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Presidente da Petrobras fala à revista Época

O presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli de Azevedo concedeu entrevista ao site da revista Época. Entre outros assuntos, Gabrielli analisou a crise econômica na Europa e nos Estados Unidos, as oportunidades para o Brasil e para a Petrobras, o preço da gasolina e a gestão da Companhia diante de seus diversos públicos de interesse. Leia a transcrição da entrevista:

Repórter: Como a crise internacional afeta o petróleo?

Gabrielli: É uma resposta muito difícil porque há algumas características dessa crise agora que são ainda muito incertas. O primeiro elemento é que a crise na Europa é mais grave do que nos Estados Unidos. Qual é o problema central na crise europeia? A capacidade da política fiscal de cada país para enfrentar o déficit e a dívida pública está no limite como instrumento efetivo de ação dos governos. Os governos europeus já tinham abandonado o uso da política monetária nacional, uma vez que têm moeda única e, portanto, a lógica da política monetária europeia é uma lógica de concertação entre países. Quando os países estão em estágios distintos de crise – a situação da Alemanha, por exemplo, é completamente distinta da situação da Grécia –, isto faz com que a disputa sobre o melhor caminho faça com que as respostas monetárias sejam mais lentas. À medida que a resposta de política monetária é mais lenta, você tem um fenômeno de credibilidade na capacidade de os Estados cumprirem suas obrigações.

Repórter: O senhor acha que a crise da Europa é uma crise de credibilidade?

Gabrielli: Eu acho que sim. Na medida em que esses países mantêm taxas de juros baixas porque não podem aumentar os juros para não provocar uma recessão ainda mais profunda. Isso faz com que os capitais excedentes, entre os agentes que tem excedentes de recursos monetários e financeiros, busquem aplicações que têm mais retorno e um mínimo de segurança. Essa seletividade busca aplicações mais seguras, como o ouro.

Repórter: Você acha que nessa busca pela qualidade, no momento de crise, as commodities podem ser beneficiadas? O petróleo especificamente?

Gabrielli: Acho difícil falar em commodities em geral, mas o petróleo em particular, sim. Petróleo é uma quase moeda hoje. É uma commodity que tem um componente financeiro muito grande em seu preço.

Repórter: Para o bem e para o mal?

Gabrielli: Sim, para o bem e para o mal. Por outro lado, nos EUA a situação é diferente, mas há uma coisa comum com a Europa. O problema que levou à variação do rating (classificação de risco de crédito) dos EUA foi o risco político. É a dificuldade dos Democratas e Republicanos de encontrarem um caminho para resolver uma alternativa de médio prazo para enfrentar as questões do déficit público e da dívida pública americana, que está chegando a 85/90% do PIB. Evidente que a economia americana não é a economia europeia. A economia norte-americana tem um dinamismo e capacidade de resposta maior, portanto, ela pode surpreender. É muito difícil precisar uma resposta, com tantas incógnitas para se definir. O fato é que o Brasil está muito bem. O País tem uma economia que está crescendo fortemente, puxada pelo mercado interno. Hoje o Brasil não tem um problema de expectativa de crescimento, temos flexibilidade na política monetária, ou seja, temos uma taxa de juros muito alta que pode ser ajustada. Podemos ajustar também a política fiscal, seja por estímulos à demanda agregada ou pelo aumento de impostos em determinados setores. Temos muito mais instrumentos hoje do que os Estados Unidos e a Europa e o mercado está vendo isso. Por isso, o Brasil está com o real tão apreciado. O país cresce, o mercado de trabalho está aquecido. Portanto, é outro quadro. Nós somos um alvo potencial de quem busca aplicações neste momento.

Repórter: Para a Petrobras, então, a crise não é um problema?

Gabrielli: Provavelmente, a Petrobras não passará imune, dependendo da profundidade da crise. Mas pode ser até uma coisa positiva. Qual é a dificuldade que nós vamos ter? Provavelmente na captação de recursos. A Petrobras prevê captar entre US$ 67 bilhões e US$ 91 bilhões. Se o preço do petróleo ficar em torno de US$ 80, vai ser US$ 91 bilhões. Se ficar em US$ 95, vai ser US$ 67 bilhões.

Repórter: Essa captação será feita por meio de quais instrumentos?

Gabrielli: São vários instrumentos: emissão de bonds no mercado, principalmente lá fora. A Petrobras vai fazer captação com agências de promoção de exportação; captações com bancos de desenvolvimento; captações com bancos comerciais. O que a Companhia não vai fazer é emissão de ações. Isso está fora do Plano em decisão tomada pelo Conselho de Administração da Petrobras. A Petrobras vai vender ativos.

Repórter: A questão de emissões de ações foi discutida?

Gabrielli: Claro.

Repórter: Em virtude do cenário internacional?

Gabrielli: Não. Em razão da capitalização feita pela Petrobras no ano passado. A Companhia fez a maior capitalização da história no mundo. Ao fazer essa capitalização, a Petrobras colocou um volume enorme de ações novas no mercado que precisam levar um tempo para serem absorvidas e estruturar o portfólio de todos os agentes que aplicaram. Dessa capitalização, a Petrobras tem, hoje, em caixa, US$ 26 bilhões. Portanto, não temos nenhum problema de urgência de captação. Temos um programa de desinvestimento de US$ 13,6 bilhões. A Petrobras vai gerar, das atividades regulares, após pagar dividendos, entre US$ 125 bilhões e US$ 148,9 bilhões, nas duas faixas de preço citadas.

Repórter: Esse valor é de faturamento?

Gabrielli: Faturamento. As vendas da Companhia, depois do pagamento de custos e depois do pagamento de dividendos.

Repórter: O plano de investir US$ 224 bilhões até 2015 não muda?

Gabrielli: Não tem mudanças.

Repórter: Na questão do desinvestimento, é desinvestimento e reestruturação? São US$13 bilhões?

Gabrielli: US$13,6.

Repórter: O que está dentro desses US$13,6?

Gabrielli: Existem três tipos de aplicações. Primeiro, uma tradicional que as empresas de petróleo fazem, que é a venda de participação em blocos exploratórios e blocos de exploração. Chama-se farm in e farm out. A Petrobras venderá participações em blocos de exploração para sócios que tenham interesse em ser parceiros da Companhia no risco exploratório.

Repórter: Já se sabem quais são os blocos?

Gabrielli: Não. A Petrobras tem vários blocos, mas, não os divulga no momento. Esse não é pré-sal. Será, principalmente, no exterior. A Petrobras está, hoje, em 27 Países.

Repórter: Não teria venda de participação em blocos no Brasil?

Gabrielli: Também, no Brasil mas, principalmente, fora. Não posso entrar em detalhes. O segundo tipo de ativos são as ações que a Petrobras possui. A Companhia tem ações de diversas empresas, em várias áreas.

Repórter: Você fala de empresas e grupo conglomerado?

Gabrielli: Não. A Petrobras participa várias empresas, elétricas, de gás…

Repórter: São quantas empresas?

Gabrielli: O sistema Petrobras tem, hoje, 289 empresas diretamente controladas, coligadas e subsidiárias. O terceiro é a reestruturação do portfólio financeiro da Petrobras. Basicamente são dois tipos de coisa: a substituição de garantia financeira, monetária, por garantia bancária ou de seguro. Com isso, libera-se recursos de caixa, para utilizar no investimento e, uma redução de pagamentos feitos para os fornecedores, antes da conclusão do trabalho.

Repórter: Uma revisão de contrato?

Gabrielli: Não. A Petrobras tem um navio que vai levar 5 anos. A medida em que o navio vai completando uma parcela, a companhia vai pagando. O que a Petrobras faz, agora: ela montou, com bancos brasileiros: Banco do Brasil, Caixa, Itaú, Bradesco, HSBC e o Santander, um programa chamado Progredir. Esse programa busca estimular que os fornecedores da Petrobras vão a esses bancos e tomem os recursos emprestados para usar durante a fase de produção deles. Na medida em que eles completam, ao em vez da Petrobras pagar ao primeiro fornecedor, a Companhia paga ao primeiro fornecedor uma parcela, ao fornecedor dele uma outra parcela, ao fornecedor do fornecedor uma outra parcela, até o quarto fornecedor. Com isso a Petrobras poderá atingir 255 mil empresas que sem contrato com a Petrobras, vão usar o contrato da Petrobras, para garantir ao banco que ele paga o recurso, portanto sua a taxa de juros cai.

Repórter: No final o interesse é para a Petrobras reduzir os seus custos?

Gabrielli: Claro, mas não imediatamente. É uma cadeia. Mas o ganho principal da Petrobras é que a Companhia não precisará pegar o seu recurso financeiro, durante esse período e mobilizar, porque isso será bancado pelos bancos. Eles entram com o dinheiro. A Petrobras entra com a garantia de entrar com o próprio dinheiro. Já existem hoje operações 40% mais baratas para O fornecedor. Estes 40% dizem respeito ao gasto financeiro do fornecedor. Isso envolve os seis principais bancos comerciais do Brasil.

Repórter: Dentro dos investimentos, haverá venda de participação na área de gás?

Gabrielli: Também, mas não vou dizer quais. A Petrobras tem dois anos e meio para lançar esse programa.

Repórter: Como fica o preço da gasolina?

Gabrielli: O preço da gasolina no Brasil não pode ser desconectado do preço da gasolina e do petróleo no mercado internacional. Por uma razão muito simples: o mercado brasileiro é aberto. O mercado brasileiro tem mais de 250 distribuidoras. A Petrobras tem 38% do mercado de distribuição; 62% estão com outras distribuidoras. Essas distribuidoras não têm nenhuma obrigação de comprar produtos da Petrobras. A Petrobras tem 100% do refino. Se a Petrobras mantiver os preços da gasolina e do diesel acima dos preços do mercado internacional por muito tempo e a perspectiva dos preços no mercado internacional for de estabilidade, o que vai acontecer com a distribuidora? Ela vai comprar fora e vai trazer para cá. Foi o que aconteceu em 2010, quando houve importações grandes.

Repórter: Direto pelas distribuidoras?

Gabrielli: Sim, principalmente, no Norte e Nordeste, onde a Petrobras não tem refinaria. Dezenove por cento (19%) do mercado está lá.

Repórter: Importou principalmente de onde?

Gabrielli: O mundo todo tem produto. E se mantivermos abaixo do preço internacional por muito tempo e o preço no exterior apontar para uma certa estabilidade, a distribuidora vai comprar da Petrobras e vai exportar. Então, no longo prazo, por razões econômicas, você tende a ter uma convergência. Qual é o momento de fazer o ajuste, que é a pergunta que todo mundo faz? Depende da volatilidade esperada da taxa de câmbio, depende da volatilidade esperada da variação do preço do petróleo. Esse conjunto de coisas tem que ser observado todo dia. A gasolina sai da refinaria da Petrobras, desde maio de 2009, a R$1,05 por litro. Quando chega na bomba, tem impostos e a margem do distribuidor e a margem do posto, que não é da Petrobras.

Repórter: Analistas do mercado financeiro afirmam que a manutenção artificial do preço da gasolina afeta os papéis da Petrobras o que é ruim para o mercado.

Gabrielli: Evidentemente, o mercado reage sempre do lado mais sensível para ele. No momento em que o preço está acima do preço internacional, ele não reclama, é óbvio. Ele reclama quando está abaixo do preço internacional.

Repórter: Quando ficou acima?

Gabrielli: Durante todo o ano de 2009 e início de 2010, ficou acima. Hoje está abaixo, mas o preço internacional está muito volátil. A taxa de cambio sofreu uma variação enorme. As pessoas são muito sensíveis ao preço da gasolina. O mundo político gosta muito do preço da gasolina, a imprensa gosta muito do preço da gasolina.

Repórter: O senhor vê uma certa exploração as vezes…

Gabrielli: Claro, tanto por parte do governo quanto da oposição. Os dois lados falam do preço da gasolina.

Repórter: O governo também?

Gabrielli: Claro, o governo diz que não vai mudar, que vai segurar, diz que vai segurar porque é importante segurar, senão o pessoal sente no bolso.

Repórter: O Brasil passou do 18º para o 13º no ranking de produção de petróleo. Com o pré-sal o País pode chegar em qual posição?

Gabrielli: É difícil dizer. Os novos barris de petróleo que serão adicionados à produção mundial são oriundos de duas fontes: de uma melhoria da recuperação, dos poços existentes e de novas descobertas. A maior parte dos novos barris vem da recuperação de poços existentes.

Repórter: Como funciona isso?

Gabrielli: Muda tecnologia, perfura novos poços em áreas já descobertas. 1/3 do novo petróleo vem de descobertas. Nas descobertas, o Brasil é o maior contribuinte para o futuro. Entre as empresas, no que se refere ao futuro, é muito claro que a nova fronteira de exploração de petróleo no mundo é em águas profundas. Nas águas profundas, a Petrobras é, disparadamente, a maior do mundo. Três vezes maior que a segunda. Somadas a segunda, terceira e a quarta, juntas, são menores que a Petrobras, em termos de número de plataformas de produção hoje existentes. Portanto, a Petrobras será muito importante na adição de novos barris de petróleo para o futuro. A duplicação das reservas da Petrobras é uma coisa que já está consolidada, praticamente.

Repórter: Que ano?

Gabrielli: Até 2020. A Petrobras também vai triplicar a produção no Brasil.

Repórter: Tem como fazer uma estimativa hoje?

Gabrielli: Não. Depende do que os outros vão crescer. A Petrobras será a que mais vai crescer. Nos últimos 30 anos, a Petrobras cresceu, em média, 10% ao ano. A média dos outros é muito menor. A Petrobras cresceu porque descobriu novas reservas. A Companhia saiu da terra, foi para águas rasas, das águas rasas, foi para águas profundas e agora, a Petrobras descobriu o pré-sal. A Petrobras pretende crescer 9% por ano, até 2020.

Repórter: Isso ajuda a fortalecer a posição geopolítica brasileira?

Gabrielli: Fortalecer não sei dizer. Entretanto muda a posição geopolítica sim. O país será uma fonte extremamente importante de fornecimento de petróleo para o mundo. Atualmente exportamos em torno de 586 mil barris por dia. A produção total é dois milhões. Em 2020 a Petrobras irá exportar 2,3 milhões de barris.

Repórter: A Petrobras chegará a exportar mais do que consome?

Gabrielli: A Companhia já exporta porque a produção é maior do que consumo.

Repórter: Qual o consumo interno do País.

Gabrielli: 2,2 milhões de barris por dia.

Repórter: Exporta 580. Vai chegar ao ponto nominal de o País exportar mais do que consome?

Gabrielli: Não. Em 2020 a Petrobras vai exportar 2,3 milhões de barris e seu consumo será 3 milhões de barris.

Repórter: Seremos um dos principais exportadores?

Gabrielli: Não sei dizer. O que é importante dizer é que o mercado brasileiro consome hoje 2,2 milhões de barris por dia. O Brasil está no segundo grupo de países consumidores de petróleo no mundo. Só existem quatro que consomem mais de 3 milhões de barris/dia: EUA, Japão, Índia e China.

Repórter: Não dá para ter uma estimativa?

Gabrielli: O que é relevante é que enquanto na Europa, Japão e EUA cai a demanda de petróleo por per capta, o Brasil, a China, a Índia a África, América do Sul e os antigos Países da URSS cresce. Essa é a grande mudança significativa no mercado de petróleo do mundo. O consumo per capita de produtos derivados de petróleo, dos países emergentes está em crescimento.

Repórter: Esse declínio é estagnação econômica ou é fonte alternativa?

Gabrielli: É o declínio da estagnação econômica. A distribuição de renda atingiu um patamar bastante alto. A saída da pobreza é intensiva em energia. Existe um processo de substituição mais acelerado de intensificação da eficiência energética mais acelerada.

Repórter: O que a Petrobras pode fazer para ajudar no País no momento de crise?

Gabrielli: A Petrobras, hoje, é a empresa que mais cresce no Brasil, que mais compra, anunciou o maior plano de investimentos do mundo, é a segunda exportadora do Brasil é, talvez, a maior pagadora de impostos do Brasil. No programa da Petrobras tem uma cadeia de fornecedores que envolve 1 milhão de postos de trabalho. A Companhia está fazendo um enorme investimento na montagem de uma rede nacional de pesquisa de desenvolvimento nas universidades brasileiras. A Petrobras é a maior treinadora de mão de obra do País, junto com o Prominp, Programa de Formação de Mão de Obra para Indústria do Petróleo, treinando 280 mil profissionais para a cadeia de fornecedores de petróleo e gás. A Petrobras é a maior financiadora da cultura brasileira e dos programas sociais do Brasil. A Companhia tem o maior programa de apoio a programas ambientais do País.

Repórter: Existe intervenção do governo na gestão da Petrobras?

Gabrielli: O Conselho de Administração da Petrobras, que é um conselho ativo e que se reúne mensalmente, define os pontos estratégicos e as decisões-chave da empresa. E o governo tem a maioria no conselho. Então é óbvio que tem influência, como os acionistas controladores de todas as empresas fazem.

Repórter: No aspecto político existe isso?

Gabrielli: O que há é um alinhamento de longo prazo dos interesses dos acionistas não controladores com o governo. O governo quer que a Petrobras cresça, que a Petrobras gere lucro, que a Petrobras permita que o mercado seja estável, que a Petrobras tenha fluxo de caixa mais estável, que pague bons dividendos. Agora, é claro que o governo não quer que a Petrobras perturbe o mercado, que a Petrobras não crie problemas. Por isso é que temos de ser um pouco esquizofrênicos, temos de combinar ambos os interesses e andar numa linha fina de ajuste de uma empresa que tem múltiplos interesses. A Petrobras é uma empresa com uma enorme relação com a sociedade brasileira. A Companhia tem uma força de trabalho forte, poderosa, eficiente, competente e com um movimento sindical forte. A Petrobras tem que atender as autoridades políticas do País porque a Companhia tem atividades em três mil municípios do País. A Petrobras é a principal arrecadadora de impostos de todos os estados brasileiros. A Petrobras tem uma relação direta com a máquina pública. A Petrobras tem que atender aos acionistas. A Petrobras tem milhares de fornecedores. A Petrobras tem clientes da Companhia e da Petrobras distribuidora, que tem 7000 postos de distribuição de gasolina, diesel e derivados, que tem relação direta com os consumidores. A Petrobras tem uma demanda direta com o mundo artístico, esportivo, das ONGs. A Petrobras tem que se equilibrar entre todos esses interesses.

Repórter: O país vive uma série de escândalos relacionados ao loteamento político de cargos. Há loteamento de cargos na Petrobras?

Gabrielli: A diretoria da Petrobras é, basicamente, a mesma há oito anos. Da diretoria da Petrobras, o único terceirizado é o presidente. Agora, dizer que não tem influência política… Você acha que a Exxon atua de forma diferente do governo americano? Que a BP atua de forma diferenciada do que o governo inglês quer? Que a Total atua de forma diferente do que o governo francês quer? Nos Estados Unidos, as empresas não negociam com o governo, mas não destoam nas grandes questões políticas. Mas é claro que, no dia a dia, sim, como também a Petrobras.

Repórter: A Petrobras destoa do governo? Em que assuntos?

Gabrielli: Em alguns detalhes, sim. Nós temos, por obrigação fiduciária viabilizar coisas que não dão prejuízo, por exemplo. Como gestores, nós respondemos como pessoas físicas. Não podemos fazer nada que dê prejuízo à companhia.

Repórter: Já houve algum pedido que a Companhia entendeu que teria prejuízo?

Gabrielli: Às vezes, você tem projetos que não são viáveis economicamente, mas há a pressão da opinião pública, da sociedade à qual você tem de resistir.

Repórter: Pressão do governo também?

Gabrielli: Também, mas eu diria que não é o dominante. Nós temos em nosso portfólio mais de 3 mil projetos, sendo 688 com mais de US$ 25 milhões. E são projetos que adicionam valor. Em oito anos, a Petrobras saiu de US$ 14 bilhões de valor de mercado para US$ 258 bilhões hoje. Você não adiciona valor se tiver projeto dominante sem rentabilidade. Então, você tem de ter uma gestão que leve em conta esse conjunto de interesses que eu mencionei. Nós somos uma empresa que tem múltiplos grupos de interesse. E você tem de atender uma posição que represente a maioria desses grupos, que às vezes são contraditórios, são conflitantes.

Repórter: Você já teve que dizer não para algum tipo de projeto?

Gabrielli: Já. Cito o exemplo do projeto da siderúrgica do Ceará, por exemplo. A solução que o Ceará encontrou é melhor do que a anterior, que é uma siderúrgica mais adequada para a disponibilidade de recursos que o Ceará tem.

Repórter: E pedidos da base aliada do governo?

Gabrielli: Isso não tem, não existe. A coisa do varejo é irrelevante. A Petrobras passou por uma CPI ano passado que chegou a suas conclusões.

Repórter: Como é sua relação com a presidente Dilma?

Gabrielli: É uma relação de trabalho excelente nos últimos oito anos e meio, porque começamos a trabalhar ainda na transição. Como numa relação de duas pessoas que se respeitam, duas pessoas que têm posições firmes, são relações que em certos momentos são mais amorosas e em outros momentos mais odiosas, o que é absolutamente normal. No dominante, é uma relação extremamente positiva: eu tenho muito respeito à presidenta Dilma e acredito que ela também tenha respeito a mim. Neste momento eu tenho de obedecer à presidenta, ela é minha chefa. Neste momento, ela estará certa sempre. Ela foi presidente do Conselho por sete anos.

Repórter: Ela já gritou com o senhor?

Gabrielli: Ela gritou, mas não é verdade que eu chorei, muito menos no banheiro, como andaram publicando. Mas que ela já gritou comigo, já. E eu já gritei com ela também. Hoje eu não posso gritar porque ela é minha chefa.

Repórter: É mais fácil administrar a Petrobras no governo Dilma ou no governo Lula? Existe essa diferença?

Gabrielli: Não tem muita diferença. O Conselho é praticamente o mesmo. O que mudou foi a saída da presidenta Dilma, entrou o Guido Mantega como presidente e agora o Palocci que ficou uma reunião e entrou a Miriam Belchior.

Repórter: A Petrobras é melhor administrada no governo PT do que foi no governo Fernando Henrique?

Gabrielli: Não diria que é melhor administrada porque não posso falar de mim. Nos últimos oito anos a Companhia deu um salto de qualidade em algumas direções importantes: primeiro, a Companhia fortaleceu o sistema Petrobras, diminuindo a fragmentação do período anterior. Segundo, a Petrobras foi muito mais ativa na atividade de exploração e produção, particularmente, na atividade exploratória, aumentando o portfólio exploratório. Terceiro, a Companhia voltou, firmemente, a investir no crescimento da capacidade refino, quarto, a Petrobras diversificou as atividades na área de gás e energia, quanto na área de biocombustíveis. Quinto, a Companhia consolidou uma política de relação com a sociedade, valorizando os processos mais transparentes e mais competitivos do acesso aos recursos para o apoio a cultura, aos recursos para projetos sociais, esportes e as questões ambientais. Sexto, a Petrobras redefiniu o seu modelo de negócios, de tal maneira que a Companhia enfatizou a organização em unidades operacionais, voltadas para a produção, separou, novos projetos de operações com a produção corrente, com isso, deu um foco grande aos investimentos e ela aumentou, substancialmente, o volume de investimentos, com a perspectiva de crescer. A Petrobras saiu de um investimento médio anual de US$ 5 bilhões, em 2003, para investir, em 2010, US$43 bilhões. Hoje, 52% da força de trabalho da Petrobras tem menos de dez anos na Companhia, 46% com mais de vinte anos e 3% entre dez e vinte anos.

Repórter: E seus planos políticos?

Gabrielli: Pode escrever aí de forma peremptória: não serei candidato em 2012. Não há a menor possibilidade de José Gabrielli ser candidato em 2012.

Repórter: Fica na Petrobras?

Gabrielli: Não sei. Eu posso ser demitido a qualquer momento.

Repórter: E em 2014?

Gabrielli: Está muito longe ainda para decidir.

9 comentários 15 de agosto de 2011 / 16:55

Presidente da Petrobras responde aos leitores do blog

Assista à entrevista com o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli de Azevedo, criada a partir de perguntas dos leitores do blog Fatos e Dados. Em cada bloco, Gabrielli fala sobre diferentes temas do Plano de Negócios para o período 2011-2015, como estratégias para retenção de talentos na Companhia, biocombustíveis, desinvestimento e exploração do pré-sal, entre outros tópicos.

Estratégias

Derivados e Refino

Investimentos específicos

Perspectivas

12 comentários 12 de agosto de 2011 / 12:37

US$ 13,2 bilhões previstos na área de Gás e Energia

A diretora de Gás e Energia da Petrobras, Graça Foster, detalhou na tarde desta terça-feira (09/08) os investimentos de US$ 13,2 bilhões previstos para o período entre 2011 e 2015 na área de Gás e Energia. Destes, especificou, US$ 12,9 bilhões serão investidos no Brasil. Graça ressaltou que a sua área tem como objetivo para o período obter o “resultado econômico máximo com o mínimo de investimento possível”. O Plano de Negócios da Petrobras prevê, ao todo, US$ 224,7 bilhões de investimentos entre este ano e 2015.

Graça lembrou que a Companhia já fechou o ciclo da malha de transporte de gás natural, que consumiu recursos de US$ 15 bilhões. A maior parcela dos recursos (US$ 5,9 bilhões) será destinada à conversão de gás natural em ureia, amônia, metanol e outros produtos usados para produção de fertilizantes. Outra grande parte do orçamento (US$ 3,4 bilhões), revelou a diretora, será direcionada para novos pontos de entrega de gás natural e gestão junto às distribuidoras, com objetivo de aumentar as vendas.

“Existem 27 companhias distribuidoras (estaduais) de gás no Brasil e a Petrobras têm participação em 21 delas”, enumerou Graça. Além disso, US$ 2,8 bilhões serão investidos na geração de energia termelétrica e US$ 800 milhões serão destinados à cadeia de Gás Natural Liquefeito (GNL) – regaseificação e liquefação – para escoamento do gás do pré-sal e atendimento do mercado termelétrico. “Temos tido, no pré-sal, resultados cada vez melhores”, comemorou Graça, ressaltando a correlação da sua área com a área de Exploração e Produção, que fornece o gás.

Em 2015, está previsto o fornecimento, por parte da área de Exploração e Produção, de 78 milhões de m³ por dia. Esse volume, em função do crescimento da produção de óleo e gás previsto pela Companhia, subirá para 102 milhões m³ por dia em 2020. Esse montante representa grande parte da oferta de gás natural no País. A diretora também falou da oferta e demanda totais por gás natural atualmente. “Prevemos ter 10 milhões de metros cúbicos por dia de oferta acima da demanda em 2011”. A demanda este ano está prevista para alcançar 96 milhões de metros cúbicos por dia.

Por fim, a diretora listou os principais projetos da carteira de G&E. Entre eles estão o Terminal de Regaseificação da Bahia, com capacidade de 14 milhões de metros cúbicos por dia, previsto para entrar em operação em janeiro de 2014; a Usina Termelétrica Baixada Fluminense, com capacidade de geração de 512 MW, prevista para entrar em operação em março de 2014; a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN III), que produzirá 1,2 milhão de toneladas por ano de ureia, além de 81 mil toneladas por ano de amônia, e entrará em operação em setembro de 2014; o Complexo Gasquímico (UFN IV), que produzirá ureia, melamina, ácido acético, ácido fórmico e metanol e entrará em operação em junho de 2017, a Planta de Amônia (UFN V), cuja operação está prevista para ser iniciada em setembro de 2015.

Os investimentos na área de fertilizantes permitirão ao País alcançar a autossuficência em amônia em 2015 (hoje o Brasil importa 53% do que consome), reduzir a 28% a dependência da ureia importada também em 2015 (atualmente 53% do que é consumido é importado) e a 20%, em 2017, a importação do metanol – hoje 68% do que é consumido no País vem de fora.

Adicionar comentário 10 de agosto de 2011 / 09:56

Leitores do blog entrevistam presidente da Petrobras

A partir desta quarta-feira (03/08), os leitores  do blog Fatos e Dados podem enviar perguntas ao presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, sobre o Plano de Negócios da Companhia para o período 2011-2015.

Divulgado recentemente, o Plano prevê investimentos de US$ 224,7 bilhões (R$ 389 bilhões) e contempla um total de 688 projetos. Diante do cenário promissor de descobertas em águas profundas no Brasil, o Plano foi elaborado em um contexto de crescente demanda mundial por energia, notadamente pelo petróleo, e concentra aportes no segmento de Exploração e Produção que representam 57% do total.

Não haverá nova capitalização e os recursos adicionais necessários para o financiamento do Plano não contemplam emissão de ações – eles serão captados junto às diversas fontes de financiamento a que a Companhia tem acesso no Brasil e no exterior.

O Plano prevê também um crescimento vigoroso na demanda de derivados do mercado brasileiro. A expectativa é de intensificar as atividades no desenvolvimento da produção e duplicar as reservas provadas até 2020. O crescimento do pré-sal deve ser o principal vetor para o crescimento da empresa no futuro.

Até 23h59 do próximo domingo (07/08), os leitores podem enviar suas perguntas pela seção de comentários deste post. As dez melhores serão selecionadas e respondidas pelo presidente, em vídeo, posteriormente. Participe!

123 comentários 3 de agosto de 2011 / 10:16

Presidente da Petrobras Distribuidora responde aos leitores do blog

A Petrobras Distribuidora completa 40 anos em 2011.  Para comemorar este marco, o Blog Fatos e Dados traz uma entrevista participativa com o presidente da subsidiária, José Lima de Andrade Neto.

Foram selecionadas as dez melhores perguntas enviadas pelos leitores do blog. A entrevista está dividida em blocos temáticos: o primeiro explica a influência da entressafra no preço dos combustíveis, o segundo mostra programas e iniciativas da Petrobras Distribuidora e traços da carreira do presidente e o último trata dos desafios e do futuro. Confira!

Bloco 2: Iniciativas e carreira

Bloco 3: Futuro e desafios

Agradecemos a participação de todos!

23 comentários 4 de julho de 2011 / 16:02

Entrevista participativa com o presidente da Petrobras Distribuidora

A partir desta terça (21/06) e até o próximo domingo (27/06), os leitores do Fatos e Dados terão a oportunidade de entrevistar o presidente da Petrobras Distribuidora, José Lima de Andrade Neto. As perguntas devem ser enviadas até as 23h59 de domingo, pela seção de comentários. As dez melhores serão selecionadas e respondidas pelo presidente. Participe!

Engenheiro Químico formado pela Universidade Federal de Sergipe (1976), especialista em Engenharia de Petróleo e Mestre em Engenharia de Petróleo pela Colorado School of Mines – EUA (1983),  Lima exerce o cargo de Presidente da Petrobras Distribuidora desde 2009. O executivo atua como Presidente do Conselho de Administração da Liquigás, é membro do Conselho de Administração do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis  (IBP) e membro do Conselho Consultivo do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíves e Lubrificantes (Sindicom).

Petrobras Distribuidora – Líder do setor, a subsidiária da Petrobras  atua na distribuição, comercialização e industrialização de produtos de petróleo e derivados, além de atividades de importação e exportação. Nas ruas e nas estradas brasileiras, a empresa tem mais de 7.000 postos de combustíveis, constituindo a maior rede de postos em todo o território nacional.

30 comentários 21 de junho de 2011 / 12:00

Inovar para crescer: entrevista com gerente executivo do Cenpes, Carlos Tadeu Fraga

Grande tema da Offshore Technology Conference, a exploração e produção de petróleo no mar é o principal ativo da Petrobras, a maior operadora do mundo em águas profundas, com cerca de 23% das operações. Esta liderança é resultado de um grande investimento em pesquisa e inovação, presente nos alicerces da Companhia desde sua fundação em 1953.

Quase seis décadas depois, o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Petrobras (Cenpes), após sua ampliação, consolida-se como um dos maiores centros de pesquisa aplicada do mundo e segue em busca de soluções tecnológicas para prospecção de petróleo em ambientes cada vez mais desafiadores. Uma trajetória que, para o gerente executivo do Cenpes, Carlos Tadeu Fraga, guarda semelhanças com a jornada do homem para explorar o espaço. “É uma evolução fantástica e que tem enormes perspectivas de desenvolvimento”, diz.

Em entrevista especial à Agência Petrobras, Carlos Tadeu fala sobre a estratégia tecnológica da empresa, parcerias com instituições do exterior e a formação, no Brasil, de um polo de inteligência offshore.

Pergunta: Como se desenvolveu a tecnologia para exploração e produção de petróleo no mar nos últimos anos?

Resposta: A exploração e produção em ambientes marítimos teve evoluções fantásticas nas últimas décadas. E uma boa parte das tecnologias aplicadas atualmente no mundo nasceu de demandas da Petrobras. Há pouco mais de trinta anos, produzir petróleo em profundidades próximas a 300 metros era o limite da tecnologia. Hoje, somos capazes de produzir a três mil metros. E isso é resultado de um desenvolvimento tecnológico intenso que a Petrobras vem conduzindo, junto com fornecedores, universidades e outros parceiros, desde a década de 80. Nesta época, tínhamos feito descobertas muito significativas na Bacia de Campos e percebemos que não havia no mundo tecnologia para produzir essas reservas. Em vez de retroceder, avançamos na busca por soluções tecnológicas inovadoras. Para isso, criamos em 1986 o Programa Tecnológico de Águas Profundas (Procap), com foco nos campos de Marlim e Albacora. Inovações nos equipamentos submarinos e também no conceito de plataformas flutuantes de produção nos levaram a atingir recordes mundiais de completação submarina: 492 metros no campo de Marimbá e 721 metros em Marlim. Quando consolidamos a tecnologia para produzir a até mil metros de lâmina d’água, iniciamos o Procap 2000, para suporte tecnológico à produção de Roncador e Marlim Sul. Foi nesta época que a Petrobras começou a se destacar na OTC: recebemos em 1992 o prêmio da Conferência por nossas contribuições tecnológicas à indústria petrolífera offshore. A partir daí desenvolvemos inovações como o primeiro bombeio centrífugo submerso submarino; a primeira ancoragem de plataforma feita totalmente por cabos poliéster; e a utilização pioneira de risers rígidos em plataformas semi-submersíveis. Depois de atingir novos recordes de lâmina d’água – como o marco de 1.877 metros em Roncador no ano 2000 – reformulamos o Procap para capacitar a empresa e seus fornecedores a produzir a até três mil metros, desenvolvendo as soluções necessárias para as fases ultra profundas de Marlim Sul e Roncador. Recebemos um novo prêmio OTC em 2001. Alguns destaques tecnológicos do início dos anos 2000 foram a ancoragem de plataformas por estacas torpedo; a separação submarina gás-líquido; o riser híbrido auto-sustentável e a primeira instalação de manifold pelo método pendular, entre outras inovações. Em 2003 registramos um novo recorde mundial: 1886 metros também no campo de Roncador.

Recentemente, em 2011, encerramos o Procap 3000. Foi um marco importante, quando chegamos à conclusão de que a profundidade da lâmina d’água é uma barreira superada. No Procap Visão Futuro, nova versão do programa, estamos enfatizando a busca por soluções que possam alterar significativamente o padrão atual de desenvolvimento de um campo em águas profundas. Entre as inovações em desenvolvimento está o uso intensivo de nanotecnologia e de sistemas submarinos de processamento da produção. Esse é o novo passo dessa fantástica jornada.

Pergunta: Como esse desenvolvimento se reflete no negócio?

Resposta: Quando o Procap foi criado, em 1986, a produção de petróleo da Petrobras era de cerca de 570 mil barris/dia, sendo cerca de 70% no mar. Em 2000, após todos os avanços conquistados no Procap 1000 e 2000, já produzíamos cerca 1,2 milhão de barris de petróleo por dia, sendo mais de 1 milhão no mar. Ao encerrar 2010, com todos os avanços das três etapas do Procap, a Petrobras ultrapassou o marco de 2 milhões de barris diários, sendo quase 1,8 milhão no mar. Se analisarmos as reservas provadas, o salto também é impressionante: de cerca de 3,6 bilhões de barris em 1986 para quase 16 bilhões de barris de óleo equivalente em 2010 (incluindo petróleo, gás natural e LGN, pelo critério SPE). Tudo indica que continuaremos atingindo resultados progressivamente maiores. E se olharmos para as demais áreas de atuação da companhia, no refino e distribuição de derivados, na produção de biocombustíveis, os números também crescem. E um desenvolvimento tecnológico robusto continua sendo fundamental para esse crescimento sustentável, como foi para construirmos essa história até aqui.

Pergunta: O Brasil vem tornando-se sede de diversos centros de pesquisa e desenvolvimento de empresas de petróleo e gás. Como você avalia esse movimento?

Resposta: Hoje temos no Brasil uma perspectiva de mercado muito positiva para esse setor. O volume de recursos que a Petrobras está investindo no Brasil em novos projetos, de todas as áreas, e notadamente no pré-sal, torna o país um excelente ambiente para negócios. Além disso, a política de incentivo ao conteúdo local que vem sendo adotada pelo governo torna mandatório que a Petrobras busque obter aqui no Brasil os bens e serviços que vai utilizar. Como nessa indústria a tecnologia será sempre fator fundamental, estamos diante de maiores oportunidades para a inovação. A Petrobras, então, entende que é fundamental a construção no Brasil de uma capacidade inovadora, de pesquisa, desenvolvimento, engenharia de produto, de porte equivalente a essas perspectivas de mercado. Isso passa a ser então uma condição central para qualquer ator participar desse potencial mercado. São bem vindos atores internacionais de grande porte que possam fazer parte desse cenário. Muitos já fabricam equipamentos aqui e fornecem bens e serviços para a Petrobras há anos, mas é fundamental que isso seja complementado por uma capacidade de P&D e engenharia aqui no Brasil.

São muito bem vindos também atores nacionais que queiram aproveitar esta grande janela de oportunidade. Este é o momento da Petrobras e do Brasil constituírem um polo tecnológico dos mais relevantes, se não o mais relevante do mundo na área de petróleo e gás, gerando soluções inovadoras para aplicação no Brasil e em outras partes do mundo; gerando oportunidades para jovens brasileiros, empregos de alto valor agregado; contribuindo assim para um mais acelerado desenvolvimento científico, tecnológico e social.

Pergunta: Podemos dizer que a chegada desses novos centros de pesquisa, somada à infraestrutura do Cenpes e das universidades parceiras da Petrobras, está consolidando um polo de inteligência offshore no Brasil?

Resposta: Sim. O Cenpes foi recentemente duplicado, tornando-se um dos maiores complexos de pesquisa aplicada do mundo. Além disso, a companhia tem se aliado a universidades e institutos de pesquisa brasileiros para construir uma capa¬cidade experimental de qualidade e porte compatíveis com as melhores referências internacionais. Desde 2006, investimos em média R$ 460 milhões anuais em universidades e institutos de pesquisa nacionais. Identificamos 50 temas estratégicos na área de petróleo e gás e para cada tema selecionamos potenciais colaboradores, formando redes temáticas. Hoje, já são cerca de 130 instituições nacionais de P&D trabalhando em parceria conosco. Considerando que não se faz pesquisa sem uma infraestrutura laboratorial de qualidade, os investimentos foram no início fortemente direcionados à construção de infraestrutura experimental, nessas instituições, adequada ao porte e à dimensão dos desafios da empresa. Hoje as universidades nacionais já contam com laboratórios entre os melhores do mundo e totalizam uma área construída equivalente a cerca de quatro vezes a área original do Cenpes. Estão capacitadas para desenvolver projetos de P&D complexos e estamos direcionando recursos para isso. E já temos obtido resultados concretos excepcionais.

A este movimento se agregam os fornecedores dos mais diversos portes, nacionais e internacionais, atraídos pela inteligência e infraestrutura construída na academia e na Petrobras. A Petrobras tem trabalhado para efetivar parcerias de longo prazo com alguns destes fornecedores, com ênfase na cooperação tecnológica e incentivando que estabeleçam relacionamento com instituições integrantes das redes temáticas. Somente no campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sete empresas estão implantando seus centros de P&D. A primeira foi a Schlumberger, uma das maiores fornecedoras de serviços especializados em exploração e produção do mundo, que, em 2010, inaugurou seu centro de pesquisa em geoengenharia. Também estão em processo de instalação os centros de P&D da Baker Hughes e da Halliburton, que atuam no mesmo segmento da Schlumberger; da FMC Technologies, uma das maiores fabricantes de equipamentos submarinos para produção de petróleo no mundo; da brasileira Usiminas, com foco em pesquisas de materiais para o pré-sal; da Tenaris Confab, uma das principais empresas na produção e fornecimento de tubos de aço soldados para indústria petrolífera; e da General Electric, grande fornecedor de compressores, turbinas e sistemas submarinos, e que também atua na área de energias renováveis.

Outro exemplo é a Cameron, empresa norte-americana fornecedora de equipamentos e sistemas para escoamento de petróleo e gás, que já anunciou a instalação de um centro de P&D no campus da Unicamp, em São Paulo. A IBM também inaugurou recentemente o Centro de Soluções para Recursos Naturais no Rio de Janeiro, para pesquisas nas áreas de petróleo e gás. Outras companhias estão em negociação com universidades, institutos de P&D brasileiros e com a Petrobras para identificar possibilidades de cooperação, incluindo a construção de infraestrutura experimental no Brasil. Também estão surgindo pequenas empresas de base tecnológica, que começam a atuar no mercado fornecendo soluções tecnológicas específicas, fechando o ciclo da inovação.

Pergunta: Nessa nova realidade, como ficam as parcerias com instituições no exterior?

Resposta: Nós vamos buscar o conhecimento onde ele estiver. Obviamente estamos fazendo um grande esforço para que este conhecimento também esteja presente no Brasil. Cerca de 10% do nosso investimento em pesquisa e desenvolvimento nos últimos dois anos foi feito em cooperação com instituições no exterior. Mas, volto a dizer, a questão do conteúdo local é uma regra que temos que seguir e que faz com que nossa ambição seja trazer para o Brasil este conhecimento. Nada contra, evidentemente, ter relacionamento com centros avançados, estejam eles onde estiverem; e assim o faremos. Mas o Brasil é um excelente ambiente para negócio e inovação hoje e temos condições de incluir nosso país dentre esses polos de excelência tecnológica.

Adicionar comentário 6 de maio de 2011 / 15:27

Experiência Petrobras aplicada no Golfo do México

Primeira companhia autorizada pelo governo norte-americano a operar um FPSO (unidade flutuante de produção, estocagem e escoamento) no Golfo do México, a Petrobras prepara-se para dar início à produção dos campos de Cascade e Chinook em 2011.

Além da embarcação pioneira, a Petrobras leva ao Golfo a experiência de desenvolvimento da produção em fases, utilizada há anos nos projetos brasileiros, e inovações tecnológicas como a utilização de risers híbridos autossustentáveis, os mesmos utilizados no Brasil na plataforma P-52 (campo de Roncador, na Bacia de Campos).

Em entrevista especial à Agência Petrobras, o presidente da Petrobras America, Orlando Azevedo, detalha as fases de desenvolvimento do projeto, as inovações implantadas e os demais projetos da Companhia no Golfo do México.

Pergunta: Na ocasião da licença para dar início à produção, o Escritório de Administração, Regulamentação e Supervisão de Energia Oceânica dos Estados Unidos (BOEMRE, na sigla em inglês) destacou a qualidade tecnológica do projeto da Petrobras e ressaltou a colaboração entre a indústria e o governo americano para a produção segura de recursos de energia no país. Como se deu a relação entre a Petrobras e o governo norte-americano?

Resposta: O relacionamento com o governo norte-americano, representado pelo BOEMRE, que é a agência reguladora, e pela Guarda Costeira, foi, e continua sendo, excelente. Seus representantes acompanharam todas as fases de desenvolvimento do projeto, com alto nível de interação técnica e gerencial, sempre com total transparência. Eles fizeram, inclusive, visitas ao FPSO durante o período em que estava sendo convertido em Cingapura.

Pergunta: Como está previsto o desenvolvimento da produção?

Resposta: O desenvolvimento da produção do projeto de Cascade e Chinook será dividido por fases. A fase I envolve a produção de dois poços em Cascade, um deles já concluído, e um poço em Chinook, também já pronto. Isto é, estes poços já foram perfurados e completados. A perfuração do segundo poço de Cascade deverá ser iniciada logo que recebermos a liberação do BOEMRE, estimada para o início do segundo semestre de 2011. Vamos utilizar o navio sonda Deep Ocean Medoncino, recentemente construído na Coréia do Sul, e que deverá chegar ao Golfo do México até o final do semestre. A ideia é que esta embarcação complete a fase I e seja utilizada nas demais fases. A fase II envolve a perfuração dos demais poços em Cascade e Chinook, até atingirmos a capacidade nominal do FPSO, que é de 80.000 barris por dia. Para esta fase, vamos ter o reforço de outro navio sonda, que está em fase final de construção, também na Coréia do Sul. O início da produção, no entanto, não depende da perfuração de mais poços; já é possível produzir considerando o status atual.A fase III envolve a perfuração de novos poços e a substituição do primeiro FPSO por uma unidade de maior porte.Esta divisão por fases é também uma novidade que implementamos no Golfo do México. É resultado de um aprendizado que vem do início do desenvolvimento da Bacia de Campos, na década de 70.

Pergunta: Em março deste ano, a Petrobras comunicou à BOEMRE um incidente com uma boia submarina do campo de Chinook. O que ocorreu?

Resposta: Uma boia submarina – que faz parte do sistema de risers flutuantes no campo de Chinook – se desconectou. Esta boia tem como função manter o riser rígido na vertical a uma determinada profundidade. Na ocasião, o incidente foi comunicado não só à BOEMRE, como também à Guarda Costeira. A boia foi localizada e já está segura em terra. Não houve nenhum ferimento de funcionários relacionado com esse incidente operacional, tampouco vazamento de petróleo. O campo de Chinook encontrava-se na fase final de comissionamento, fase anterior ao início da produção, e, por isso, não havia presença de petróleo no riser. A Petrobras formou um Comitê de Investigação, cuja tarefa é investigar as causas do incidente. Desta forma, apenas após a conclusão desta investigação teremos condições de prever o início da produção do projeto. É importante registrar que a Petrobras continua trabalhando estreitamente com a BOEMRE e com a Guarda Costeira. Os órgãos foram informados sobre o incidente, acompanharam o nosso sistema de tratamento de situações em emergência e verificaram a rapidez e a competência técnica da atuação da Petrobras.

Pergunta: Cascade e Chinook é o principal projeto da Petrobras na região?

Resposta: O projeto de desenvolvimento dos campos de Cascade e Chinook vem sendo considerado um marco histórico para a Petrobras e para a indústria de petróleo internacional. Trata-se de um dos primeiros projetos voltados para a produção de petróleo e gás nas camadas geológicas do Terciário Inferior, que é a principal fronteira exploratória marítima no Golfo do México, nos Estados Unidos. Os campos estão situados a cerca de 260 km da costa da Louisiana, em profundidade de água de cerca de 2.500 metros, números similares aos dos reservatórios do pré-sal, no Brasil. Este projeto modificará completamente a maneira de se operar nas águas do Golfo, principalmente em razão da utilização de novas tecnologias. Isto está sendo conseguido em decorrência da aplicação da tecnologia offshore da Petrobras, desenvolvida e implantada com sucesso no Brasil ao longo de mais de 30 anos.

Pergunta: Que inovações esse projeto apresenta, além do primeiro FPSO?

Resposta: A principal inovação do projeto é realmente a instalação do primeiro FPSO desconectável do Golfo do México. O FPSO tem capacidade de processar cerca de 80 mil barris por dia de óleo e 500 mil metros cúbicos por dia de gás, e pode estocar aproximadamente 500 mil barris de óleo.

O uso dessa embarcação trará a vantagem da mobilidade, devido à utilização de um sistema de ancoragem desconectável. Na ameaça de mau tempo – comum nas épocas de furacões – de julho até novembro, o navio pode ser desconectado dos poços, navegar para áreas seguras e retornar assim que a situação estiver normalizada.

Além disso, quando a embarcação for desconectada, o restante da infra-estrutura vai estar abaixo do nível do mar, a salvo das más condições da superfície. Essa característica se traduz em segurança para o pessoal de bordo e para o meio ambiente, e em preservação dos equipamentos e redução na descontinuidade das operações.

Nas plataformas hoje existentes no Golfo do México, antes da passagem de um furacão, as pessoas são retiradas. Contudo, o mesmo não acontece com as unidades que sofrem danos, e algumas chegam até a ser destruídas. No caso da Petrobras, com essa unidade removível, conseguiremos evitar esse tipo de situação.

A utilização de risers híbridos autossustentáveis, que nós já utilizamos no Brasil, na P-52, o bombeio multifásico submarino e o transporte de petróleo por meio de navios aliviadores (shuttle tankers) também serão novidades introduzidas pela Petrobras no Golfo do México.

Pergunta: E para onde será levado o petróleo produzido?

Resposta: Vai depender das condições do mercado no momento e da estratégia definida para buscar as melhores oportunidades para a Petrobras. Vale ressaltar que, de acordo com as leis norte-americanas, todo o petróleo produzido nos Estados Unidos tem que permanecer nos EUA.

Pergunta: Como a Petrobras está se preparando para cumprir as novas exigências do órgão regulador norte-americano, o Bureau of Ocean Energy Management, Regulation and Enforcement (BOEMRE), relativas a controle de vazamentos submarinos no Golfo do México?

Resposta: As novas regulamentações definem, como pré-condição para que o BOEMRE aprove a perfuração de poços, a comprovação de que a companhia operadora do poço tem acesso a um sistema de contenção capaz de controlar vazamentos submarinos de grandes proporções.

Para atender a essa exigência, a Petrobras está contratando a Marine Well Containment Company (MWCC), visando à utilização de seus equipamentos e recursos para responder a esse tipo de acidente. Em paralelo, a Petrobras America está desenvolvendo uma solução técnica específica para a contenção de eventuais vazamentos durante a perfuração dos poços do projeto Cascade e Chinook. A idéia é priorizar a utilização da infra-estrutura própria já instalada nos dois campos, e complementá-la, caso necessário, com os equipamentos da MWCC.

Pergunta: O desenvolvimento da produção no Golfo do México é um dos focos de investimentos da Área Internacional da Petrobras, de acordo com o Plano de Negócios 2010-2014. Que outros projetos podem ser destacados no Golfo?

Resposta: O portfólio da Petrobras nos Estados Unidos é bastante robusto. Além de Cascade e Chinook, nós temos participação no campo de Saint Malo (operado pela Chevron), no campo de Stones (operado pela Shell), no campo de Hadrian (operado pela Exxon) e no campo de Tiber (operado pela BP). Este último, descoberto em 2009, é considerado a segunda maior descoberta da história do Golfo do México. É um campo em que o desenvolvimento se dará com menores custos em decorrência de estar localizado em profundidade de água mais rasa que os demais.

Este ano, pretendemos iniciar também a perfuração do poço exploratório do campo de Logan que é operado pela Statoil. No total, a Petrobras tem 189 blocos na costa americana do Golfo do México. A grande maioria está em fase exploratória, 39 encontram-se em desenvolvimento e 15 encontram-se em produção.

1 comentário 3 de maio de 2011 / 11:31

Preço do petróleo: Gabrielli fala à Folha e à Exame

Leia as matérias “Petrobras perde R$ 1 bi com petróleo caro” (Parte 1 e Parte2) e “Gabrielli nega que reajuste da gasolina seja adiado para não atrapalhar inflação“, publicadas nesta sexta-feira (08/04) na Folha de São Paulo e na Exame (respectivamente). Veja, abaixo, a íntegra da transcrição da entrevista concedida pelo presidente da Companhia, José Sergio GAbrielli, aos veículos.

Entrevistador: Presidente, eu gostaria que você falasse um pouco sobre o aumento no preço da gasolina. Nós teremos um aumento realmente?

Gabrielli: Olha, o ministro Guido Mantega, presidente do Conselho de Administração, disse que a Petrobras não tem nenhuma decisão sobre aumentar o preço da gasolina, e está absolutamente correto o que ele disse. O que eu disse foi que nós não temos ainda condições de ter decisão de preços, porque não temos certeza se os preços irão ficar nos atuais patamares. Portanto, é necessário observar uma série de variáveis ainda que não tem clareza. Vou citar algumas: Qual é a safra do etanol? A safra do etanol começa em 15 de abril, e vai aumentar a oferta de etanol. O que vai acontecer com os preços do etanol? Nós não sabemos. Segundo: nós não sabemos se os preços do petróleo vão ficar nos níveis atuais ou se a demanda de gasolina no verão americano vai crescer ou não em função do nível de renda dos Estados Unidos e, portanto, não sabemos qual o efeito que vai haver sobre o mercado de gasolina nesse país. Não sabemos o comportamento do câmbio e não sabemos como está a taxa de juros internacional com as crises e as modificações que estão acontecendo na Europa. Então, tem uma série de variáveis neste momento que impedem uma decisão. Esta é a situação. Nós precisamos observar ainda mais tempo para tomar uma decisão.

Entrevistador: Mas qual seria este horizonte, presidente?

Gabrielli: O horizonte é a estabilidade dessas variáveis num determinado patamar mais estreito. Não tem um horizonte de tempo. O horizonte é variação de preços. Se vai variar 20%, 30%, 10%, 5%…é o intervalo de variação.

Entrevistador: Se ficar acima de US$ 100 por alguns meses, aí sim vocês tomariam uma decisão?

Gabrielli: Não é uma questão só de tomar decisão. Há um comportamento econômico real na economia brasileira. A economia brasileira tem um mercado de combustíveis aberto. Se, por muito tempo, mantém-se os preços dos combustíveis no Brasil abaixo do mercado internacional estável, teremos uma situação de estimular a compra de combustível no Brasil e exportar. Então a Petrobras vai vender combustível a um preço estável abaixo do preço internacional por muito tempo e alguém vai comprar e exportar. Se for mantido o preço no Brasil por um tempo acima do preço internacional estável, alguém vai importar e trazer pro mercado brasileiro. Então, é inevitável, no longo prazo. E qual é o longo prazo? Não sei. Depende de como está o comportamento da variação. A última variação de preço que nós fizemos foi no dia 9 de junho de 2009, quando nós reduzimos o preço da gasolina. De lá pra cá o preço da refinaria mantém-se em torno de R$ 1 o litro, e é o mesmo há dois anos.

Entrevistador: Mas o que foi dito é que se fosse mantido nesse patamar de hoje nós teríamos um aumento de preço.

Gabrielli: O que foi dito não foi isso. Eu disse que não tenho certeza se tem esse patamar. Leia a matéria de ontem. E a matéria diz isso, ao contrário das manchetes. O repórter foi correto. Na matéria diz muito claro: “O presidente Gabrielli diz que se os preços se mantiverem nesse nível nós teremos, provavelmente, que ajustar”. Mas não tenho certeza se os preços vão se manter nesse nível.

Entrevistador: Isso é exatamente o que eu estou te perguntando.

Gabrielli: E é exatamente isso que eu estou dizendo. O problema é qual a estabilidade em que os preços vão variar. Qual a faixa em que os preços vão variar. Na medida em que essa faixa se estreita, se define…e não é só o preço do petróleo. Lembre-se que nós temos um fenômeno que está acontecendo na bomba que é o álcool. Não tem nada a ver com o preço do petróleo. É isso que está afetando o preço da bomba, e não o preço do petróleo.

Entrevistador: A declaração, ontem, do Mantega, gerou algum mal estar?

Gabrielli: Não, nenhum mal estar. Nós temos absolutamente a mesma posição: a de que não temos posição.

Entrevistador: Agora há pouco o Mantega anunciou o aumento do IOF para crédito. O governo está claramente preocupado em dar uma esfriada na economia para combater a inflação. A Petrobras vai ajudar o governo na questão da inflação.

Gabrielli: Não acredito que isso seja para a inflação.

Entrevistador: É para crédito.

Gabrielli: Crédito para viabilizar efeitos sobre o câmbio.

Entrevistador: Não, isso foi ontem, presidente. Agora há pouco o ministro Mantega aumentou 1,5 % para crédito e falou claramente que o governo quer conter a inflação.

Gabrielli: Sim. O problema é que o crédito afeta determinados segmentos da economia. Afeta os bens que tem financiamento. E nesse sentido pode-se dizer que está tentando reduzir a demanda. O preço da gasolina e dos combustíveis devem ser analisados da mesma maneira que temos vários preços estáveis no país. Por exemplo: você vai a restaurante e o preço do cardápio não muda todo dia porque o preço do feijão ou o preço da carne mudou. Leva-se algum tempo para ajustar os preços das refeições. A mesma coisa acontece com o combustível, que é um elemento-chave. Há oito anos nós temos exatamente a mesma política: os preços da gasolina e do diesel não se alteram a curto prazo e sim quando percebemos que há um determinado nível do preço internacional do combustível e do petróleo, da taxa de câmbio e das taxas de juros. Esse conjunto de variáveis deve estar com uma certa estabilidade para que possamos tomar uma decisão.

Entrevistador: Então, no que depender da Petrobras, o governo pode contar com ajuda no combate à inflação?

Gabrielli: O problema não é de ajuda e sim de economia. É um problema objetivo, você não tem como controlar. Se houver uma situação de estabilidade de preços nesse patamar e o preço brasileiro estiver abaixo, vai haver compra brasileira e exportação. Isso é normal, é da economia e ninguém pode controlar isso. Esse é o ponto.

Entrevistador: E quanto tempo mais seria necessário para ver que está num determinado patamar?

Gabrielli: Não tem tempo. Depende de variação. É um problema de um anzol que estava muito movimentado. Quando está muito movimentado você tem que baixar a corda para esperar a estabilidade. No momento está tudo movimentando, ou seja, não temos certeza de qual é a faixa que vai ficar.

Entrevistador: Mas se ficar nesse patamar que está hoje…

Gabrielli: Não tem como você saber. Você vai querer colocar que eu vou dizer que vai ter aumento, e eu não vou dizer, porque não posso dizer. Eu sou um bom repórter, não posso dizer isso!

Entrevistador: Mas o que foi dito ontem é que se ficasse num patamar…

Gabrielli: Não foi dito isso. Eu disse que se o patamar se estabilizasse, mas eu não sei se estabiliza aí. Esse é o elemento-chave.

Entrevistador: Mas e se estabilizar?

Gabrielli: Não sei se estabiliza. E se ele subir? E se ele descer? Eu não sei.

Entrevistador: Presidente, mas o patamar parece razoável ou há muita especulação no mercado?

Gabrielli: Eu acho que existe um movimento financeiro muito grande. Esse fenômeno da variação do preço do petróleo depende muito do fato de que temos taxas de juros internacionais muito baixas, grandes movimentos de capitais e, com a crise geopolítica na área da Líbia, criou-se condições para que movimentos especulativos ocorressem. O que vai acontecer com as taxas de juros a curto prazo eu não sei. Então há uma série de incógnitas que não permite uma tomada de decisões. Portanto, não há decisão tomada, porque não se pode tomar decisões nesse momento.

Entrevistador: Então os acionistas da Petrobras podem ficar tranquilos?

Gabrielli: Os acionistas da Petrobras conhecem, há oito anos, a política da Petrobras, que é a mesma. Nós mantemos uma relação de longo prazo. O preço dos derivados no Brasil [incompreensível 08:02]. Nos últimos oito anos nós não ajustamos o preço doméstico no curto prazo.

Entrevistador: Então eles podem ficar tranquilos que em nome da inflação vocês não vão [incompreensível 08:12] os acionistas.

Gabrielli: Não é isso. A política da Petrobras não tem nada a ver com a inflação e sim com o mercado do petróleo. Somos um grande ator nesse mercado e não achamos que é correto trazer para o mercado brasileiro, onde tem uma estrutura específica e única no mundo, que é o único lugar onde a maioria dos veículos leves são a álcool. Todos os postos de gasolina podem entregar álcool, o câmbio está variando muito e a economia é crescente. Há alternativas para o uso do combustível e uma frota de flex fluel enorme em relação ao resto do mundo. Por essas características específicas, não nos interessa variar o preço do petróleo e dos derivados a cada segundo.

6 comentários 8 de abril de 2011 / 18:09

Entrevista de Paulo Roberto Costa ao Estadão

Leia a matéria “Petrobras segura preço ‘até quando der’” (versão on-line) publicada neste domingo (13/03) no jornal O Estado de S. Paulo e a entrevista, na íntegra, concedida pelo diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, ao diário.

Repórter: A área de Abastecimento da Petrobras é a que está sendo mais prejudicada com essa política de não seguir a oscilação internacional, falando em termos de negócios. Vocês compram pelo preço internacional e vendem pelo preço que está sendo praticado aqui no mercado interno. Isso reduziu em quanto o resultado dessa área para a Petrobras? Você tem uma idéia? O resultado do ano passado. Se não fosse isso, vocês teriam conseguido quanto mais em receita?

Costa: Como nós já falamos, várias vezes, vocês conhecem bem, nós não trabalhamos aqui, dentro da política para diesel, gasolina e GLP, dentro de uma política de variação de preço. Nós olhamos isso no longo prazo. Então, se olhar os resultados que o abastecimento teve aqui, por exemplo, em 2009, eles foram excepcionalmente bons. Se eu olhar em 2010, houve uma redução do resultado, mas ele ainda foi muito bom em termos de ganho da área de abastecimento. No final de 2010 nós tivemos o início do crescimento do preço de petróleo, que saiu de valores na faixa de 80, chegou a 90, e, agora, ontem fechou a 116. Então, a nossa política aqui não vai mudar, e vai continuar sendo de uma visão mais de longo prazo. Em anos você ganha, outros anos você empata, outros anos você tem um ganho maior ou pode até ter certa perda. Mas no período global de avaliação nós não ganhamos, nem perdemos. Nós ficamos numa situação muito confortável. Não há prejuízos, porque fica numa situação alinhada ao mercado internacional. Então, nesse momento, não há nenhuma previsão de fazer qualquer ajuste de preço, quer seja no diesel, na gasolina, ou no GLP. Por outro lado, os produtos com os quais nós temos contrato, que é o caso de nafta e de jet, nós fazemos o ajuste cada mês.

Repórter: Jet?

Costa: É, o querosene de aviação. Por exemplo, no jet, agora no dia 1º de março nós fizemos o aumento de 6,5% no valor do querosene de aviação, e vamos continuar fazendo. Se o petróleo subir, vamos continuar fazendo.

Repórter: O QAV já acumula uma alta boa, não é?

Costa: Já, nós tivemos três aumentos. Em janeiro, fevereiro e março já teve aumento do querosene. O maior aumento foi agora nesse 1º de março, que deu 6,5. Os outros, teve um parece que de 4, o outro de 2 e pouco, não estou lembrado agora.

Repórter: Mas para a empresa, como empresa, você está dizendo que não perde nem ganha.

Costa: Só um cuidado: esse “não perde nem ganha” em relação ao mercado internacional. Eu fico atrelado ao mercado internacional. Então, vamos dizer, não perde, não ganha, não é que eu fique zerado. Eu fico atrelado ao preço de mercado internacional. Não é “não perde nem ganha,” então é zerado, não tem benefício para a área de abastecimento. Não é isso, não. Às vezes eu posso ganhar mais, outras vezes eu posso ganhar menos, ou até ter uma certa perda. Mas no final, eu fico na margem internacional.

Repórter: Pois é, mas a justificativa que a Petrobras costuma apresentar é “olha, naqueles anos, tudo bem, nós podemos ter perdido um pouco agora. Nos anos em que a crise estava bem mais forte, no auge da crise, no final de 2008 e início de 2009, e ao longo de todo o ano de 2009, a empresa ganhou com isso, enquanto o petróleo estava baixo.”

Costa: Correto.

Repórter: Mas é essa a equação que tem que ser feita? Porque que as outras empresas, então não trabalham assim? Você trabalha no contrafluxo sempre, perde quando está todo mundo ganhando, ganha quando está todo mundo perdendo? Qual é a vantagem disso?

Costa: Para a empresa, não tenho nenhum prejuízo, porque como eu te falei, no médio prazo, eu estou atrelado ao mercado internacional. Isso está claro, não é? E para o mercado, está muito bom. O problema é não repassar. A nossa política aqui, Irany, é não repassar essa volatilidade do preço para gasolina e diesel, porque nós achamos que não é bom. Porque se eu ficar repassando demais essa volatilidade, daqui a pouco eu tenho uma redução de venda, e redução de venda para mim é ruim. Você imagina se eu fico repassando a volatilidade a todo o momento na gasolina. O que vai acontecer na gasolina? As pessoas vão deixar de comprar gasolina e vão comprar álcool. Então, para mim é ruim. Eu quero vender gasolina. Se eu ficar repassando toda a volatilidade do mercado, que hoje está a 116, porque está a 116? Por causa desse conflito lá na África, nos países da África. Se amanhã esse conflito for equacionado, e deve ser, eu acho que não vai ficar muito tempo nessa confusão, não tem sustentação nenhuma do petróleo continuar a 116, porque não é a lei de oferta e procura. É problema político, que está acontecendo na Líbia.

Repórter: É, mas no início, quando se colocou essa fórmula, você não acompanha a par e passo a volatilidade internacional.

Costa: Exato.

Repórter: Mas você fica monitorando os preços durante três meses. Isso era no início. Acompanha a média de preço durante três meses para saber se um certo ponto, aí, você aciona um gatilho.

Costa: Isso.

Repórter: Mas isso já foi abandonado há muito tempo. Nós vimos o preço do petróleo cair por mais de três meses, e agora estamos vendo o preço do petróleo subir bem mais de três meses. Com que fórmula a Petrobras trabalha agora?

Costa: Ah, mas eu não vou te contar o meu segredo aqui.

Repórter: Qual é o longo prazo com que a Petrobras trabalha? Qual é o intervalo de tempo com que se trabalha? Ou não há esse intervalo de tempo? O que fica parecendo é que mais do que um acompanhamento puro e simples dessa volatilidade internacional, dessa oscilação como um cálculo, mais do que um cálculo matemático, o que está sendo feito agora é uma política de preço de governo. Quer dizer, é para segurar a inflação, não vamos aumentar a gasolina. Parece que mais do que o interesse empresarial, mais do que o interesse de negócios da Petrobras, o que predomina é o interesse de uma política de governo. É isso?

Costa: Essa posição de uma visão de mais de longo prazo não é de agora. Se você for olhar o passado, já tem anos que nós estamos praticando essa política. O tempo, sendo muito transparente com você, o tempo varia de acordo com o preço. Eu posso ter uma subida muito rápida, ou uma queda muito rápida que nós não temos domínio nenhum aqui. Então não dá para dizer para você: “Irany, a cada 3 meses nós vamos ter uma variação para mais ou para menos em relação ao mercado internacional.” Mas eu não sei se em 3 meses vai ter uma parada na volatilidade, ou não. É uma coisa que é imponderável. Agora, por exemplo, o petróleo daqui a pouco bate 150 dólares o barril. Aí, obviamente vamos ter que pensar numa coisa urgente para resolver isso, porque não dá para continuar com 150.

Repórter: Pois é. Há um limite, não é?

Costa: Claro!

Repórter: E é isso que vocês dizem sempre “nós vamos esperar até um limite”.

Costa: Não, há um limite. Isso.

Repórter: Agora, qual seria esse limite?

Costa: Não, mas aí é isso que eu não posso te falar. Agora, por exemplo, o último ajuste de preço que houve na gasolina e no diesel foi no mês de maio do ano 2009.

Repórter: Foi uma redução.

Costa: Foi uma redução. Foi 15% no diesel, e 4,5% na gasolina. Isso não foi direto para o consumidor na bomba porque anteriormente estava se usando parte da CIDE para não ter reflexo. E a CIDE foi criada para isso, um pulmão, foi criada para isso.

Repórter: Um colchão.

Costa: Um colchão, para isso. Mas o último ajuste de porta de refinaria foi para menos, em maio de 2009, 15%.

Repórter: Recentemente não teve um aumento, que foi justamente tirando a CIDE?

Costa: Zero, nenhum.

Repórter: Foi isso?

Costa: Na porta da refinaria, não. Não teve, não. O que aconteceu? O que aconteceu foi o seguinte: quando nós baixamos na refinaria 15% do diesel e 4,5 na gasolina, nesse momento, o governo recompôs a participação da CIDE, que tinha, vamos dizer, tinha retirado, recompôs isso, e na bomba não teve nenhum problema.

Repórter: A Petrobras também não, não é?

Costa: Também não.

Repórter: Porque pagou menos imposto, menos contribuição…

Costa: O que tem acontecido ultimamente, que até outro dia saiu num jornal, não sei qual foi, na carta de leitores, dizendo que “essa história que a Petrobras não aumenta desde maio não é real, isso é fictício, porque a gasolina aumentou não sei quanto na bomba”. É claro! Só que essas pessoas, obviamente, não têm obrigação de entender, mas vocês têm a obrigação de explicar para o povo que a gasolina tem 25% de etanol. Se o etanol sobe o preço, sobe o preço na bomba. É óbvio. Mas as pessoas não conseguem entender esse ponto e falam “a gasolina subiu”. Subiu, mas não tem nada a ver com a Petrobras. Subiu porque o etanol subiu.

Repórter: Agora, esse limite que se colocou “se o petróleo ficar 110, 120, aí nós vamos ter que rever.” Você já falava lá atrás. Agora você está botando 150.

Costa: Não, não, isso aí foi um exemplo que eu dei. Um exemplo.

Repórter: Um exemplo, então. Mas há um limite em que nós podemos dizer “esse é o limite prudencial, se ficar assim”?

Costa: Há.

Repórter: Tem um limite de tempo também? Por exemplo, não é só bater nesse preço, é bater e ficar nesse preço durante um tempo.

Costa: Há, claro. Total razão.

Repórter: O tempo, qual seria?

Costa: Aí é uma política interna nossa que eu não posso comentar, tanto para cima quanto para baixo. Hipótese: resolveu esse problema, e a perspectiva da economia do mercado americano é ruim, a Europa não vai recuperar, não sei o quê. Dá uma queda no preço do petróleo por problema de demanda. Aí, quem sabe, daqui a alguns meses, temos até que fazer uma redução de preço, até pode acontecer. Ou, como você falou, se o petróleo continuar nessa faixa por mais não sei quanto tempo, ou subir, vai para 120, 130, 140, nós vamos avaliar. Essa avaliação nós fazemos aqui todo dia. Todo dia tem essa avaliação aqui. Agora, eu não posso te falar, porque é algo interno da companhia.

Repórter: Agora, o primeiro limite prudencial já bateu, não é? Porque chegar quase a 120, isso já é um limite, não é?

Costa: Sim, mas vai ficar por quanto tempo, isso? Eu tenho que avaliar aqui.

Repórter: Quando você falou também que há anos vocês vêm adotando essa política, quando argumenta que é uma política de governo, mas há anos também se deixou claro que isso é uma política de governo. Quando o Presidente Lula assumiu, no seu primeiro mandato, a Ministra Dilma, numa coletiva aí na sede da Petrobras falou que preço de gasolina é uma questão de política de governo. É isso? Continua sendo?

Costa: Eu, como diretor da Petrobras, posso falar da nossa política da Companhia. Não posso falar pelo governo, porque eu não tenho nem autoridade para isso. O que eu digo é que dentro da Petrobras, desde bastante tempo atrás, nós adotamos essa política de longo prazo.

Repórter: E com total autonomia?

Costa: Sim. Aqui dentro, sim.

Repórter: E a gente, então, o consumidor pode ficar tranquilo, porque mesmo com a situação como está, você está falando que não tem uma perspectiva de curto prazo, médio também, não sei, para aumento de combustível.

Costa: Não, não é isso que eu estou falando. Hipótese: a situação lá no Oriente Médio tem uma deterioração total. Estou trabalhando aqui em futurologia, bola de cristal na minha frente. De repente começa ter impacto no maior produtor, que é a Arábia Saudita. O petróleo vai para 200. Isso pode acontecer semana que vem, não é? Aí, muda todo o cenário. Outra hipótese: acontece lá, o seu Kadafi, por algum motivo, sai da Líbia, a Líbia consegue resolver os problemas internos, começa a dar uma paz naquela região. O petróleo pode desabar para 90, para 80. Tudo isso pode acontecer em 30 dias, em 20 dias, em 15 dias. Então não dá nem para saber se é médio, longo, curto prazo, porque o mundo está muito volátil.

Repórter: Agora, está errado, é errado, quando os analistas calculam o quanto que a Petrobras deixou de ganhar por não ter praticado aumento no ano passado?

Costa: Não, aí é aquilo que eu te falei. Eu tenho concorrentes nos meus combustíveis aqui. Então, por exemplo, a gasolina tem dois concorrentes hoje no Brasil. Um bastante forte, e o outro menos forte. O primeiro, bastante forte, é o etanol. Se eu começo a dar aumento forte na gasolina, com certeza eu vou vender menos. Então, para mim é muito ruim. Eu tenho que levar isso em conta. Tem outro concorrente, menos importante, mas é um concorrente também, que é o gás natural. Tem vários veículos a gás natural. Então, vamos dizer, que nesse momento, a preocupação maior é com o etanol. Se eu faço um aumento substancial na gasolina, com certeza, como hoje os carros novos, e a frota está indo muito na direção do flex, o consumidor não vai ao posto comprar gasolina. E aí, para mim, é muito ruim. Essa conta, eu tenho que fazer permanentemente. É melhor perder mercado e ter um preço maior, ou é melhor ter um preço menor e ter o mercado na mão? Então, essa conta nós fazemos todo dia.

Repórter: E a conta em relação ao resultado e ao investimento da Petrobras? Com o investimento muito forte, a empresa teria que elevar sua receita. O que eles dizem é que veem dificuldade da Petrobras de cumprir esse plano de investimento forte com a geração de caixa um pouco prejudicada.

Costa: Agora, essa geração de caixa muito prejudicada, em que tempo? O nosso plano é de 5 anos. Vamos olhar um passado bem pertinho. Em 2009, os resultados da área de abastecimento foram excepcionais. Eu estou falando de um ano e pouco atrás.

Repórter: Que foi o que puxou, não é?

Costa: Sim.

Repórter: O resultado da Petrobras.

Costa: Será que eu posso falar isso aí “o plano vai ser difícil de atender, porque está tendo descolamento de preço?” 2010, início de 2011? Como é que vai ser em 2012? Como é que vai ser em 2013? Então, eu acho que é um pouco temerário fazer essa conclusão, sabendo que 2008 foi um ano difícil, e em compensação 2009 foi um ano excepcionalmente bom, 2010 foi um ano bom ainda, e agora 2011 está um pouco difícil. É precipitado fazer essa conclusão da maneira que eles fazem.

Repórter: Agora, para terminar. Procede a informação que está sendo ventilada de que a Petrobras teria desistido de buscar sócios para essas refinarias Premium I e II?

Costa: Não procede.

Repórter: Não procede?

Costa: Eu tenho um memorando de entendimento, hoje, assinado, que é do conhecimento de vocês, e estão em vigor esses memorandos, com a Marubeni no Maranhão, e a Mitsui no Ceará. Esses dois memorandos estão em vigor. E nesse memorando reza a possibilidade de eles participarem de sócios conosco no equity.

Repórter: Sei, então é provável mesmo, que essas duas refinarias sejam feitas em parceria com os japoneses, Marubeni e Mitsui?

Costa: É, hoje, o que diz o memorando? Que eles têm a condição de participar até 20% e a decisão de investimento ainda não foi tomada, porque eu preciso terminar o projeto e fazer, realmente, a avaliação final do custo da refinaria. Porque os valores que tem hoje discutido, que estão na imprensa, são valores aproximados. Eu acho que vão ser menores, porque nós estamos fazendo um projeto padronizado, numa escala muito interessante, usando toda a experiência recente que nós tivemos da RNEST, do Comperj, em termos de ganho. Isso vai refletir nos dois projetos, da Premium I e da Premium II. Então, em determinado momento mais na frente, que talvez seja no início do ano que vem, vai ter que ter a decisão final do investimento. A decisão final, então, vamos sentar junto com a Marubeni e junto com a Mitsui e falar “senhores, a posição, final hoje é essa, o empreendimento vai custar tanto, a taxa interna de retorno é tanto, o VPL é tanto. Vocês vão, ou não vão?”

Repórter: Essa notícia saiu. Você viu no relatório reservado?

Costa: Não, não vi, não.

Repórter: Saiu essa notícia que a Petrobras teria desistido.

Costa: Não, não vi, não.

Repórter: E iria tocar os dois projetos sozinha.

Costa: Eu, como diretor da área, desconheço totalmente isso.

Repórter: E a PDVSA, sobre aquelas garantias?

Costa: Não tivemos nenhum retorno ainda do BNDES. Estamos aguardando, porque a negociação deles é com o BNDES, e nós não tivemos ainda nenhuma posição do BNDES, nem da própria PDVSA a respeito do assunto.

Repórter: A PDVSA estava procurando garantias entre bancos aqui, não é?

Costa: É, eu soube disso.

Repórter: Para menos tempo, um prazo de cinco anos, se não me engano.

Costa: Isso aí tudo eu soube pela própria PDVSA e pela imprensa, eu soube disso. Mas eu não tive nenhum retorno por parte do BNDES se ele está de acordo, se não está. Não teve ainda um parecer final do BNDES sobre isso.

Repórter: Você não tem um deadline não?

Costa: Tenho.

Repórter: Quando?

Costa: Agosto.

Repórter: E se não resolver isso até agosto, a Petrobras toca sozinha?

Costa: É. Na realidade, já está tocando, não é? Porque até agora, tudo o que nós fizemos, foi sozinho.

Repórter: Mas aí, formaliza que está sozinha nesse projeto.

Costa: Por que agosto? Em agosto, esse empréstimo do BNDES acaba. Quer dizer, já é todo consumido. A partir de setembro, tem que fazer aporte. Os sócios têm que fazer aporte na refinaria para dar continuidade ao empreendimento. Então, se eles não fecharem até agosto, eu vou ter que fazer os aportes sozinho daqui para frente, porque o empréstimo já foi embora.

2 comentários 14 de março de 2011 / 15:33

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