Uma viagem pelas imagens do inconsciente

13 de dezembro de 2010 / 13:26 Reportagens Enviar por e-mail Enviar por e-mail Imprimir

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Responsável pelo maior acervo do mundo de obras plásticas produzidas por pessoas com doenças psiquiátricas, reunindo mais de 350 mil obras, o Museu de Imagens do Inconsciente, fundado pela psiquiatra Nise da Silveira, é referência internacional. A origem da iniciativa remonta à criação, pelo artista plástico Almir Mavignier, do Ateliê de Pintura do então denominado Centro Psiquiátrico Nacional, no bairro Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. O blog Fatos e Dados foi até lá para conhecer um pouco desta história e conferir as imagens, que já percorreram o país e o exterior em exposições.

O psiquiatra suíço Carl G. Jung disse a Nise da Silveira em seu primeiro encontro que “se houver alto grau de crispação do consciente, muitas vezes só as mãos são capazes de fantasiar”. A frase e a foto deste encontro estão em um dos paineis expostos no Museu. Ou seja, dependendo do nível de comprometimento psíquico, o indivíduo só consegue dar vazão a fantasia na criação de trabalhos manuais. E Nise da Silveira pôde conferir de perto que a expressão plástica espontânea de seus pacientes clínicos, além de terapêutica, também fornecia subsídios para o estudo do processo psicótico. E mais, que alguns de seus clientes eram capazes de produzir verdadeiras obras de arte, validadas por críticos, como Mário Pedrosa e Ferreira Gullar.

A coleção do Museu é curiosa para um leigo e desperta o interesse acadêmico dos especialistas, sejam eles do ramo das artes plásticas ou da psicologia e psiquiatria. São séries de mandalas, figuras mitológicas, entre outras imagens, registradas em telas, pinturas, desenhos e esculturas que nunca foram postas a venda. Desde 1968, um grupo de estudos do museu tem como objetivo principal o acompanhamento do processo psicótico através de imagens apresentadas em exposições. Com caráter interdisciplinar, os encontros possibilitam o intercâmbio entre experiência clínica, conhecimentos teóricos de psicologia e psiquiatria, antropologia cultural, história, arte e educação.

Numa época em que a terapia por eletrochoque era uma das práticas mais comuns no tratamento de transtornos mentais, um encontro modificou a vida de vários dos internos do hospital psiquiátrico. Motivado pela exposição de trabalhos manuais promovida pela psiquiatra Nise da Silveira, Almir Mavignier, contratado com artífice do hospital e iniciando no mundo das artes plásticas, sugeriu, em 1946, a criação de um ateliê de pintura e modelagem dentro do Centro Psiquiátrico. A ideia foi ao encontro de um antigo desejo da médica, que o autorizou a montar o ateliê e um espaço ao lado para produzir suas próprias pinturas. O artista começou, então, a selecionar participantes entre os pacientes, sobretudo aqueles que já desenvolviam alguma forma de expressão.

Depois de iniciada a produção, Mavignier convidou artistas plásticos para conhecerem os trabalhos dos internos. Abraham Palatnik, Ivan Serpa, Ligia Pape, além do crítico Mário Pedrosa, visitaram o Ateliê de Pintura do Engenho de Dentro e se impactaram com o que viram. O artista Ivan Serpa frequentava semanalmente e chegou a produzir obras no local. Palatnik, precursor mundial da arte cinética, disse certa vez que as visitas ao Engenho de Dentro demoliram suas convicções em relação à arte.

Entre os artistas descobertos por Mavignier e acompanhados por Nise está Emygdio de Barros, reconhecido como um gênio da pintura pelo poeta Ferreira Gullar. Também se destacaram as obras de Fernando Diniz, Adelina Gomes, Carlos Pertuis, entre outros.

Em 20 de maio de 1952 foi inaugurado o Museu de Imagens do Inconsciente reunindo as obras criadas no Ateliê. A idéia era oferecer ao pesquisador condições para o estudo de imagens e símbolos e para o acompanhamento da evolução de casos clínicos através da produção plástica espontânea. Vinculado aos ateliês de pintura e de modelagem, o espaço recebe novos documentos plásticos diariamente.

Por meio do projeto “Almir Mavignier e o Ateliê de Pintura do Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro”, coordenado por Lucia Reily, arte-educadora e professora da Faculdade de Ciências Médias e do Instituto de Artes da Unicamp, com apoio técnico de José Otávio Pompeu e Silva, professor do curso de terapia ocupacional da UFRJ, e patrocínio da Petrobras, parte importante desta história será preservada. A iniciativa pretende registrar a passagem do artista plástico brasileiro radicado na Alemanha como monitor de pintura do Ateliê e os bastidores de seus primórdios.

De acordo com José Otávio, foi executado um minucioso trabalho de pesquisa, iniciado em 2008, que levantou dados e material da época em museus, bibliotecas e cinematecas, além de entrevistas com estudiosos do assunto. O próximo passo será a digitalização de material bruto de entrevistas e fotos do período, que integrarão uma caixa de DVDs para consulta de futuros pesquisadores. O trabalho renderá também a publicação de um livro ilustrado editado em português e inglês, a produção de um DVD memorial de 25 minutos (200 cópias), uma exposição com as obras do Museu de Imagens do Inconsciente sob a perspectiva do artista Almir Mavignier e, ainda, um simpósio que está sendo planejado para o segundo semestre de 2011. O projeto conta com uma equipe de 20 pesquisadores, entre graduandos, alunos de pós-graduação e professores das áreas de saúde, arte e comunicação.

– Além de entrevistas gravadas em vídeo, trocamos cartas, emails e encontramos Almir Mavignier três vezes, realizando uma entrevista de 6 horas de duração, que utilizamos como base para o livro sobre esta história. Mavignier conta que o ateliê do Engenho de Dentro foi sua grande escola e que 0 que aprendeu com esta experiência, na década de 40 do século passado, ele usou na sua longa jornada como professor e artista na Alemanha – lembra José Otávio.

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