Existe um lado mais verde na perfuração de petróleo?

Marc Gunther

Criado em 20-07-2010 09:04 | GreenBiz.com

No meio da Floresta Amazônica, a muitos quilômetros de qualquer lugar, a gigante brasileira de energia Petrobras está produzindo petróleo e gás natural a partir de uma unidade industrial talhada em uma paisagem que inclui 70 poços de petróleo em atividade, cinco equipamentos de perfuração, um aeroporto, dois portos ribeirinhos e alojamento para 1.800 trabalhadores.

Essa base remota é conhecida como a Província Petrolífera de Urucu, e, acreditem ou não, a estatal Petrobras diz que é um exemplo de “desenvolvimento sustentável”.

É sustentável apenas se você acreditar que petróleo e gás vão durar para sempre, que a mudança climática não é uma preocupação e que a perfuração para extrair combustíveis fósseis em uma das regiões mais intactas e com a maior biodiversidade do mundo faz sentido.

No entanto, aqui está a surpresa: o projeto de Urucu da Petrobras pode não ser sustentável no sentido mais estrito, mas é tão benigno ambientalmente quanto um projeto de perfuração de petróleo em uma floresta tropical pode ser. Isso pode ser um elogio irônico, mas tenho de confessar que passei a gostar de Urucu depois de visitá-lo hoje com um grupo de jornalistas em um tour de seis dias no Brasil.

Urucu tem questões, com certeza, mas está gerando milhares de empregos, contribuindo com considerável riqueza para uma nação em desenvolvimento na forma de impostos e royalties e gerando eletricidade de um modo mais limpo e barato do que a atual alternativa.

E, como me disse um executivo da empresa, a Petrobras usa o termo sustentável para descrever projetos que equilibram objetivos econômicos, ambientais e sociais.

“Enquanto a produção durar, evitaremos que o meio ambiente seja prejudicado”, diz Julio César Carvalho Coelho, gerente de Exploração da Petrobras na Região Amazônica. “Preservamos o máximo que podemos.”

Esta semana, estou visitando o Brasil em uma viagem organizada pela Apex-Brasil, agência apoiada pelo governo que promove comércio e investimentos. É financiada pela Petrobras, Eletrobras e Banco do Brasil. Naturalmente, eles estão apresentando o país da perspectiva mais favorável.

Ainda assim, não precisavam ter nos levado a Urucu. Eles o fizeram em parte porque se trata de uma história épica: imagine construir uma grande unidade de petróleo e gás em uma floresta tropical onde a única maneira de levar pessoas e equipamentos (pelo menos até o aeroporto ser construído) era transportando-os em barcas e rebocando-os em uma viagem de sete dias de Manaus, a porta de entrada para a Amazônia.

Grandes empresas petrolíferas fazem esse tipo de coisa o tempo todo, é claro, seja extraindo petróleo das areias betuminosas canadenses, seja perfurando em águas profundas no Golfo do México. Essas aventuras corajosas nem sempre terminam bem, como todos aprendemos recentemente, mas todos que colocam gasolina em seus carros devem lembrar que (1) a perfuração de petróleo não é um negócio bonito e (2) todos nos beneficiamos de projetos como o de Urucu à medida que a oferta de petróleo cresce.

Mas os organizadores da viagem também nos levaram a Urucu porque, uma vez lá, não há como não ficar impressionado com o cuidado que está sendo tomado pela Petrobras. A produção começou no local em 1988 ― muito antes de se começar a falar em “empresa verde” ― mas a empresa chamou consultores ambientais para aconselhá-la sobre como minimizar seu impacto ambiental. Isso pode ser em parte porque o governo federal é o proprietário majoritário da Petrobras, tornando-a, portanto, mais responsável do que uma empresa privada.

Nas mais de duas décadas desde então, a empresa construiu em menos de 0,5% do local; o restante está intocado. Sim, a Petrobras construiu 71 quilômetros de estradas pavimentadas, mas elas são construídas somente quando necessário. Quando faz perfuração exploratória, por exemplo, a Petrobras não constrói uma estrada para um local em potencial; ela limpa um trecho de terra e leva os equipamentos de helicóptero. Se o trabalho exploratório não resultar em nada, as plantas nativas cultivadas em um viveiro construído no local são levadas para restaurar a floresta. O viveiro, na última contagem, tinha cerca de 200 mil mudas e mais de 85 variedades de orquídeas. Eu não esperava encontrar isso em uma planta de petróleo e gás.

Andar pela unidade é mais divertido do que se possa imaginar. Petróleo fresco vindo de mais de 2 mil metros de profundidade jorrou em nossas mãos.

Também sentimos o gás natural líquido, que é muito frio ao toque e evapora instantaneamente. Vimos uma escola onde os trabalhadores são ensinados a ler, uma unidade de reciclagem e o porto ribeirinho, onde uma barca chega todos os dias com provisões ― de uma escavadeira Caterpillar à tapioca e sorvete de açaí que comemos no almoço.

Enquanto isso, e mais importante, a unidade está produzindo grande quantidade de energia: 55.700 barris de petróleo por dia, 10 milhões de metros cúbicos de gás natural (a maioria é imediatamente reinjetado na terra devido à demanda insuficiente) e 1,3 tonelada de gás propano líquido que é utilizado pelos brasileiros para cozinhar.

O petróleo é enviado por duto e barco para uma refinaria em Manaus. O gás natural viaja por um gasoduto de 661 quilômetros que atravessa a Amazônia e foi inaugurado em 2009, depois de três anos de desafiadora construção. O gasoduto gerou muita controvérsia ― os críticos alegaram que ele abriria caminho para mais desenvolvimento na floresta ― mas foi construído sem uma estrada e não estimulou desenvolvimento, pelo menos não até agora.

Agora que o gás está chegando em Manaus, usinas elétricas e fábricas que queimam diesel estão sendo convertidas em unidades de gás natural porque o gás é mais barato e mais limpo. Custos de energia mais baixos, é claro, impulsionarão o desenvolvimento econômico da região.

Além disso, a Petrobras é de longe a maior contribuinte do estado do Amazonas, seguida, curiosamente, pela Honda e pela LG Electronics, que operam fábricas em um distrito industrial de Manaus com incentivos fiscais.

A história de Urucu não é imaculada, é claro. Uma cidade ribeirinha chamada Coari arrecadou uma fortuna em royalties ― R$ 39,7 milhões ou cerca de US$ 22 milhões somente no ano passado. Houve corrupção, e o prefeito foi recentemente afastado.

E, é claro, a queima de todo esse petróleo e gás gera emissão de carbono, como também as barcas que sobem e descem o rio todos os dias e os helicópteros usados para transportar os equipamentos.

Mas, até que estejamos todos dirigindo carros elétricos ou usando energia eólica ou solar em nossas casas, vamos precisar de petróleo e gás. Até mesmo, por mais improvável que pareça, da Amazônia.

Marc Gunther, redator sênior da GreenBiz.com, é jornalista e palestrante há muitos anos, especializado em negócios e sustentabilidade. Marc mantém um blogue no endereço MarcGunther.com . Você pode segui-lo no Twitter @marcGunther.