pesado, vender o petróleo pesado para fora e importar o petróleo leve para processar na nossa refinaria para produzir mais diesel. Porque o mercado brasileiro é fortemente damandante de diesel, e nossa capacidade de produção de diesel é limitada. Nós levamos 30 anos sem investir em refino. A última refinaria feita no País foi em 1980. Em 1980, nós tínhamos 1,3 milhões de barris. Em 2009, nós temos 1,9. A nossa produção em 1980 era 181 mil barris, em 2009, a nossa produção é 1 milhão e 900.

Leia também a entrevista com José Sergio Gabrielli postada no portal IG na sexta-feira (15/10) e veja abaixo a íntegra da entrevista concedida.

Repórter: Em relação à campanha política e a nota que o senhor escreveu sobre as declarações do ex-diretor da ANP, poderia comentar o motivo?

Gabrielli: O país tem no petróleo e na energia dois fatores fundamentais. Tem a maior empresa que é a Petrobras, considerada a segunda ou terceira empresa de petróleo do mundo. Também tem o maior programa de investimento em desenvolvimento da produção, refino e gás. A Petrobras encontrava-se em um período de silencio em função da capitalização. Enquanto todo mundo falava da Petrobras. Considerei importante discutir o futuro da Petrobras. O que acaba passando sobre o seu modelo de negócios e como ela é organizada. Por isso fiz comparações dos oito anos da atual diretoria – da qual fiz parte como diretor e depois como presidente. O que me permitiu identificar alguns problemas da gestão anterior. Se isso não tivesse sido feito, a Petrobras seria desmembrada ou até privatizada. Quais seriam esses problemas? Primeiro, a principal atividade é exploração e produção de petróleo, e para isso tem que ser encontrado o petróleo em áreas exploratórias.

A exploração é a principal área de atuação de uma empresa de petróleo. E para ser encontrado petróleo temos que ter áreas de exploração. Entretanto, estas áreas da Petrobras estavam diminuindo. Por quê? Porque depois da quebra do monopólio, com o processo de leilões, a Petrobras foi inibida na participar para dar espaço as empresas privadas. E se continuasse assim, acabaria morrendo, pois não teria mais áreas para explorar. Segundo, na atividade de refino, o sistema integrado da Companhia estava sendo segregado em partes. Estávamos excluídos na área da Petroquímica. A Refap (no Rio Grande do Sul) transformada em outra empresa, a Reduc (no Rio de Janeiro) estava sendo preparada para ser dividida, as empresas de fertilizantes também estavam sendo preparadas para serem seccionadas Toda a área de refino estava sendo reestruturada, onde cada refinaria era uma unidade de negócios.

Quando entramos, acabamos fazendo a reintegração e fortalecemos as ações corporativas. Fortalecemos os sistemas das partes e enfraquecemos a exacerbação do conceito de unidade do negócio. Portanto, ocorreu uma mudança fundamental no modelo interno da companhia que tinha chegado ao limite máximo. Terminamos com o conceito de unidade do negócio, transformando-as em unidades operacionais. Neste momento, estamos separando a unidade operacional dos projetos novos. Estamos criando gestão separada para a implantação de novos projetos em relação à operação do dia-a-dia. Tudo isso dentro de um sistema corporativo que fortalece o sistema da Petrobras e não as partes. Isso significa que será mais difícil privatizar o todo.

Repórter: Como o senhor sabe que a intenção era de privatizar?

Gabrielli: Vou mencionar outros exemplos, a termoelétrica. Quais eram os modelos de contrato da Petrobras? Eram termoelétricas “Merchant” onde a Petrobras entrava com as contingências, com os custos todos e o setor privado ficava com todos os lucros. Portanto, montamos um modelo integrado nas termoelétricas, onde o sistema Petrobras administra as usinas e, portanto, temos uma justa repartição de riscos e retornos. Outro exemplo é a engenharia da Petrobras, que estava sendo desmontada. Qual a empresa que trabalha com projetos que desmonta sua engenharia interna? Como se limita o desenvolvimento e o crescimento da pesquisa? A idéia era de que o mercado poderia fornecer todas as soluções tecnológicas. Portanto, esse conjunto de questões indicava que, se a Petrobras continuasse nesse ritmo, acabaria morrendo ou sendo privatizada.

Repórter: Isso é uma dedução.

Gabrielli: É uma dedução sequencial e lógica. O que fizemos foi inverter isso. Fortalecer o sistema, a engenharia, a ciência e tecnologia da Petrobras. Desenvolvemos a pesquisa, reforçamos o processo de admissão na empresa, assim como a Universidade Petrobras, aumentamos o investimento em oito vezes durante esses últimos oito anos. Eram US$ 5 bilhões em 2003 e, em 2010, estamos investindo mais de US$ 45 bilhões. Voltamos a Petrobras para as ações no setor petroquímico, aumentamos iniciamos a atuação em biodiesel e etanol. Portanto. Fizemos o contrário: em vez de conter, fragmentar e partilhar. E isso é uma questão do futuro.

Repórter: O que pode mudar com um eventual governo de orientação diferente. O que mudaria da gestão na Petrobras?

Gabrielli: Se voltar ao velho modelo, a única saída seria fracionar, fatiar, fragmentar ou vender. Não tem outra alternativa.

Repórter: Em relação à Petrobras e o pré-sal?

Gabrielli: O pré-sal é uma área de baixo risco exploratório. Só na Bacia de Santos temos mais de 20 poços perfurados. Um sucesso total. Temos produção em andamento no pré-sal desde maio de 2009. E vamos começar com produção comercial a partir de novembro. A defesa da concessão para o pré-sal, com baixo risco exploratório, é em ultima distância, a defesa de que parte fundamental da renda futura do petróleo ficará nas mãos das empresas.

Repórter: Então, o que o senhor acha que continuaria prevalecendo?

Gabrielli: Os candidatos têm documentos escritos das discussões no Congresso. Na verdade dos candidatos não sei, mas os apoiadores firmes e fortes deles têm documentos escritos sobre isso, defendendo essa posição, sobre a discussão do projeto de lei que se encontra em aprovação no Congresso Nacional.

Repórter: Poderia citar nomes?

Gabrielli: Luis Paulo Veloso é um dos autores, com a posição muito clara de defesa da concessão. Parece-me que como o próprio nome indica, a partilha é repartir o ganho futuro com o Estado, quer significa ser mais socialmente justo. E as empresas de petróleo estão acostumadas a trabalhar com regime de partilha também. Não vejo problema nisso.

Repórter: Qual o seu parecer sobre as afirmações de o senhor ter entrado na campanha eleitoral?

Gabrielli: Apenas defendi a Petrobras, o programa para o país e o futuro da empresa para o país e quero discutir o mérito. Não discutirei adjetivos sobre época eleitoral, se é lunático, se é negligente. O relevante é o mérito e o substantivo. A exacerbação do conceito de produção e exploração, redução da capacidade exploratória, limitação da capacidade de investimento, modelo de contratação para gás e óleo, política de engenharia e desenvolvimento, política de pessoal, relacionamento com a sociedade Esses são os temas de gestão da Petrobras e que, no meu parecer, são relevantes para o país e que deveriam ser discutidos na campanha eleitoral.

Repórter: Então, o senhor acha natural que haja esse debate?

Gabrielli: Claro.

Repórter: Sabemos que o senhor tem pretensões na política.

Gabrielli: A imprensa me arranjou vários empregos e já me demitiu umas oitocentas vezes.

Repórter: Na verdade, o senhor tem interesse em ser Governador da Bahia?

Gabrielli: Apenas sou professor concursado em Macroeconomia da Universidade Federal da Bahia. O resto é especulação.

Repórter: No caso da Dilma vencer as eleições, o senhor ficaria um tempo a mais na Petrobras?

Gabrielli: Se for chamado para ficar na Petrobras, com certeza o farei. Mas eu não posso dizer isso.

Repórter: Acha interessante que haja uma transição, Independente de o senhor ocupar esse cargo ou não?

Gabrielli: A Petrobras tem várias opções de quadros e ninguém é insubstituível.

Repórter: Segundo o presidente Lula, o cargo na Petrobras é mais importante que o cargo de presidente da República. Qual a sua opinião sobre esse comentário?

Gabrielli: Não farei comentário sobre isso. A Petrobras tem um programa de investimento que é o maior do mundo. É um grande desafio montar e viabilizar a implementação de milhares de projetos articulados, integrados com interfaces enormes e em diversos segmentos, simultaneamente com o estímulo da indústria nacional.

Repórter: Pode falar um pouco mais sobre as mudanças que podem ser feitas com outro Governo.

Gabrielli: Na questão do marco regulatório, a decisão está nas mãos do Congresso. O projeto de lei já foi aprovado pela Câmara, foi ao Senado e aprovado com mudanças, e agora se encontra na Câmara de novo para sua votação final.

Repórter: Dentro da Petrobras, existe a intenção de fazer um organograma diferente com vice-presidências.

Gabrielli: Sobre as vice-presidências, isso é uma invenção da imprensa. Entretanto, há uma discussão há bastante tempo sobre a necessidade de adequar a estrutura organizacional da Petrobras aos seus novos desafios. Saímos de US$ 5 bilhões de investimento para os US$ 45 bilhões por ano. Há uma necessidade de articular esse crescimento, o que acaba exigindo uma importante reestruturação de gestão. A discussão sobre o fortalecimento das funções matriciais da companhia mostra que será preciso uma reestruturação em cadeia. Atualmente, estamos reestruturando a área operacional. As unidades de negócios já foram transformadas em unidades operacionais. Estamos separando a gestão da produção da gestão dos novos projetos. Na área de gestão corporativa, encontra-se em reestruturação a área de estratégia e desempenho da companhia. Depois, chegaremos ao nível da diretoria, que passará por separações, em termos de funções, que atualmente encontram-se muito concentradas na presidência. O que se está discutindo é o conjunto do sistema, o fortalecer das funções corporativas, retomar alguns elementos funcionais matriciais, chegando até a diretoria.

Repórter: Não sei se o senhor acompanhou as declarações do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso.

Gabrielli: Não desrespeitei o ex-presidente, apenas disse que a política que ele orientou a Petrobras a seguir, através do Conselho de Administração, é nociva para a Petrobras.

Repórter: Ele comentou que não privatizaria a Petrobras.

Gabrielli: Alias, é algo que está acontecendo nesta campanha. O candidato Serra está falando coisas que não sabe. Então, impossível o Fernando Henrique fazer um programa que não fez. A ação dele não foi a de fortalecer a Petrobras.

Repórter: Houve diferenças de política industrial, por exemplo? Lembro que foi interrompida uma licitação. As cartas tinham sido enviadas quando o presidente Lula assumiu.

Gabrielli: Isso é outra coisa, o que está se discutindo é a política nacional.

Repórter: Poderia ter mudado?

Gabrielli: Acho que sim, porque inclusive a campanha eleitoral dele era contrária, já que era voltada para o curto prazo.

Repórter: Por isso, você acha que a Petrobras está no auge do debate eleitoral, porque ela seria um ícone das diferenças entre tucanos e petistas?

Gabrielli: No meu ponto de vista, a Petrobras no Governo do Lula foi um diferencial em comparação com o Governo de Fernando Henrique Cardoso

Repórter: Qual o balanço da Petrobras neste período de oito anos de governo?

Gabrielli: Quando Luis Eduardo assumiu a Petrobras em 2003, ela valia em torno de US$ 14 a US$ 15 bilhões, enquanto hoje ela vale US$ 240 a US$ 250 bilhões. Acabamos de passar por um período de capitalização longo. Saímos de uma fase de declínio da atividade exploratória para crescimento. Também saímos de uma fase de redução de investimentos em pesquisa e desenvolvimento, voltando a crescer nestas atividades fundamentais para uma empresa de petróleo. Montamos fora da Petrobras, uma enorme rede de ciência e tecnologia com as universidades e institutos de pesquisa brasileiros. São rede temáticas que envolvem dezenas de instituições brasileiras. A Petrobras saiu da estagnação em refino para construir cinco novas refinarias. Também deixou de ser completamente prisioneira em contratos leoninos na área de gás e energia para montar uma rede nacional de gasodutos, de geração de eletricidade, que vai dar flexibilidade na oferta de gás e energia elétrica no país. Sai da ausência na área de bicombustíveis e se torna a terceira produtora de etanol e cresceu no biodiesel. E também estamos avançando na questão de fertilizantes. A Petrobras saiu de uma completa estagnação e inibição na área petroquímica e se tornou sócia relevante da maior petroquímica brasileira, com iniciativas petroquímicas fundamentais para o futuro do país. Parece-me muito positivo. Hoje, mais de 47% dos 77 mil empregados da Petrobras têm menos de nove anos na companhia. Em 2002, eram 50 mil empregados, aproximadamente.

Repórter: E continuará crescendo?

Gabrielli: Seguramente, já que até 2014 estaremos empregando mais 14 mil.

Repórter: E continuará crescendo?

Gabrielli: Seguramente. Até 2014 empregaremos mais 14 mil.

Repórter: Houve alguma conversa prévia entre a candidata Dilma e o Presidente Lula antes da divulgação dessa nota?

Gabrielli: Não.

Repórter: Em relação a essa desvalorização das ações?

Gabrielli: Do ponto de vista técnico, quando você faz uma capitalização de R$ 120 bilhões de uma empresa que valia R$ 240 bilhões, vai impactar o preço das ações. Isso é inevitável tecnicamente, mas, surpreendentemente, as ações tiveram um comportamento excepcional, porque depois do lançamento estabilizaram rapidamente. Tanto é que o fim do período de silêncio foi antecipado. A demanda que existia no mercado era maior do que a oferta das ações novas. Isso demonstra um apetite do investidor, além da demonstração do Governo ao comprar ações da Petrobras.

Repórter: O investidor estrangeiro tinha muito apetite também.

Gabrielli: Muito, recebeu 47% do que pediu.

Repórter: E no Brasil?

Gabrielli: Aqui houve uma limitação também, mas não tão grande como lá fora, porque aqui tínhamos investidores prioritários. O que acontece uma semana e meia depois do fechamento da operação: O governo faz uma mudança, por motivos cambiais, do IOF para investimentos estrangeiros em renda fixa. Ao fazer essa mudança ele aumentou o imposto para o investidor estrangeiro em renda fixa, mas ficou uma brecha. O investidor estrangeiro, que tinha ações das empresas brasileiras que, portanto, poderia vender essas ações no mercado brasileiro, transformar essas ações em reais e comprar, com esses reais, os títulos de renda fixa brasileiro, sem pagar o IOF. Isso aconteceu nos dias 6 e 7 de outubro. No dia 8 de outubro o governo fechou essa operação, no dia 7 de outubro Petrobras cai o 5%. E acontece um recorde de venda de ações da Petrobras. Por quê? É essencialmente o movimento de ajuste de carteira dos investidores estrangeiros. Mas o que apareceu na imprensa? Um boato descabido, completamente irresponsável de que haveria uma denúncia que sairia na Veja no fim de semana, para esconder uma operação comercial e financeira. Tanto é que as ações voltaram a subir na sexta, na segunda e hoje. As ações têm um comportamento excepcional, positivo e não negativo, mesmo com bancos reduzindo a recomendação, mas é normal, o fundamento é lógico.

Repórter: Então a recomendação está certa?

Gabrielli: Não. A recomendação é outra coisa. Poucos analistas mudaram a recomendação, só três em mais de quarenta.

Repórter: Em um universo de quarenta, três não pode ser a verdade absoluta.

Gabrielli: Não pode. A não ser que vocês gostem de alguns analistas em particular com nomes bem definidos…

Deixe seu comentário

Prezado leitor,

Lembramos que não serão aceitos comentários que tenham conteúdo ou termos ofensivos, nem que sejam desassociados do tema do post. Dúvidas sobre temas diversos devem ser encaminhadas ao Fale Conosco do site.

 caracteres restantes