Sinfônica de Heliópolis: de Beethoven ao samba

26 de outubro de 2010 / 09:02 Meio Ambiente e Sociedade Enviar por e-mail Enviar por e-mail Imprimir

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A Sinfônica Heliópolis, grupo de musicistas do Instituto Baccarelli formado majoritariamente por jovens da região de Heliópolis – maior favela da cidade de São Paulo – retornou ao Brasil na última semana após encerrar sua primeira turnê internacional. Surpreso e ansioso, o grupo, formado por músicos entre 15 e 27 anos, embarcou rumo à Alemanha por iniciativa de Erik Bettermann, diretor geral da rede de televisão e rádio alemã Deustche Welle, para se apresentar no Beethovenfest, um festival de música erudita realizado anualmente em Bonn, cidade natal de Beethoven.

A oportunidade e o sucesso da sinfônica estenderam a viagem a Berlim, Dresden e Munique (Alemanha), a Amsterdã (Holanda), a convite do MCO, centro de música do Ministério da Cultura holandês, e a Londres (Inglaterra) – etapa em que teve apoio da Petrobras, que também é patrocinadora do Instituto Baccarelli. “A importância da Companhia não se traduz na etapa de Londres, mas no apoio continuado da Petrobras desde 2005 que possibilitou ao grupo chegar ao nível de desenvolvimento que despertasse o interesse de pessoas de fora do Brasil. Agradecemos a confiança no nosso trabalho”, declarou Edmilson Venturelli, diretor de relações institucionais do Baccarelli, em entrevista ao Fatos e Dados.

“Nem nas nossas previsões mais otimistas imaginávamos uma resposta tão positiva. Para eles [os europeus], também foi surpreendente”, contou Venturelli. “O que a gente quis mostrar é que sabemos fazer música de concerto, mas que temos, sim, um jeitinho diferente de fazer as coisas. Então, fizemos a parte formal e um pouco que mostrava a alma da gente, dos brasileiros”.

Brasilidade na Europa

“A plateia da Europa é mais fria, os alemães só aplaudem de pé se gostarem muito. Não é como no Brasil”. A trompista Jéssica Maria Vicente, de 15 anos, perdeu as contas de quantas vezes ouviu essas frases. Somada à ansiedade de quem iria andar de avião pela primeira vez, como a maioria de seus colegas de sinfônica, e representar o Brasil na “terra de Beethoven” havia o desafio de lidar com um público muito diferente do que está acostumada.

Mas nem os alemães resistiram ao ritmo de Aquarela do Tico Tico que só Dança Samba, escrito por Chiquinho de Moraes, e à emocionante Cidade do Sol, composta por André Mehmari, ambas inéditas. Desacostumados com as pitadas de brasilidade nas apresentações, os alemães se renderam: aplaudiram de pé e pediram bis. A qualidade, as coreografias, o batuque e a criatividade surpreenderam até mesmo os organizadores alemães que não souberam o que fazer quando a frieza europeia perdeu espaço para a alegria de um público que bateu palmas para um palco vazio por muito tempo e só se satisfez quando a orquestra voltou e tocou um pouco mais, dessa vez, com repertório alegremente improvisado.

“Eles não estão acostumado com esse jeitinho brasileiro, com essa habilidade para fazer várias coisas ao mesmo tempo, por isso, eles ficaram impressionados”. Prova disso foi o sucesso da oboísta Edileuza Santos Ribeiro, que faz um solo de voz em Cidade do Sol e voltou com um convite para estudar canto em Genebra.

Diferenças culturais

“Antes de viajar, eu estava esperando uma realidade totalmente diferente, dentro e fora dos palcos, e era mesmo. Até a acústica é diferente, como se desligássemos um botão e ligássemos outros”, lembra a trompista Jéssica. De fato, a barreira da língua durante as aulas de música com professores europeus, sem tradutor, foi o primeiro desafio. “A gente não sabe falar inglês direitinho, mas a linguagem da música é universal, onde você for entende. Os professores tocavam, cantavam e, às vezes, demonstravam com o corpo até a gente entender”.

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