Quatro razões para acreditar no Brasil

26 de julho de 2010, 16h34, The Economist on-line | SÃO PAULO

QUANDO, em 2001, o Goldman Sachs inventou o acrônimo BRICs para as maiores economias emergentes, o país que a maioria das pessoas disse não pertencer ao grupo era o Brasil. Hoje, o principal candidato a exclusão é a Rússia. Mas alguns observadores proeminentes ainda são céticos quanto às perspectivas do Brasil. Um exemplo notável é Martin Wolf, o principal comentarista de economia do Financial Times, que recentemente (e com muita razão) observou que a participação do Brasil na produção mundial na verdade caiu nos últimos 15 anos, de 3,1% em 1995 para 2,9% em 2009 em paridade do poder de compra. “O Brasil não tem como se tornar um ator tão grande no mundo quanto os dois gigantes asiáticos”, China e Índia, Wolf conclui.

Em reunião recente com um grupo de investidores em Hong Kong, Rubens Ricupero fez uma contra-argumentação intrigante. Respeitado diplomata brasileiro com muitos anos de serviço, Ricupero foi o secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento de 1995 a 2004. Embora tenha ligações com a oposição ao Partido dos Trabalhadores — ele já atuou como ministro da Fazenda no governo de um partido rival — sua análise não é partidária. “Pela primeira vez na história”, argumenta, o Brasil está desfrutando de “condições propícias em quatro áreas que costumavam apresentar sérias limitações ao crescimento”. São elas:

Commodities. A produção de commodities costumava ser considerada uma calamidade ou, na melhor das hipóteses, algo que os países deveriam diversificar o mais rápido possível (o que o próprio Brasil fez na década de 1970). Mas nos próximos 50 anos, observa Ricupero, metade do aumento esperado na população mundial virá de oito países, dos quais apenas um — os Estados Unidos — não tira proveito das commodities a uma taxa de aumento exponencial. Os outros são China, Índia, Paquistão, Nigéria, Bangladesh, Etiópia e Congo. Somente a China representará 40% da demanda adicional de carne do mundo, ele observa. Essa demanda continuará forte, em parte, devido à população em crescimento e, em parte, devido à urbanização, que aumenta a demanda por commodities industriais (como o minério de ferro usado na fabricação de aço) e carne (porque a urbanização muda os hábitos alimentares). O Brasil já é um grande produtor de minério de ferro e se transformou em uma potência agrícola nos últimos dez anos, tornando-se o primeiro país tropical a entrar para o dominante grupo dos exportadores de alimentos de clima temperado, como Estados Unidos e União Europeia. Está bem colocado para se beneficiar do boom das commodities dos mercados emergentes.

Petróleo. Ricupero argumenta que os sucessos da companhia petrolífera estatal do Brasil, a Petrobras, na exploração de petróleo em alto-mar transformou o setor energético brasileiro. “Embora ainda não possam ser feitas estimativas precisas e finais do potencial das reservas de petróleo do pré-sal da Bacia de Santos”, diz, “todas as indicações sérias apontam para a alta probabilidade de que o Brasil esteja em condições de se tornar pelo menos um país exportador de petróleo líquido de médio porte”. Novos depósitos de petróleo e gás distantes do volátil Oriente Médio devem aumentar a importância estratégica do Brasil, bem como melhorar sua posição quanto à balança de pagamentos.

Demografia. O Brasil está colhendo um grande dividendo demográfico. Em 1964, sua taxa de fertilidade (o número médio de filhos que uma mulher pode esperar ter durante a vida) era de 6,2. Caiu para 2,5 em 1996, e está agora abaixo do nível de substituição, em 1,8, uma das quedas mais acentuadas do mundo. O resultado tem sido uma diminuição acentuada na taxa de dependência – o número de crianças e idosos dependentes de cada adulto em idade ativa. Na década de 1990, a proporção era de 90 para 100 (isto é, havia 90 dependentes, a maioria crianças, para cada 100 brasileiros em idade ativa). Hoje é de 48 para 100. Graças a isso, o Brasil não tem mais de construir escolas, hospitais, universidades e outras instituições sociais de maneira apressada e desordenada para acompanhar o ritmo do crescimento populacional. Com o tempo, a proporção voltará a aumentar à medida que a força de trabalho de hoje se aposente, mas esses problemas persistirão por décadas. Enquanto isso, o Brasil pode dar mais atenção à qualidade do que à quantidade de seus gastos sociais, que devem, em teoria, melhorar a educação, a saúde e as qualificações de trabalho da população.

Urbanização. A urbanização estimula o crescimento econômico e ao mesmo tempo o acompanha. Mas também causa problemas. “Muitos dos piores problemas contemporâneos do Brasil”, diz Ricupero, como “falta de centros educacionais e de saúde, transporte público precário, marginalidade e criminalidade, derivam de uma incapacidade de lidar com migrações internas de maneira ordenada e planejada”. Isso agora está mudando, ele argumenta. As ondas de migrantes do interior para as cidades de certa forma acabaram. O Brasil é agora em grande parte um país urbano: cerca de quatro quintos da população vive em cidades. “Para o Brasil”, conclui, “o período de crescimento frenético e caótico das grandes cidades que está ocorrendo agora na Ásia e na África já é coisa do passado”.
Ricupero é relativamente cauteloso em sua conclusão. “Os quatro conjuntos de condições descritos acima”, diz, “não são de forma alguma garantias certas de sucesso automático”. Ele admite que o Brasil ficou para trás em infraestrutura, por exemplo, e diz que, se o país tivesse o tipo de infraestrutura que se vê na Costa Rica e no Chile (os dois melhores exemplos na América Latina), o crescimento econômico seria cerca de dois pontos percentuais mais alto por ano. Por outro lado, o Brasil também tem algumas vantagens: ao contrário da China, da Rússia e da Índia, está em paz com seus vizinhos (todos os dez). Embora possa se pensar que tudo isso realmente represente uma resposta, Wolf tem suas dúvidas. O Brasil pode ainda continuar sendo um ator relativamente pequeno no mundo. No entanto, os pontos de Ricupero estão, pelo menos, de fato ocorrendo (não são coisas esperadas para o futuro), podem ser mensurados em termos concretos e são de longo prazo (devem continuar por décadas). Quem sabe? Talvez estejam até certos.