Unidade de produção de petróleo remota na Amazônia tenta ser verde

Stephen Messenger

Porto Alegre, Brasil , 22 de julho de 2010 TH Exclusives

A minúscula cidade de Urucu, localizada no meio da floresta Amazônica, poderia muito bem ser confundida com um tipo de paraíso ecológico. Embora seja circundada pela exuberante floresta tropical e seja acessível apenas por barco ou avião, Urucu tem todas as comodidades verdes que se poderia desejar: transporte público, centro de reciclagem, programas de reflorestamento e uma missão oficial dedicada a contribuir para o desenvolvimento sustentável da região. E, para completar isso tudo, 100% dos 6.689 moradores da cidade estão empregados – mas se você está imaginando uma comunidade cheia de hippies, não poderia estar mais enganado. Essas pessoas trabalham para a Petrobras, a maior empresa de energia do Brasil, e estão extraindo 55 mil barris de petróleo da Amazônia todos os dias.

A maioria das pessoas chega a Urucu por avião vindas de Manaus, a capital amazonense – uma experiência surreal. Depois de cerca de uma hora e meia sobrevoando essa floresta densa e intocada, o avião atravessa as nuvens e aterrissa no aeroporto de pista única, uma minúscula tira de concreto no meio de um mar de verde. A primeira coisa a chamar a atenção é como o lugar é extraordinariamente bem cuidado, apesar de estar no meio de uma das regiões mais selvagens da Terra.Uma empresa petrolífera com receita anual de US$ 104,9 bilhões, aparentemente, consegue manter as coisas bem cuidadas.

No dia em que cheguei junto com um grupo de outros jornalistas, fomos calorosamente recepcionados por nosso anfitrião da Petrobras assim que descemos do avião e conduzidos para o que parecia ser um ônibus municipal – uma pequena frota desses veículos foi enviada para cá por barco para transportar os funcionários pela cidade. Jovens e sorridentes operários da empresa petrolífera movimentavam-se de lá para cá na frente do pequeno e singular aeroporto, todos em seus macacões de cor laranja forte, possivelmente aguardando o avião que os levaria de volta à civilização. Mais tarde, soubemos que os funcionários geralmente revezam-se em turnos – duas semanas de trabalho nos campos e duas semanas em casa, na cidade.

Uma pequena malha rodoviária conecta as instalações operacionais em Urucu; as ruas parecem recém-pavimentadas e surpreendentemente bem mantidas, enquanto do outro lado da rua a floresta parece imperturbável. Em um determinado ponto, o motorista parou o ônibus momentaneamente e apontou para uma árvore. Ficamos observando dois ou três macaquinhos pendurados nas árvores e passando de um galho para outro por tempo suficiente para batermos algumas fotos antes de desaparecerem da nossa vista. Nosso anfitrião sorriu ao perceber nosso prazer em ver esses animais, como se eles fossem vizinhos afetuosos de quem ele também gostasse muito.

Depois de aproximadamente 1,5 km, chegamos ao centro de Urucu, um agrupamento de pequenas construções que abriga o restaurante da cidade, a área de visitantes, o consultório médico e acomodações para alguns operários da Petrobras. O lugar, de aparência impecável e decorado aqui e ali com objetos típicos da floresta tropical, lembra um pouco uma escola de ensino fundamental recém-inaugurada. Uma mesa de bufê havia sido preparada para nós, e um garçom trajado com uniforme elegante nos trouxe bebidas geladas. Fomos convidados a nos servir e informados de que, em seguida, assistiríamos a uma apresentação sobre as coisas maravilhosas que essa empresa petrolífera está fazendo mo meio da maior floresta tropical do mundo. Enquanto mastigava um biscoito e observava meus anfitriões vestidos de laranja sorrindo e acenando com a cabeça, disse a mim mesmo que aquela seria a única coisa que eu engoliria tão facilmente.

A apresentação resumiu a história da exploração de petróleo na região. Embora o petróleo nesta parte da Amazônia tenha sido descoberto em 1917, a unidade produtora de Urucu só iniciou a perfuração no final da década de 1980. Atualmente existem cinco campos de petróleo em funcionamento na Amazônia, produzindo cerca de 200 milhões de barris por ano. Em Urucu, o gás natural é o principal produto, com 10,7 milhões de metros cúbicos extraídos do solo todos os dias. Um gasoduto recém-concluído ligando esse posto remoto a Manaus será, no futuro, a principal fonte de energia para a maior cidade da Amazônia. Isso, mais os milhões de dólares de royalties pagos pela Petrobras ao estado, sem dúvida transformará o cenário econômico de uma região que, não fosse isso, teria oportunidades financeiras limitadas.

Fomos informados de que o impacto da produção de petróleo em Urucu sobre o meio ambiente da Amazônia é mínimo e que a sustentabilidade é assunto da maior importância para a empresa. Concluída a apresentação, o ônibus chegou para nos levar a um poço produtor nas proximidades para uma demonstração de como a gigante do petróleo realmente respeita o meio ambiente.

Um pouco mais adiante, encontramos um operador de poço. Ele explicou que a área impactada pelos poços da unidade é mínima, uma vez que a extração do óleo do solo é feita não apenas vertical, mas também horizontalmente. Com esse processo, que requer desmatamento de uma área menor da floresta, é possível retirar mais petróleo de um único poço. Em seguida, ele abriu uma válvula do poço e colheu um pouco de petróleo em um cilindro graduado para mostrar como o petróleo bruto da região é leve.

Não posso dizer que já visitei muitos poços petrolíferos em produção para poder comparar com os da Petrobras, mas fiquei impressionado por ver como um poço desses consegue ser compacto. Ocupa uma área total equivalente a uma quadra de basquete e parece não interferir na maior parte da floresta ao redor que o circunda. Quando lhe perguntaram a respeito do impacto desse poço sobre a vida selvagem, o operador afirmou que era zero. Em seguida, ele nos deleitou com histórias fascinantes sobre os animais que encontrou no exercício da sua função – como a vez que ele e um colega de trabalho deram de cara com uma onça, o que os obrigou a escalar uma torre de rádio para evitar serem triturados. Quando lhe pediram detalhes, ele se ofereceu para contar outra história, insistindo que essa realmente havia acontecido.

A próxima etapa foi a visita ao centro de processamento da planta, onde as substâncias extraídas do solo são filtradas e refinadas. O engenheiro químico de plantão explicou que o gás natural é o carrochefe da unidade, e que grande parte do petróleo obtido é bombeado de volta para o solo – o que achei bastante interessante. Aparentemente, a demanda pelo total de petróleo que Urucu consegue extrair não está em Manaus nem nas outras cidades menores da Amazônia. Isto é, ainda não está lá.

Talvez a mais impressionante operação em Urucu seja o grande viveiro, concebido para recuperar a vegetação que pode ter sido perdida devido às operações da Petrobras na região. Dezenas de mesas longas estavam cobertas por milhares de mudas em vários estágios de crescimento. O funcionário responsável pelo viveiro descreveu o processo completo. Antes do desmatamento de uma área, seja para a perfuração de um novo poço, seja para a construção de um edifício, cada espécie de planta é cuidadosamente catalogada antes de ser cortada. Isso garante que a mesma flora possa ser replantada naquele local caso o projeto seja abandonado. Até mesmo a camada superior do solo, rica em nutrientes, é raspada e armazenada para que cada área replantada possa crescer sem ser muito prejudicada. Esse método foi usado para reflorestar cerca de 850 acres em Urucu.

Durante mais alguns passeios curtos pela cidade, nosso anfitrião mostrou uma escola para alfabetização de funcionários. Um pequeno hotel que parecia ter sido parcialmente construído com contêineres e um centro de reciclagem onde os resíduos são processados e transformados em adubo. Não é preciso dizer que a empresa investiu muito dinheiro e tempo para que a unidade de Urucu seja, arrisco dizer, responsável com o meio ambiente. Por isso, faz todo sentido quererem mostrá-la.

Durante toda a tarde que passei em Urucu, senti-me compelido a enxergar com ceticismo tudo que me foi apresentado – afinal, a Petrobras é uma empresa petrolífera. Parte de mim esperava descobrir que algo diabólico estava em marcha em todas essas coisas maravilhosas que eles estão fazendo, mas não foi isso que aconteceu. A escola de alfabetização de adultos, o viveiro e o centro de reciclagem não eram apenas fachadas de madeira compensada de um cenário de Hollywood, e os funcionários que varriam a calçada não mudavam a expressão de satisfação quando eu afastava a minha câmera. No final da visita, eu já estava acreditando que os operadores da usina de Urucu estavam sinceramente comprometidos em não degradar a Amazônia apenas para conseguir apresentar um relatório trimestral melhor.

Porém, meu receio é de que o verdadeiro problema não seja assim tão imediato – e talvez seja até mais sério. Hoje, as comunidades da Floresta Amazônica dependem da queima de combustível diesel para suprir suas necessidades de energia, que a Petrobras espera substituir por gás natural mais limpo extraído de unidades como a de Urucu. Com esse acesso à energia, porém, e as oportunidades oferecidas pela presença de uma indústria desse porte nas proximidades, a vida nessa região sem dúvida melhorará muito para todos. Mas, junto com as oportunidades, vêm os oportunistas – que, de uma forma ou de outra, acabarão sendo incorporados e com um custo para o meio ambiente, independentemente do quanto a forma usada para extrair o combustível do solo seja adequada.

Expressei essa preocupação para uma autoridade da Petrobras em Urucu. Ele encolheu os ombros e fez uma pausa, como se estivesse analisando a questão pela primeira vez. As pessoas não querem vir para a Amazônia, disse, de forma que isso não resultaria em um desenvolvimento muito maior. Temos um ditado aqui, continuou, que diz que o melhor ecologista é o mosquito da malária. Aparentemente, esse pequeno inseto é a última linha de defesa para evitar que a Amazônia se desenvolva demais. Por um momento, pensei em como um deserto árido e inóspito de Nevada se transformou em um lugar inundado de neon e concreto em menos de 50 anos.

Durante o voo de volta para Manaus naquela noite, pela janela era possível ver que a impressionante vastidão da floresta era mais escura que o céu da noite. Mas, ao contrário da impressão que eu havia tido da Amazônia durante o voo para Urucu, agora a floresta já não me parecia mais tão intocada. Enquanto voávamos, imaginei aquele bem-intencionado gasoduto serpenteando por entre as árvores, acompanhando as centenas de quilômetros que passavam por mim tão rapidamente sem deixar o mínimo traço de luz. Ninguém pode dizer com certeza como estará esta parte do mundo nas próximas décadas, mas sem dúvida estou feliz por ter tido a oportunidade de vê-la tal como é.